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F - Lembranças do Mar Cinzento (XXVIII)
Emiliano José
– Senhor Mário Lima e sua turma, acordar para viajar.
Ao ouvir o grito do soldado, Mário Lima levantou-se rapidamente, junto
com seus colegas. Quando o avião decolou, distinguiu a direção: iriam
de fato para Fernando de Noronha. No último capítulo, contávamos sobre
o seqüestro de Mário Lima e alguns companheiros depois de terem sido beneficiados
por um habeas corpus do Superior Tribunal Militar.
O destino era de fato Fernando de Noronha. Durante o vôo, o terrorismo:
– Os peixes vão comer comida boa. Há muito subversivo para os peixes se
distraírem...
Mário Lima levou a sério a ameaça. Com a vitalidade de seus 28 anos, bom
nas artes da capoeira e da luta livre, não estava disposto a morrer sem
lutar:
– Daqui você só me joga morto!
O militar sorriu, cinicamente. Mário Lima percebeu então tratar-se de
brincadeira, terrorismo sem maiores conseqüências.
Ao descerem, foram recebidos pelo capitão Braga, comandante da guarnição
militar de Fernando de Noronha:
– Se vocês estão achando que estão chegando aqui para serem torturados,
estão enganados. A tortura não está nos nossos manuais. Se os meus superiores
ordenarem o fuzilamento, eu o farei. Mas tortura não.
Era um consolo.
Corria o mês de agosto de 1964, quando chegou a Fernando de Noronha, disso
se lembra. Na ilha, encontrou Moura Beleza, líder bancário de Fortaleza;
Tarcísio Leitão, militante comunista do Ceará; Gilberto Azevedo, ex-deputado
estadual de Pernambuco, ligado a Miguel Arraes; o próprio Miguel Arraes
e Seixas Dória, entre outros. Mais tarde, chegaram Djalma Maranhão, ex-prefeito
de Natal, o dirigente comunista Luiz Inácio Maranhão, morto mais tarde
pela ditadura e desaparecido.
Um novo habeas corpus o liberta no dia 4 de dezembro. Ditadura é assim:
um habeas corpus não basta. Só foi libertado porque a “vaca fardada”,
o general Olímpio Mourão Filho, havia saído do comando do IV Exército
(“vaca fardada” era uma autodenominação, como revela Elio Gaspari em seu
livro recente sobre o período). Antes, o general havia dito que comunista
não podia sair da cadeia, ao menos enquanto ele estivesse no comando.
Diferentemente dele, o general Lyra Tavares dissera ao advogado de Mário
Lima, Raul Chaves, que, sob o comando dele, todas as decisões da Justiça
seriam cumpridas. E quando houve o segundo habeas corpus, desta vez concedido
pelo Supremo Tribunal Federal, Mário Lima foi libertado. Era uma terça-feira
e só havia vôo para Recife no sábado. Ficou a semana na ilha, visitando-a
durante o dia, dormindo no quartel à noite. No sábado, partiu. No Recife,
pediu dinheiro emprestado a um amigo e voou para Salvador.
O ano de 1965 amanheceu de portas fechadas. Não conseguia emprego em lugar
nenhum. Havia sido demitido da Petrobras por abandono de emprego, ironia
das ironias. Preso e demitido por abandonar a empresa. Foi para São Paulo,
com quatro filhos na bagagem disposto ao trabalho. Nada. Seguiu para Londrina,
no Paraná, onde ficou até dezembro de 1968. Com o advento do AI-5, ressuscitaram
os processos contra ele. Foi intimado a voltar para depor em Salvador.
A vida novamente entrou em ebulição. Passou a morar no Rio de Janeiro,
no Flamengo, Rua Marquês de Abrantes. Trabalhava no departamento de publicidade
da Tribuna de Imprensa.
Em 27 de setembro de 1969 foi condenado a três anos de prisão pela Auditoria
da VI Região Militar em Salvador. Caiu na clandestinidade. Não queria
saber de cadeia. O advogado dele, agora Inácio Gomes, aconselhava: ou
vá para o exterior ou se apresente. Em agosto de 1970 resolveu se apresentar.
Primeiro foi para a Casa de Detenção, depois para a Penitenciária Lemos
Brito. Em outubro de 1971 foi absolvido pelo STM e libertado. Só retornou
à Petrobras, anistiado, em 1982. Foi novamente presidente do Sindipetro
por duas vezes entre 1984 e 1990. Deputado constituinte em 1986 pelo PMDB,
foi relator do capítulo dos direitos dos trabalhadores e servidores públicos.
Ainda trabalha para a Petrobras.
Emiliano Losé é jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da
Ufba, autor de As asas invisíveis do padre Renzo, de Galeria F - Lembranças
do Mar Cinzento (1º volume), de Lamarca, o Capitão da Guerrilha e de Carlos
Marighella, o inimigo número um da ditadura militar. É deputado estadual
pelo PT. |