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Lembranças do Mar Cinzento (XXIX)

Emiliano José

1924. A Coluna Prestes, com mais de mil homens, acerca-se de Rio de Contas, município baiano situado na Chapada Diamantina, então com pouco mais de 800 habitantes. Abílio César de Almeida chefia o Telégrafo da cidade. Os batedores da Coluna dirigem-se primeiramente a ele:
- Há resistência à Coluna aqui?
- Não, nenhuma - responde Abílio.
  
Os batedores voltam e avisam o estado-maior: podiam entrar sem problemas. Logo que o primeiro grupo desponta na cidade é recebido à bala. A coluna reage, a resistência se dispersa. E os oficiais ordenam a prisão de Abílio. Dona Laudelina Contreiras de Almeida, mulher dele, se desespera:
- Vão matar meu marido!
  Corre pra lá e pra cá, apelando para que não o matassem até que uma voz serena e firme traz-lhe de volta a calma:
- Fique tranqüila. Nós não vamos matá-lo.
  Era João Alberto, um dos mais importantes comandantes da Coluna. A resistência limitava-se a quatro soldados, que haviam obedecido ordens de um delegado animado por algumas doses de cachaça, que quando viu o tamanho da encrenca em que se havia metido, largou a coragem de lado, embrenhou-se nos matos e nunca mais se soube dele. Os soldados foram presos, mas João Alberto ordenou que fossem soltos:
- Soldado só cumpre ordens. Procurem o delegado.
  Abílio e Laudelina moravam na Praça do Rosário, onde também funcionava a Estação Telegráfica. Por uns quatro, cinco dias João Alberto dividiu mesa com os dois. No primeiro dia, desfeita a confusão, sentindo o cheiro da comida, já íntimo da família, João Alberto revelava o seu prazer:
- Dona Milu, há muito tempo que não como comida de panela. Se a revolução for vitoriosa, me escreva que eu lhe atenderei no que precisar.
  Dona Milu acreditou e quando houve a Revolução de 1930, ela escreveu. Não houve resposta. A carta deve ter-se perdido nos escaninhos da burocracia.
  Luís Contreiras tinha apenas um ano de idade quando as tropas prestistas chegaram a Rio de Contas. O relato sobre a Coluna em Rio de Contas ele ouviu de seus pais, Dona Milu e Abílio, diversas vezes, e a cada relato era sempre uma emoção renovada. Prestes, mais tarde ingressa no Partido Comunista, que marcará a vida de Contreiras.
  1964. No dia 2 de abril, um dia após o golpe militar, Contreiras é avisado: não deveria dormir em casa. Se o fizesse seria preso. Foi o recado que recebeu de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual pertencia. Fugiu durante uns 40 dias. Dormiu algum tempo em casa de amigos em Salvador. Depois, Feira de Santana. Chegou até Nanuque, em Minas Gerais, sempre amparado por companheiros do PCB. Foi em Nanuque que sentiu o cerco apertar. A repressão se acentuou na região porque o movimento camponês era forte. Voltou a Salvador e resolveu se apresentar.
  As perguntas giravam em torno do PCB. Argumentou que não estava muito envolvido com o partido, que ele estava naquele momento muito mais dedicado à engenharia, o que era verdadeiro. Tinha uma empresa, estava prestando serviços à Companhia Valença Industrial, que àquela época estava ampliando suas instalações no município de Valença. Com a fuga, teve o contrato suspenso. Não foi preso na ocasião. Os militares acreditaram na história dele.
  Contreiras acompanha os que criticam a visão triunfalista do governo e mesmo dos comunistas do PCB, que acreditavam existir um forte esquema militar capaz de se antepor a um golpe da direita. Não havia nem forças militares dispostas a resistir e nem agrupamentos organizados da sociedade com capacidade para enfrentar um levante reacionário. Havia ilusão, na visão dele, em alguns movimentos. A idéia de reforma agrária “na lei ou na marra”, defendida por alguns políticos como Francisco Julião, era equivocada, na opinião de Contreiras. E o golpe foi ajudado por provocadores, como o cabo Anselmo, que mais tarde desnudou-se como colaborador da repressão.
  Contreiras iniciou sua militância nos anos 40, quando chegou ao Colégio da Bahia - mais tarde Colégio Central. Antes, foi católico militante. Coroinha em Rio de Contas, congregado mariano em Salvador, tornou-se comunista logo depois, ainda adolescente. “Abri dissidência com Deus e ingressei no PC”, costuma brincar. Tanto a igreja como...

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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