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Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (XXVII)

Emiliano José

No dia 2 de abril de 1964, à noite, Mário Lima viu-se preso no Quartel do Barbalho, em Salvador. Estava incomunicável. Corria o boato de que se ele fosse preso, os trabalhadores explodiriam a Refinaria de Mataripe. Dormia no chão. As celas do Barbalho não possuíam sanitários, substituídos por latas de 20 litros que, depois de cheias, eram carregadas pelos próprios presos para os banheiros e esvaziadas.

Na primeira quinzena de maio, apareceu um oficial do Exército que ele não havia visto ainda perguntando se estava sofrendo alguma pressão ou tortura. O oficial percebeu que Mário Lima caminhava com dificuldade. Não havia sido vítima de nenhuma tortura, respondeu. Mas o fato de dormir mais de um mês no chão prejudicou seus movimentos. Dois dias depois da visita, foi transferido para o Quartel de Amaralina, onde as condições eram melhores.

Poucos dias passados, e anunciam a visita do advogado
e professor Raul Chaves. Quando o viu ao longe, imaginou que estivesse também preso dado o número de soldados armados que o escoltava. Soube pelo próprio Raul Chaves que trabalhadores o haviam procurado para que fosse seu defensor. Depois de se inteirar de tudo que ocorrera, Chaves disse que iria impetrar um habeas-corpus junto ao Superior Tribunal Militar (STM).

Numa tarde, que Mário Lima não é capaz de datar, uma escolta pára à frente de sua cela e o avisa de que ele irá para o quartel-general, na Mouraria. Já se tornara freqüentador usual da Mouraria, levado que era para responder aos três inquéritos policiais militares em que fora enquadrado. Ao chegar, foi recebido por um oficial:

- O senhor está livre porque foi beneficiado por um habeas-corpus do STM.

Assinou o alvará de soltura e desceu, feliz da vida. Mal a porta sanfonada do elevador se abriu, deparou com três militares do Exército, metralhadoras em punho. Um deles o avisou:

- O senhor não pode sair. O senhor é preso político!
  Mário Lima reagiu:
- Eu acho que o senhor está enganado. Acabo de assinar o alvará de soltura e estou livre.

Uma metralhadora encostada com violência na barriga foi suficiente para que se convencesse de que eles não estavam dispostos a muita conversa. Empurrado, subiu no micro-ônibus que o esperava, ele e os três militares. Seguiram em direção ao Quartel de Amaralina, onde pararam o tempo suficiente para que uma sacola de roupas lhes fosse entregue, as roupas de Mário Lima. Estava sendo seqüestrado, não sabia para onde. Não perguntava mais nada. Não havia diálogo possível.

Seguiram em direção ao Aeroporto Dois de Julho, onde encontrou mais três companheiros que também haviam sido beneficiados por habeas-corpus: Luiz Dantas da Silva, trabalhador da Petrobrás; Antônio Maurício de Freitas, presidente do Sindicato dos Portuários e Amaro Lopes, também diretor dos Portuários. Mais tarde, Mário Lima saberá que o general Olímpio Mourão Filho, recém-nomeado comandante do IV Exército, com sede em Recife e que inclui a Bahia, havia declarado solenemente:

- Enquanto eu for comandante do IV Exército, comunista não sai da cadeia.

Mourão Filho foi o deflagrador do golpe militar de 1964 e autodenominava-se una “vaca fardada”, como revela o recente livro de Élio Gaspari. Quando o DC-3 decolou no rumo norte, Mário Lima disse ter tido a certeza de que iria para a Ilha de Fernando de Noronha. Essa convicção decorria de uma situação vivida alguns dias antes, quando fora ao Quartel-General para os interrogatórios. O sargento Mário Monteiro, logo que saíram do Quartel de Amaralina, disse aos soldados:

- Vamos levar o senhor Mário Lima ao Quartel-General.
  Um dos soldados, que não conhecia Mário Lima, disse:

- Ué, eu soube que Mário Lima estava em Fernando de Noronha.
  
Mário Lima ficou com a conversa retida na memória. O soldado ouvira alguma coisa e no trajeto deixara escapar e agora Fernando de Noronha estava próxima.

Anoitecia quando o avião decolou. Dormiram em Recife, no xadrez do Hospital Militar. Antes de adormecer, Mário Lima pôde constatar o quanto a ditadura havia sido violenta em Pernambuco. Viu um grande número de camponeses com os corpos estropiados pelas marcas das torturas. No dia seguinte, muito cedo, acordaram-no com batidas fortes nas grades, gritando:

- Senhor Mário Lima...

Emiliano José
é jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, autor de As asas invisíveis do padre Renzo, de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (1º volume), de Lamarca, o Capitão da Guerrilha e de Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar. É deputado estadual pelo PT.

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Índice - Série 1 -Personagens
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1 2 3
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Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
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Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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