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Lembranças do Mar Cinzento (XXXII)
Publicado em A TARDE de
02/10/2003

Emiliano José

O capuz impede Luís Contreiras de ver seus torturadores. Muitas vozes. Apanha muito. De repente, ouve uma voz familiar. Percebe que a pessoa dialoga com os militares. Tiram o capuz e ele reconhece Venceslau Oliveira Morais, dirigente nacional do PCB, sentado ao seu lado:

- Contreiras, você está fazendo bobagem. Nós já perdemos essa batalha.

Não se controla: cospe na cara de Morais, revoltado pelo fato de seu ex-companheiro estar colaborando com os militares. Os torturadores retiraram Morais de perto de Contreiras e um deles ameaçou:

- Você vai pagar caro por isso.

Morais fora mandado pela Direção Nacional do partido para dar assistência à Bahia. Dito de outra forma, era então a principal figura política do PCB no Estado, tendo se tornado secretário estadual do partido. Quando foi preso no Sul do País, não resistiu e passou a colaborar com a polícia política.

Contreiras já estava com uma costela quebrada em decorrência do espancamento que sofreu quando reagiu ao cabo que pretendia tirar-lhe a roupa à chegada. O capitão-médico Aníbal Sidney Pessoa Reis, que participava de tudo, passou um gelol no local como se isso pudesse resolver alguma coisa e, então, começou a fase da tortura com os choques elétricos - a mais dura de todas.

Os fios da infernal maquininha alternavam-se, numa dança diabólica, entre a ponta da orelha, os dedos dos pés e as proximidades do coração. Uma dor e uma sensação indescritíveis, como lembra Contreiras. Está encapuzado novamente. Repentinamente, pára a sessão de choques, e um dos torturadores obriga Contreiras a levantar-se da cadeira e a sair da sala de torturas junto com ele.

Está algemado, com os braços para frente. O torturador puxa-o violentamente pelos braços. Obriga-o assim a correr junto com ele, numa velocidade sempre crescente.

- Vamos, corra. Você tomou choques e isso faz bem para o coração.

E corria, corria. Contreiras sentia que ia explodir, não agüentava mais. Pensou que ia desmaiar. Por instinto, jogou o corpo sobre o torturador e o desequilibrou, os dois foram ao chão. O policial ficou colérico, levantou-se e passou a dar-lhe pontapés a esmo, como se quisesse matá-lo a pancadas. Já estava sem o capuz, que se fora com a queda. As suíças grossas revelaram de pronto o delegado Sérgio Paranhos Fleury, que também se deslocara à Bahia para a Operação Radar. Havia vários galpões e áreas verdes. A costela doía muito, o corpo todo doía. Estava um trapo. Passou uma noite terrível.

No dia seguinte, soube que o general Adyr Fiúza de Castro, comandante da VI Região Militar, notório defensor da tortura, iria visitá-los. Segundo a lembrança de Contreiras, naquele momento também estavam ao seu lado os companheiros Sérgio Santana, Roberto Argolo, Marcelo Santana, Sebastião Couto e Heitor Casaes. Não puderam vê-lo. Estavam todos encapuzados. Sabiam que o general os observava: sujos, feridos, jogado no chão de um galpão, trapos humanos. O general, num depoimento recente, disse que a ditadura usara um martelo-pilão para matar uma formiga: isso dá a dimensão de como ele pensava e como agia.

Ficaram na Fazendinha uns quatro ou cinco dias, para o ofício das torturas. Os torturadores queriam o depoimento deles sobre a atividade política do PCB na Bahia. Na verdade, pretendiam a confirmação porque já sabiam de quase tudo por conta das revelações de Morais. Foram transferidos para o Quartel de Amaralina, em Salvador. Tiveram então a situação legalizada. Melhor dito: tornaram-se prisioneiros oficiais. Não eram mais clandestinos. O procurador da Justiça Militar, Kleber Coelho, um duro acusador a serviço da ditadura, esteve no quartel tomando os depoimentos. Foram 40 dias em Amaralina.

A sociedade baiana reagiu às prisões. Um manifesto assinado por intelectuais, entre os quais Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e José Martins Catharino, pedia a libertação dos presos. O arcebispo, cardeal dom Avelar Brandão Vilela, não estava em Salvador, mas num telefonema pediu ao monsenhor Gaspar Sadock, um sacerdote identificado com as posições de direita, que visitasse os presos, e foi obedecido. Ele próprio, dom Avelar, quando chegou de viagem, foi visitá-los, o que irritou profundamente os militares.

O julgamento dos envolvidos no processo do PCB ocorreu no dia 16 de março de 1976. Os advogados de defesa dos prisioneiros eram Jayme Guimarães, José Borba Pedreira Lapa e Ronilda Noblat. Começou às 15 horas e se encerrou aos 30 minutos do dia seguinte. Luís Contreiras sabia que todos...

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
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Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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