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F – Lembranças do Mar Cinzento (XXVI)
Emiliano José
Mário Lima estava tenso, preocupado. Fora impedido pelos militares comandados
pelo major Etiene Falcão de entrar no sindicato que presidia – o Sindipetro.
Tivera notícias de que havia trabalhadores mortos dentro da sede da entidade
e queria entrar de qualquer jeito para saber o que ocorrera e informar
às famílias, muitas das quais já haviam manifestado intranqüilidade. Fora
ao Palácio da Aclamação tentar falar com o governador Lomanto Júnior,
sem sucesso. No palácio, dialogou apenas com o coronel Cabral, secretário
de Segurança, que lhe garantira não haver nenhum trabalhador morto no
interior do sindicato sitiado. Era 2 de abril de 1964, alvorecer de um
golpe militar que atemorizou e torturou a nação por mais de duas décadas.
Eram momentos de muita dúvida, e medo, muito medo diante de homens de
armas engatilhadas, sob ordens de golpistas determinados a não respeitar
qualquer lei. Mário Lima não se conformou com a resposta do coronel e
retrucou:
– Coronel, me desculpe, mas o senhor não esteve no sindicato e não pode
garantir que ninguém esteja morto. Quero ver com meus olhos para poder
informar às famílias, que nesse momento estão desesperadas. Entro escoltado
mas eu próprio quero testemunhar. O senhor, então, peça autorização ao
governador.
O coronel deu meia-volta, acatando a sugestão de Mário Lima. Em poucos
minutos, retornou com a surpreendente resposta:
– Deputado, a polícia não está mais sob o comando do governador. Obedece
agora as ordens do general Manoel Mendes Pereira, comandante da VI Região
Militar. Só ele pode dar essa autorização ao senhor.
O golpe militar chegara com toda sua força de ilegalidade e arbítrio.
Mário Lima compreendeu isso com mais nitidez com a resposta do coronel.
Mas não teve dúvidas em dar o passo seguinte:
– Coronel, então eu quero falar com o general. Eu vou ao quartel-general.
A situação em Mataripe é tensa e uma refinaria funcionando sob tensão
é perigosa. Eu preciso ir até lá, mas só vou se ver o que está acontecendo
dentro do sindicato, me desculpe insistir.
O general Manoel Mendes Pereira era também conhecido entre os seus comandados
e por boa parte da sociedade baiana como Manelão. Mário Lima percebeu
que era bastante arriscado dirigir-se à cova do leão. O quartel-general
situava-se no bairro da Mouraria, nas cercanias do Centro Histórico de
Salvador, a poucos metros do Colégio Central, este um estabelecimento
famoso por abrigar alunos célebres, entre os quais podem ser lembrados
Carlos Marighella e Glauber Rocha como parte de gerações da esquerda baiana
que por lá passaram.
Apesar de perceber que poderia estar cometendo um erro indo ao quartel-general,
o espírito de solidariedade com seus companheiros falou mais alto. O coronel
Cabral disse que não havia problemas. Ele próprio o levaria ao general.
No jipe, foram o coronel, Mário Lima e um ajudante de ordens. Mário confessa:
no curto trajeto entre o Palácio da Aclamação e o quartel-general começou
a ter medo de ser seqüestrado. Do jipe observava o vai e vem das pessoas
naquele final de tarde do dia 2 de abril, todas elas aparentemente indiferentes
a toda aquela movimentação do País, que iria mexer profundamente com a
vida de todas elas por duas décadas.
Ao chegar ao interior do quartel-general, foi recebido aos gritos pelo
general Humberto de Mello:
– Vocês são uns baderneiros! Fizeram greve em Mataripe, estão querendo
subverter a ordem!
Mário fez esforço para manter a tranqüilidade:
– General, eu sou um parlamentar. Vim dialogar e peço respeito.
O general não respondeu, deu as costas e desapareceu.
Voltou após alguns minutos:
– O senhor está preso.
Ditadura. Agora não havia mais dúvidas, pensou Mário Lima. Foi levado
para o Quartel do Barbalho, fortificação existente, com sua arquitetura
atual, desde o século XVIII e que abrigou prisioneiros políticos famosos,
entre os quais Cipriano Barata, no século XIX, e Theodomiro Romeiro dos
Santos, em 1970.
À chegada, Mário Lima constatou estar sozinho. No dia seguinte, viu vários
outros presos políticos chegarem. Nunca o colocavam junto com os demais.
Estava incomunicável. Haviam divulgado que se fosse preso, os trabalhadores
explodiriam a Refinaria de Mataripe e...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento; As asas invisíveis do
padre Renzo; Lamarca, o Capitão da Guerrilha; e de Carlos Marighella,
o inimigo número um da ditadura militar. É vereador do PT em Salvador
e deputado estadual eleito. emiljose@uol.com.br - (site: www.emilianojose.com.br)
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