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Por Emiliano José

Parte 5 - "Theodomiro parte para o exílio"

Marco Antônio recorda hoje terem chegado a Brasília por volta das 9 horas da manhã do dia 30. Circularam por Brasília, desceram do carro em frente ao gramado do Congresso, leram o Estadão com a notícia da presença de Theodomiro em São Paulo e, ao meio-dia, horário marcado para a reunião com os deputados, dirigiram-se para a Quadra 202, Norte, para o apartamento de Airton Soares. Pinto detalhou com eles o trajeto e um pouco antes das 14 horas saíram rumo à Nunciatura.

Theodomiro vestia um paletó branco, carregava uma Bíblia e na lapela luzia uma pequena cruz, distintivos que o confundiriam inevitavelmente com um padre. Airton iria com seu carro na frente, era o guia. No carro do meio, Marco Antônio, Margareth e Theodomiro, e atrás Pinto com seu Dodge 1970.

Airton passou em frente do portão da Nunciatura, felizmente escancarado. Marco Antônio parou um pouco antes, e Theodomiro desceu. Pinto passou, e tanto o carro dele quanto o de Airton ficaram estacionados logo adiante. Eles queriam ver a entrada de Theodomiro, saber se ocorreria sem problemas. Marco Antônio dirigiu-se ao Congresso Nacional, deixou lá o carro, para ser levado de volta ao Rio pelo motorista de Airton Soares, e junto com Margareth pegou um avião também para o Rio. Para Marco Antônio, a Operação Albatroz fora concluída com sucesso. Mas ainda havia muito chão pela frente.

Theodomiro foi parado pelo porteiro, que, atencioso, perguntou:

- O senhor é religioso?

- Sim, sou. Eu queria falar com o núncio apostólico, dom Carmine Rocco.

Foi encaminhado à irmã Zélia, secretária do núncio:

- Eu estou querendo falar com dom Carmine.

- O senhor é religioso?

- Sim, sou.

- O núncio está descansando. O senhor se incomodaria de esperar?

- De modo algum.

Theodomiro recorda-se de ter sentado numa sala à esquerda de quem entra. Francisco Pinto e Airton Soares, logo que perceberam Theodomiro em segurança dentro da Nunciatura, entraram também. Apresentaram-se ao porteiro dizendo que tinham sido chamados por dom Carmine Rocco. A irmã Zélia perguntou-lhes o que queriam.

- Nós viemos chamados pelo núncio, que quer conversar conosco.

- Estranho, pois não há qualquer audiência marcada para hoje à tarde.

Pinto me diz que ele e Airton insistiram muito, e que percebeu quando irmã Zélia, vendo-os subir para o local onde deveriam ficar os aposentos do núncio, chamou um padre. Viriam saber mais tarde tratar-se do monsenhor Renato Rafaelo Martino, primeiro-secretário da Nunciatura. Este disse aos dois que os acontecimentos daquela tarde estavam lhe parecendo muito estranhos:

- Logo ali, naquela sala, há um padre que quer falar com o núncio, e ninguém mandou chamá-lo. Agora, os senhores, com quem não foi marcada nenhuma audiência, dizem que foram chamados aqui pelo núncio. O que está havendo?

Pinto pensou rápido e decidiu que era a hora de começar a jogar o jogo verdadeiro. Com a voz baixa, pausada, minha conhecida de muitas reuniões madrugada adentro, Pinto respondeu, mexendo com o cigarro enfiado numa piteira:

- Gozado, padre. Eu também estou achando tudo estranho. Será que tudo isso não tem a ver com aquele rapaz que fugiu da prisão, na Bahia?

As faces e a calva do monsenhor ficaram subitamente ruborizadas e ele disparou em direção à sala onde estava Theodomiro.

- Quem é o senhor?

- Eu sou Theodomiro Romeiro dos Santos.

O monsenhor, que mais tarde se tomaria representante do Vaticano na ONU, foi incisivo:

- O senhor vai ter de sair daqui imediatamente!

- A única coisa que eu não posso fazer é sair daqui.

