Por Emiliano José
O homem caminha na noite. Numa infinita solidão. Sabe-se só. Inelutavelmente só. Uma solidão que não o maltrata. Só solidão. Não é ela, com quem conviveu tanto sempre, que lhe confrange o coração. São os mortos. Seus mortos. Seus companheiros mortos. Os tantos em décadas. E os dos últimos dias. Os que não desistiram de lutar. E que tombaram massacrados, esquartejados sob mãos assassinas. Pensa em Jonas, comandante Jonas. Do corpo todo de Jonas, apenas o coração restara intacto. O resto, despedaçaram. Bravo, leal, sensível, corajoso Jonas. Eterno Jonas. Não tivera medo. Morrera agora, setembro.
Caminha lentamente. Não sabe por que, mas de repente, lhe vem à mente a Revolução dos Alfaiates. Ou dos Búzios, como se queira. Os quatro mártires enforcados e suas cabeças cortadas e exibidas por muitos dias no centro de Salvador. Para que servissem como exemplo. Para que negro nenhum tentasse de novo rebelar-se contra o poder metropolitano. A forca de 1799. Agora esse clima de 1969. Qual a diferença? Vai se interrogando, enquanto anda, enquanto experimenta a solidão. Um país difícil esse nosso, de classes dominantes cruéis. Pensa em Canudos, o massacre nos sertões de sua terra.
Com uma ditadura como essa, só luta armada. Não há outro jeito. Repete isso, de si para si, como que a convencer-se de que não há mesmo outras saídas. Está apreensivo. A palavra é essa: apreensivo. Não teve tempo para conhecer o medo, que naquele momento podia insinuar-se em seu espírito. Sua apreensão: o cerco apertava-se. Sentia isso no clima pesado de São Paulo, nas mortes seguidas, nas prisões. A Organização estava sob ataque cerrado do inimigo. Sabia, tinha convicção, que o queriam de modo particular, e que não o poupariam. Estava marcado para morrer.
Era necessário, urgente organizar a retirada das grandes cidades. Intensificar os preparativos para desencadear a guerrilha rural e a partir daí sublevar o povo brasileiro. Pensa em quantos foram embora do País, a seu conselho. Ele, não. Tinha responsabilidades, noção do seu papel dirigente da revolução brasileira, que se avizinhava. Não iria embora. Quem samba fica, quem não samba vai embora. Ficava, apesar de tudo. Quase sentia o cheiro dos cães farejadores, com seus dentes afiados, com sua baba raivosa. Quando soube do seqüestro do embaixador americano, 4 de setembro, teve certeza de que o torniquete iria se apertar.
Sabia que a partir dali as forças repressivas jogariam toda sua força contra a Organização e contra ele. Celebrou o seqüestro. Foi a mais ousada ação revolucionária da luta contra a ditadura. Sempre dissera que o dever de todo revolucionário era fazer a revolução. Ponto. Mas não tinha dúvidas sobre a avalanche, sobre o terror iminente, que veio, deixando até ali um impressionante rastro de sangue e de dor.
Solidão. Num relance, como um raio a espantar a solidão, surge Clara em sua mente, amor de toda a vida. Pensa em Cuba, Fidel. Anima-se no meio da escuridão. Nós também podemos fazer nossa revolução.
Vamos tirar todos os companheiros e companheiras de São Paulo. Vamos organizar nossas forças no campo, mobilizar os camponeses. Levantar o povo brasileiro. Derrubar a ditadura sanguinária. Chegar à democracia e ao socialismo. O pensamento dá outro giro. Pensa na solidão e na esperança. Gozado: a solidão não lhe retira em momento algum o sentimento da esperança. Confia profundamente na Revolução. Confiança nascida já nos tempos de estudante na Bahia, e que se consolidou ao longo da militância no PCB e agora na ALN. A Revolução sempre foi sua musa, paixão de vida inteira.
Ia ao encontro dos padres. Precisa discutir a situação com eles, ver como organizar a retirada das grandes cidades. Pensa em Carlinhos, o filho, que sabe militante. Tem orgulho dele. Lembra dos irmãos. Da Bahia de tantos carnavais, que ele ama tanto. Volta lá, assim que puder. Estava a poucos metros do ponto. Viu o fusca. Os padres, dentro. Ouviu tiros na noite escura, muitos. Caiu. Ainda pensou nela, na musa, Revolução. Carlos Marighella, inimigo número um da ditadura militar, tornava-se imortal. Herói do povo brasileiro.
Publicado no jornal A Tarde (12/10/2009)