ENTREVISTA/Emiliano
José
"Poucos tiveram a
dimensão de Marighella"
A decisão de partir para a luta armada foi do
próprio Marighella", diz o jornalista e professor da UFBA, Emiliano
José. Militante da Ação Popular (AP), preso em 70 e libertado em 74,
Emiliano concedeu entrevista por telefone ao repórter Ayrton
Maciel.
JORNAL DO COMMERCIO - O senhor coloca
Marighella entre os grandes líderes da esquerda?
MILIANO JOSÉ - Sim. Poucos têm a
dimensão que ele teve. Talvez, maior que ele, o Prestes. Ele chegou
a disputar e até vencer o Prestes, em certos momentos, em questões
internas do partido (PCB).
JC - O PCB e muitos militantes da esquerda
consideram que Marighella cometeu um erro estratégico ao optar pela
luta armada. Com isso, em vez de levar a uma abertura política,
promoveu o endurecimento do regime. Ele errou ou não teve
escolha?
Emiliano - A esquerda tem tentado
fazer uma análise mais precisa sobre isso. No meu livro, faço uma
crítica a Marighella por essa opção. De um modo geral, as
organizações que aderiram às armas cometeram um erro de avaliação.
Mas, era um momento de repressão muito forte, com o AI-5 de um lado,
o que acabou radicalizando a esquerda do outro. Não existia uma luta
política aberta com a sociedade participando, e sim uma luta armada
subterrânea. Estabeleceu-se um confronte entre as Forças Armadas e
as organizações de esquerda, essas com poucos militantes e sem
estrutura.
JC - Há culpados pela morte de
Marighella?
Emiliano - A culpa é da ditadura.
Não é de nenhum companheiro nem dos dominicanos. As pessoas que
abriram foi sob tortura. Eu separo os que traíram porque passaram a
ser colaboradores do regime daqueles que atingiram o seu limite para
suportar a dor. O problema é que as organizações sempre apostaram no
heroísmo de seus militantes, não tendo saídas emergenciais para
enfrentar as situações de entrega de nomes.
JC - Diante do cerco que se fechava, a
partir de várias prisões, por que Marighella não decidiu sair do
País?
Emiliano - Deveria ter saído.
Talvez, porque achasse que conseguiria fugir do cerco tático que a
repressão montava. Mas, também, porque era uma pessoa generosa, não
queria abandonar os companheiros. É a dimensão histórica de alguns
homens.
JC - No livro, o senhor fala que a repressão
tinha uma imagem `sobrenatural' de Marighella. Quais os
indícios?
Emiliano - Vários depoimentos, até
de integrantes da repressão. Ele era um mito e era necessário
assassiná-lo. Essa imagem favoreceu o regime. Propagar que
Marighella era inteligente, perigoso e preparado servia à propaganda
da repressão para justificar a sua eliminação.
JC - Como os dominicanos foram usados para
se chegar a Marighella?
Emiliano - Os dominicanos foram uma
base de apoio essencial para a ALN. Eles estavam muito próximos das
idéias marxistas, no combate à injustiça, na luta por uma sociedade
mais justa e contra a violência da ditadura. No encontro, que acabou
levando à morte de Marighella, os freis Yves e Fernando foram
usados. Eles foram violentamente torturados. Marighella recebeu um
telefonema e foi saber da situação, depois de muitas prisões. Os
dois tinham consciência que estavam levando Marighella à
morte.
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