O religioso ficou apoplético. Pinto, percebendo a tensão, correu à Câmara Federal e chamou a imprensa. De repente, um batalhão de jornalistas invadia a Nunciatura atrás de Theodomiro. O monsenhor gritava, sem parar:

- Fora! Fora todos! Vocês não têm direito de invadir assim a Nunciatura! E insistia: Theodomiro teria de sair. E Theodomiro insistia: sair, nem pensar.

Pinto e Airton falam da necessidade de conversar com o núncio, que a essa altura, com tal balbúrdia, já está acordado. Dom Carmine Rocco não era um exemplo de religioso progressista. (Mais tarde Theodomiro ouviria de um dos funcionários graduados da Nunciatura a seguinte explicação sobre as idéias do núncio: "Ele é de um tempo, na Itália, em que aquele que não fosse fascista era comunista. E ele nunca foi comunista".) Pressionado, dom Carmine Rocco aceitou receber os deputados. A conversa não começou bem.

- Vou botar esse rapaz para fora! Não há o que conversar. A Igreja não pode proteger um assassino!

Airton Soares contra-argumentou:

- Vossa eminência sabe perfeitamente que, nas condições do Brasil de hoje, ele pode vir a ser assassinado se sair daqui.

- Não há o que discutir. Não vamos proteger um assassino!

Irritadiço como é, Airton Soares começa a radicalizar, a dizer do absurdo da posição de dom Carmine insistindo que ele tinha de assumir uma postura mais humana, menos intransigente. A situação parecia caminhar para o impasse.

Pinto, criado na escola do velho PSD, capaz de dizer as coisas mais duras sem elevar o tom de voz, pediu a palavra. Pensara bastante enquanto Airton quase berrava com dom Carmine Estava plenamente consciente de que em nenhuma hipótese Theodomiro poderia sair dali:

- Queria dizer a vossa eminência que a minha família é muito cristã, profundamente vinculada à Igreja Católica. Chegamos a doar boas áreas de terra para a Igreja, em Conceição do Jacuípe, nas proximidades de Feira de Santana, na Bahia. Fui educado na compreensão de que a Igreja Católica sempre soube proteger os fracos, os perseguidos de qualquer natureza. Fui ensinado que Cristo pensou assim, que tal ensinamento está nos Evangelhos. E agora me surpreendo com Vossa Eminência falando nesse tom. Será que o senhor não se apercebeu ainda que esse rapaz pode ser morto se sair daqui? Será que não pensou no quanto isso pesaria para a Igreja?

- Não, ele terá de sair!

Aí, conta Pinto, o sangue lhe subiu à cabeça. Largou a piteira com o cigarro em cima da mesa e elevando a voz disse, numa ameaça que estava absolutamente disposto a cumprir:

- Então, nós o denunciaremos como co-responsável pelo assassinato de Theodomiro!

Dom Carmine assustou-se, respirou fundo, olhou para os dois deputados por longos segundos, e por fim disse:

- Está bem, ele fica.

Disse isso e completou:

- Só Deus sabe os problemas que vou enfrentar.

Imediatamente, Theodomiro foi chamado não pelo núncio, mas por dom Martino:

- A partir de agora, sou o responsável por você.

Com alguma experiência com asilados políticos, pois já havia enfrentado problemas semelhantes no Líbano, dom Martino explicou-lhe que sua vida ali dentro seria bastante restrita, controlada. À mente de Theodomiro vieram todas as preocupações anteriores, manifestadas ao BR: aquilo poderia se transformar numa outra prisão. O Estado do Vaticano, a partir dali - continuou o monsenhor -, era o responsável por ele e por isso teria de tomar todos os cuidados possíveis para que sua integridade fosse preservada. Falou de direitos e deveres. Qualquer correspondência que chegasse para ele seria aberta primeiro pelo próprio dom Martino (mais tarde Theodomiro compreenderia o quanto isso era importante). Não poderia sair do seu quarto, salvo para uma área fechada de aproximadamente 20 metros quadrados.

