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A MORTE DE UM
COMBATENTE E A VIOLÊNCIA NA BAHIA Os assassinos: Ivan
Eça Menezes, o que puxou o gatilho, e Laurito Eça Menezes, irmão
dele, que segurou Natur |
Era um verde. Um verde vermelho. Um homem de coração
generoso, desses malucos que nunca perdem a estranha mania
de ter fé na vida, de acalentar sonhos de mudar o mundo, de repartir
o pão. Foi assassinado à queima-roupa, a menos de 1 metro de
distância, um tiro no coração, no dia 9 de março.
Natur de Assis Filho. Foi meu colega de
prisão no início dos anos 70, na Penitenciária Lemos de Brito, em
Salvador. Saiu antes de mim, e então andou exilado pelo México e
depois Moçambique, onde foi ajudar a revolução, idéia que o
acompanhou durante os seus 51 anos de vida.
Filho do poeta Natur de Assis, que
encantou o seu tempo com versos mágicos, e que combateu nas ruas
contra o Estado Novo e a favor da entrada do Brasil na Segunda
Guerra Mundial. Natur, o filho, tinha linhagem revolucionária.
CHE GUEVARA Dele, do
filho, se pode dizer que se dividiu entre Che Guevara e São
Francisco de Assis. Era de uma alegria intensa, quase explosiva.
Amava correr trilhas conhecidas e desconhecidas pelas matas do verde
vale onde morava, o Vale do Jequiriçá, onde está localizada sua
cidade natal, Ubaíra, a 300 quilômetros de Salvador.
Tinha uma paixão particular pelos
animais. No dia de seu velório, pude ver seu cachorro negro, grande,
deitado, os olhos mortiços, triste, a lembrar do dono que sumira
para um local desconhecido. Natur brincava com ele várias vezes por
dia, rolava com ele pelo chão, amigos de fé, companheiros.
Foi militante do Partido Comunista
Brasileiro Revolucionário (PCBR) na sua juventude, e por isso foi
preso. Depois, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores na
Bahia. E hoje, ao voltar para sua aldeia, abrigou-se no Partido
Verde, do qual era presidente no município.
Em 1997 estive na casa dele em Ubaíra,
chamado por ele para uma atividade que lembrava os trinta anos da
morte de Guevara. Casa da mãe, Maria Ivaneuza Souza de Assis, que
todos conhecem como Kátia. Aquelas casas centenárias, onde ainda há
uma cristaleira. Pude ver o quanto se amavam, como pude ver,
emocionado, a tristeza profunda de Kátia contemplando o filho no
caixão, e me dizendo: “Emiliano, ele passou por tudo aquilo e agora
o matam assim, sem que nem pra que”.
OS
ASSASSINOS Os assassinos: Ivan Eça
Menezes, o que puxou o gatilho, e Laurito Eça Menezes, irmão dele,
que segurou Natur. Os dois, inconformados pelo fato de terem perdido
a eleição no município, cercavam uma casa, atirando a esmo contra
mais de quarenta pessoas que estavam dentro. Eram todas ligadas à
nova prefeita, a médica Rosane Fagundes Tavares, do PSB, que liderou
uma coligação vitoriosa de oposição à corrente política de Ivan Eça
Menezes, que já havia sido prefeito duas vezes e que controlava o
município havia duas décadas, é do PFL e amigo pessoal do governador
da Bahia, César Borges. Natur, diante da
fuzilaria, disse: “Eu vou lá fora conversar com eles”. Foi contido.
Diziam-lhe que iria ser morto. “Se eu morrer, será só uma morte, não
várias”, disse, desvencilhando-se e abrindo a porta, para segundos
depois tombar morto, no jardim da casa. Minutos após, eu recebia um
telefonema informando-me do assassinato. Era sexta-feira. Passei o
sábado em Ubaíra. Fui com Paulo Pontes, que foi dirigente do PCBR e
colega de Natur na prisão, e com Mariana, filha de Natur.
Todos nós, seus companheiros, de vários
partidos ou de partido nenhum, denunciamos insistentemente, de todas
as tribunas possíveis, a impunidade predominante na Bahia, e no fim
do mês de março os dois estavam presos, ou presumivelmente presos.
Entregaram-se em Salvador, mas ninguém os tinha visto até o início
de abril. E falava-se que brevemente eles conquistariam o direito de
responder ao processo em liberdade, o que será um absurdo, pois o
assassino acumula vários inquéritos.
MAIS MORTES QUE EM
NOVA YORK A Bahia é a terra da
impunidade quando se trata de crimes políticos de pessoas vinculadas
à corrente política do senador Antônio Carlos Magalhães. Só na
década de 90, foram assassinados dez jornalistas no interior baiano,
sem que nenhum dos assassinos tenha sido preso. Dez jornalistas, um
por ano, é isso mesmo. Curioso é que ainda haja jornalistas
processados e até condenados, como são os casos de Marconi de Souza
e Ivana Braga, ambos de A Tarde. E foram mortos também dois
vereadores do PT – um em Jaguarari, outro em Candeias.
E, se o problema se desloca para a
violência contra a população em geral, o Estado se notabiliza ainda
mais. Recentemente, a violência começou a alcançar as camadas
médias. Uma jornalista e dois jovens adolescentes foram mortos,
crimes que chocaram a opinião pública pela mobilização que
provocaram. Para ter uma idéia da
gravidade da situação, basta citar o exemplo de Salvador, onde 41
por cento dos assassinatos que ocorreram entre 1993 e 2000 foram de
vítimas não identificadas. São 1.734 corpos sem identificação,
grande parte provavelmente vítimas de morte pela polícia ou por
grupos de extermínio. Esses corpos são de negros, pobres e moradores
da periferia da capital. Uma pesquisa da
Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Salvador, entre 1996 e
1999, revela uma média de 88,5 assassinatos por mês na capital e de
36 homicídios para cada 100.000 habitantes. Em São Paulo, a média é
de 46 homicídios para cada 100.000 habitantes (A Tarde,
1/4/2001, página 27), e a capital paulista tem uma população seis
vezes maior do que Salvador. Em Nova York, a média é de quatro
assassinatos para cada 100.000 habitantes, também segundo a
reportagem de A Tarde. A
combinação de um sistema político profundamente autoritário, sob o
comando do senador Antônio Carlos Magalhães, com a aplicação
rigorosa da política neoliberal, que torna a Bahia um dos Estados
mais miseráveis do Brasil, explica tanta violência.
Há, hoje, no entanto, um forte
sentimento contra tudo isso. Um anseio pela paz. A mobilização de
vastos setores da sociedade contra a violência e a profunda
injustiça social reinante. Reivindicações que o assassinato de Natur
reforçou. Só continuando essa luta seremos dignos da luta dele, um
pássaro cheio de vida abatido em pleno vôo.
Emiliano José
é jornalista, autor de Marighella, o Inimigo Número Um da
Ditadura Militar e de Galeria F - Lembranças do Mar
Cinzento, entre outros livros. |
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