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F – Lembranças do Mar Cinzento (XXV)
Emiliano José
Antes que algum leitor atento, e especialmente os historiadores, me alertem
sobre um erro cometido no último texto dessa série, faço eu próprio a
correção. O açodamento em entregar o capítulo causa isso. Disse equivocadamente
que o presidente da República, João Goulart, em 1963, havia enviado o
pedido da decretação do Estado de Sítio ao Congresso Nacional e este havia
negado. Trata-se de uma meia verdade.
Goulart enviou, de fato, a mensagem ao Congresso. Estava certo de que
havia uma conspiração golpista de direita em marcha e decidiu abortá-la,
adquirindo poderes para tanto. O pedido, no entanto, não encontrou acolhida
nem nas bases parlamentares do governo. E o governador de Pernambuco,
Miguel Arraes, temia que além de Carlos Lacerda, pela direita, ele também
fosse atingido, pela esquerda. Goulart, vendo que a proposta seria derrotada,
retirou-a, não sem antes dizer a Doutel de Andrade: “Nesta madrugada começou
a minha deposição”. E estava certo.
No último capítulo, dizia que Mário Lima, presidente do Sindipetro e deputado
federal pelo PSB, estivera com o governador de Minas Gerais, Magalhães
Pinto, junto com Lacerda um dos mais notórios articuladores do golpe militar.
Era outubro de 1963. Fora chamado por José Aparecido, secretário de governo
de Magalhães Pinto, para evitar confrontos entre o Sindicato de Petroleiros
de Belo Horizonte e as autoridades mineiras.
Os trabalhadores queriam comemorar os dez anos de criação da Petrobras
e para tanto tinham preparado, para a exposição comemorativa, um belo
estande com fotos, cartazes e dizeres anti-imperialistas. A direita, muito
forte em Minas Gerais naquele momento – de alguma forma, estimulada pelo
próprio governo –, dissera que iria arrebentar tudo. Que comunista nenhum
iria fazer propaganda em Minas Gerais. Mário Lima, por natureza um conciliador,
conseguiu abrandar os dizeres com o sindicato, pediu moderação nas faixas,
discutiu com o governo, pediu que a direita se acalmasse. A exposição
ocorreu e não houve os confrontos prometidos.
Magalhães Pinto pediu a José Aparecido que convidasse Mário Lima ao Palácio.
Conversaram bastante. Magalhães Pinto não só agradeceu a mediação de Mário
Lima, como discutiu com ele a situação do País. “Você, que é uma pessoa
equilibrada, deve saber que estamos liderando um movimento para enquadrar
o Jango”. Mário Lima explicou que ele era a favor das reformas de base,
“mas não era um radical”. Logo depois, esteve com Goulart. “Presidente,
há um movimento para tirar o senhor do governo”, disse-lhe. E Goulart,
meio jocosamente, respondeu: - Mário, o Magalhães está preocupado é com
o redesconto bancário. A hora que eu aceretar o redesconto, a conspiração
acaba.
Jango estava equivocado, como a história irá demonstrar. As iniciativas
de Magalhães visavam a muito mais do que ao redesconto do banco dele.
Mário Lima lembra-se da grandiosidade do comício de 13 de março de 1964,
no Rio de Janeiro. Ele próprio falou nesse ato, para mais de 200 mil pessoas.
Defendeu as reformas de base, a lei da remessa de lucros, uma política
externa independente.
Sentia que o clima político ficava cada vez mais tenso. No dia 31 de março,
a Nação é surpreendida com o general Mourão Filho marchando para dar o
golpe. Mário Lima, ainda no dia 31, sem acreditar que as coisas se tornassem
tão graves como vão se tornar, faz uma assembléia do Sindipetro para aprovar
as contas. No dia 1º, o golpe ganha contornos mais claros. Mário morava
na Liberdade, em frente ao Colégio Duque de Caxias. Quando lhe disseram,
no dia 2 de manhã bem cedo, que a polícia estava procurando-o, saiu pelos
fundos da casa, pulando um muro muito alto, o que lhe traz problemas nas
pernas até hoje.
Quando chegou ao sindicato, situado ao lado do Clube Português de Leitura,
a Polícia Militar já ocupava a sede da entidade. A tropa de assalto era
comandada pelo major Etiene Falcão. Havia um cordão de isolamento em torno
do prédio. “Sou deputado. Posso entrar?”, perguntou Mário Lima, educada
e firmemente. “Não insista, não complica”, disse o primeiro militar a
quem ele se dirigiu. “Mas sou deputado”, voltou a dizer Mário Lima, acenando
com os dispositivos constitucionais. “Só com ordem do governador”, foi
a resposta definitiva, seca.
Foi ao Palácio da Aclamação tentar falar com o governador Lomanto Júnior.
Foi recebido pelo coronel Cabral, secretário de Segurança Pública.
- Coronel, eu estou muito preocupado. A polícia invadiu o sindicato e
há rumores de que há gente morta lá dentro. E são rumores incessantes.
Quero entrar, me informar e ir a Mataripe para tranquilizar as famílias
dos trabalhadores.
- O senhor pode ir a Mataripe e garantir que não há ninguém morto.
Mário Lima insistiu...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento, de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha, e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar
(ambos da Editora Casa Amarela). Atualmente é vereador do PT em Salvador.
E deputado estadual eleito.
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