No mesmo dia 30 de outubro, autorizou que fizesse uma ligação para a mãe, a quem Theodomiro informou estar bem e acalmou, dizendo que breve haveria uma solução positiva.

Começaram, então, as negociações para a saída do país, que Theodomiro acompanhava sempre através de dom Martino. Como o Vaticano não tinha tratado de asilo com o Brasil, não poderia, na verdade, concedê-lo. Acabou por ser intermediário de um asilo concedido pelo México. Um dia antes de ir embora, Theodomiro recorda-se de ter recebido a visita, quase conspirativa, de dom Martino a seu quarto. Pedia que aquilo que iria ouvir não fosse tão cedo contado a ninguém. Theodomiro tentou agora me reproduzir o que dom Martino lhe disse:

"Três dias após você ter chegado à Nunciatura, recebemos um envelope pardo, grande, relativamente volumoso, endereçado você. Como é do seu conhecimento, tenho de olhar a correspondência. Abri, e dentro havia um outro envelope, um pouco menor, branco, onde estava o que lhe era dirigido verdadeiramente. Como havia muita cola, abri os quatro lados com muito cuidado, com uma espátula. Dentro, havia um Caderno do CEAS, e no interior dele um emaranhado de pequenos fios, e eu não entendi nada. Deixei tudo em cima de minha mesa, e fui dormir. Deitei e, de repente, gelei. Era uma bomba, com certeza."

No dia seguinte, dom Martino ligou para a embaixada americana, pediu a ajuda da CIA, cujos agentes confirmariam tratar-se de um bomba com poder para matar uma pessoa, e desmontaram-na. A Nunciatura, depois da saída de Theodomiro do Brasil, apresentou a respeito um protesto formal veemente ao ltamarati, sem que tenha, no entanto, havido qualquer providência do governo brasileiro.

Exatamente quatro meses após a fuga da Penitenciária Lemos de Brito, 17 de dezembro, Theodomiro é acordado cedo para seguir primeiro para o Rio de Janeiro, e depois para a Cidade do México. Antes das 5 está de pé e, depois de arrumar os poucos pertences e aprontar-se, segue para o aeroporto de Brasília, acompanhado de Martino, do primeiro-secretário da embaixada do México, Rafael Mijares, e de quatro agentes da Polícia Federal. As passagens são compradas no balcão, na presunção de que a operação possa ser mantida em sigilo.Theodomiro traja calça marrom-claro, paletó branco, camisa estampada e gravata vinho. Antes de embarcar para o Rio, despede-se de dom Martino com um caloroso abraço. Os 48 dias de convivência da Nunciatura construíram uma duradoura amizade. Mais tarde, dom Martino surpreenderia Theodomiro, visitando-o em Paris.

Desceu no Galeão Rio, de um avião da VASP, às 8 horas e 40 minutos. O forte aparato de segurança chamou a atenção da imprensa e a pretensão de embarcá-lo sigilosamente esvaiu-se

Desceu no Galeão Rio, de um avião da VASP, às 8 horas e 40 minutos. O forte aparato de segurança chamou a atenção da imprensa e a pretensão de embarcá-lo sigilosamente esvaiu-se. A Theodomiro, no entanto, não foi permitido qualquer contato com os jornalistas. Conduzido até o avião da Avianca por Rafael Mijares, sentiu um alívio profundo quando, de cima, viu o Rio de Janeiro desaparecer rapidamente de seu raio de visão. O cativeiro na Nunciatura fora muito menor do que esperava; Bruno e o partido tinham razão.

Ao chegar à Cidade do México foi recebido por um zeloso funcionário do Ministério do Interior. Foi levado para o Hotel Francis, à avenida Paseo de la Reforma, e informado de que teria as despesas de alimentação e estadia pagas pelo governo mexicano. O funcionário aconselhou-o a dormir o quanto quisesse, cuidando de informa-lo que no dia seguinte deveria ir ao Ministério do Interior para assinar os documentos de asilo.

