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F - Lembranças do Mar Cinzento (XXXI)
Emiliano José*
Em 1973, com as principais organizações
que defendiam a luta armada já bastante desarticuladas
em razão da brutal repressão de que foram
vítimas desde 1969, a ditadura militar dá
início à Operação Radar, destinada
a destruir o Partido Comunista Brasileiro (PCB). A iniciativa
ganha fôlego sob o governo do general Ernesto Geisel.
Para se ter uma idéia da dimensão dessa
ofensiva assassina, basta lembrar quem, de abril de
1973 a janeiro de 1976, vinte militantes do partido
foram mortos pela ditadura, principalmente dirigentes,
os últimos dos quais Wladimir Herzog e Manoel
Fiel Filho. Quem pretender detalhes da Operação
Radar pode ler o livro Dos Filhos deste Solo - Mortos
e desaparecidos Políticos durante a Ditadura
Militar, de autoria do atual Secretário Especial
de Direitos Humanos do governo Lula, Nilmário
Miranda, e do jornalista Carlos Tïbúrcio.
Assim, descarte-se desde logo a tentação
de dar a Geisel o benefício de alguma atitude
benevolente com a esquerda ou credenciá-lo sob
qualquer perspectiva democrática ou humanizadora.
A chamada distensão lenta e gradual deixou um
longo rastro de sangue, que ninguém se esqueça.
A Operação Radar chegou à Bahia
no dia 4 de julho de 1975.
Aproximadamente 80 militantes, dirigentes e simpatizantes
do PCB foram presos entre os quais Sérgio Santana,
então vereador pelo Movimento Democrático
Brasileiro (MDB); seu irmão Marcelo Santana,
da Ala Jovem do MDB; Heitor Casaes e Silva, funcionário
da FAO; Sebastião Amaral do Couto, operário;
Marco Antônio da Rocha Medeiros, diretor do Clube
de Engenharia da Bahia; José Ivan Dantas Pugliesi
e Carlos Marighella, operários; Roberto Argolo,
professor de física da Universidade Federal da
Bahia; Albérico Bouzon, economista; Winston Carvalho,
assessor do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem
da Bahia (Derba); Ieda Santana, também assessora
do Derba; Maria Lúcia Carvalho, economista, e
Paulino Vieira, relojoeiro de profissão e tradicional
dirigente do PCB. Todos esses e mais Luís Contreiras,
que também foi preso nesse dia, foram condenados
em julgamento realizado em 1976.
O dia 4 de julho de 1975, uma sexta-feira, nunca será
esquecido por Contreiras. Era final de tarde. Estava
chegando ao escritório, á rua Guindaste
dos Padres, na Cidade Baixa.
- O senhor é Luís Contreiras?
- Sou eu mesmo - respondeu a três homens que
o abordaram.
- O senhor está convidado a ir conosco à
Polícia Federal.
- Mas eu não tenho nada a fazer na Polícia
Federal - disse, já intuindo do que se tratava.
- Tem sim. O senhor está envolvido com tóxicos.
E foi brutalmente algemado, jogado dentro de um táxi
e encapuzado. Pelo rádio, um dos policiais informou:
- Passarinho no alçapão.
Quando o carro parou, ele foi conduzido não
sabe para onde, ainda encapuzado. Logo que lhe tiraram
o capuz, um sargento do Exército arrancou a pasta
que carregava. E um outro militar foi logo tentando
tirar-lhe a roupa, procedimento usual da fase pré-tortura.
Contreiras reagiu instintivamente e deu-lhe um violento
pontapé, atingindo-o em ponto sensível,
deixando-o sem ação. Foi subjugado por
vários outros. Tiraram-lhe a roupa, deram-lhe
um macacão e uma sandália havaiana. Soube
mais tarde: estava no Quartel de Amaralina.
À noite, foi jogado dentro de um camburão.
Sacolejando, viajou por mais de duas horas. Saberá
mais tarde que fora levado para Alagoinhas, no local
conhecido como Fazendinha, centro de torturas, que ele
acredita ser o atual Quartel da Polícia Militar
daquele município. Foi recebido pelo coronel
Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais notórios
e cruéis torturadores da Operação
Bandeirantes, de São Paulo. Ustra gritava histericamente:
- Você vai falar de qualquer jeito, seu filho
da puta!
Contreiras tinha medo e nojo, mais nojo do que medo.
- Você vai falar no pau!
E os carrascos já lhe batiam, com toda a violência
que podiam.
- Comunista comigo é na porrada! - gritava Ustra.
Até ali não vê nada. O capuz impede.
Ouve e apanha. Depois de muito apanhar, ouve uma voz
familiar, dialogando com os militares. Tem certeza de
que conhece a voz. Tiram o capuz e ele reconhece Venceslau
Oliveira Morais, dirigente nacional do PCB, sentado
ao seu lado:
- Contreiras, você está fazendo bobagem.
Nós perdemos essa batalha.
Novamente Contreiras não se controla: cospe na
cara de Morais, revoltado pelo fato de seu ex-companheiro
estar colaborando com a repressão política.
O colaborador...