Ao acordar, Theodomiro encontraria Jorge Medeiros do Vale o "Bom Burguês", a esperá-lo no hall do hotel, junto com outros brasileiros que não conhecia e dos quais não lembra os nomes. Eles o acompanharam ao Ministério do Interior, onde recebeu o documento de identidade e viagem, da ONU, destinado a refugiados e apátridas. No dia 20, deu uma entrevista de repercussão à televisão mexicana, falando, entre outras coisas, sobre as condições políticas do Brasil, as limitações do projeto de anistia recentemente aprovado e sobre a não-convocação da Constituinte. Começaria, então, a articular a ida para a França, onde estavam sua mulher, Conceição, e seu filho, Bruno, com pouco mais de quatro meses, e onde viviam muitas pessoas conhecidas.

Ao informar o Ministério do Interior de sua pretensão, soube que isso implicaria a renúncia ao asilo mexicano. Compreendeu e aceitou. No dia 23, seguiu para Paris, com escalas em Toronto e Madri. Ao desembarcar na capital francesa, foi informado pela polícia de que não poderia ficar. Colocaram-no de volta a Madri, no mesmo avião. Ao saltar na Espanha, foi retido por uma Guarda Civil nada amistosa. Outra via-crúcis, imaginou. A Anistia Internacional, no entanto, sabendo que o governo francês o fizera voltar, iniciou insistentes gestões até conseguir a permanência de Theodomiro em Paris.

Rapidamente, o visto provisório foi transformado em asilo definitivo. Passou a

 fazer um curso de francês, concedido aos asilados pelo governo, em Fontenay-sous-Bois, pequeno município a 15 quilômetros de Paris, num convento onde havia uma ala só para refugiados. Conseguiu um emprego de pintor de paredes, tomando-se empregado de um patrão solitário que pintava as casas junto com ele. Chamava-se Dominique Migné, era extremamente bem-humorado e conversador e acabou por converter-se no melhor professor de francês que Theodomiro teve.

Inscrito na Agência Nacional para o Emprego da França, foi chamado para fazer um curso de fresagem em Stains, a 30 quilômetros de Paris, recebendo, para tanto, uma bolsa de estudos. O curso era promovido pela Associação para a Formação de Adultos. Ao final, tirou a melhor nota e ganhou um estágio de quinze dias na Renault e o direito de fazer um curso de especialização em máquinas com comando mecânico, ao fim do qual foi contratado pela Mecânica Geral de Precisão Charles Robert, onde aprendeu a fazer peças para bombas atômicas, para turbinas de usinas nucleares, radares para tanques de guerra, instrumentos para submarinos nucleares, todos, peças e instrumentos, de altíssima precisão. Nessa metalúrgica trabalhou de 1981 até 1985, quando, com o fim da ditadura, voltou ao Brasil.

Chego ao fim. A frente da tela do computador, penso em nós. Não fomos simplesmente os que amávamos os Beatles e os Rolling Stones. Não fomos mandados à guerra. Eu, Theodomiro e milhares de outros jovens dos meados dos anos 60 decidimos ir à guerra. Dispostos a tudo. Éramos os que amávamos, e amamos, a revolução, como disse recentemente um dos nossos queridos amigos, Carlos Sarno, que esteve conosco na galeria F, embora revolução, aqui, não tenha o sentido de ontem. Seria correto dizer que demos adeus às armas, que o mundo e o país são outros. Mas estamos sempre de volta, outros e os mesmos. Pedindo sempre o impossível: um mundo justo, no qual as pessoas possam ser felizes, desfrutar sem maiores preocupações dos prazeres da vida, e achando sempre que este mundo, o de agora, envolvido nessa produção desenfreada de mercadorias destinadas ao consumo de quem tem dinheiro, esse mundo da vertigem desenfreada do dinheiro muito nas mãos de poucos, este mundo continua a não ser o que queremos.

Leia a série completa

Introdução

 "O encontro"

Parte 1

 "A prisão"

Parte 2

"Condenado à morte" 

Parte 3

"A fuga" 

Parte 4

"A notícia" 

Parte 5 - Final

"Exílio e liberdade"

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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