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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte 3 - (Cap. I)

Waldir Pires e a resistência ao Golpe de 1964

Emiliano José*

Waldir sentia o som cadenciado da própria respiração. Podia ouvir também a de Darcy Ribeiro. Os dois, deitados, escondidos no meio do mato ralo, na cabeceira da pista do Aeroporto de Brasília. Às quatro da manhã, não havia movimento nenhum. Tensos, esperavam pela chegada do Cessna monomotor que os levaria a uma fazenda no Estado do Mato Grosso. Era o dia 4 de abril de 1964. O acerto era de o avião pegá-los logo na abertura do tráfego aéreo, a partir das 6 horas.

No horário marcado, eles ouviram o barulho do motor. Levantaram a cabeça e puderam ver o avião taxiando em direção à cabeceira da pista, onde estavam. Sem vacilação, quando o avião colocou-se em posição de decolagem, os dois subiram, apertaram os cintos e prepararam-se para a maior aventura de suas vidas. Quando o Cessna já saía do chão, no entanto, os operadores da torre de controle, estranhando que um avião pequeno necessitasse de tanto espaço para decolar, pediram que ele retornasse.

Afinal, os operadores sabiam que com menos de meia pista um avião daquele porte poderia decolar. Desconfiaram de que houvesse alguma coisa estranha, e naquelas horas qualquer insignificância era motivo de suspeita. O piloto, que nada sabia sobre os passageiros e ignorava a operação em que estava envolvido, relutou e ensaiou dar meia volta para atender a ordem dos operadores de vôo. Um grito enérgico, uma determinação rigorosa de Darcy o fez prosseguir.

Os dois respiraram aliviados. Estava presente na memória dos dois a despedida no aeroporto. O abraço demorado de Waldir em Yolanda, de Darcy em Berta. A despedida calorosa do amigo querido, que preparara toda a operação, deputado Rubens Paiva. Não sabiam quando tornariam a ver as mulheres e o amigo. Era uma viagem ao desconhecido. A ditadura acabara de chegar. O golpe militar se consumara. As instituições democráticas estavam estraçalhadas.

Rubens Paiva havia feito o plano de vôo. O piloto deveria descer numa fazenda de propriedade do presidente João Goulart, então já deposto, nas proximidades da fronteira com a Bolívia. Nesta fazenda, chegaria um outro avião, trazendo combustível suficiente para que os dois chegassem a Porto Alegre, onde participariam da resistência ao golpe, ao lado de Goulart e do general Ladário Teles, que recentemente havia assumido o comando do III Exército e era fiel ao governo constitucional, contra os golpistas.

O avião aterrissou e começou uma espera angustiante para Waldir e Darcy. O outro avião não chegava e ainda pela manhã daquele 4 de abril de 1964 souberam pelos empregados da fazenda que proprietários rurais da região começavam a se movimentar para saber que avião havia pousado nas redondezas. Estariam armados, acompanhados de pistoleiros, dispostos a defender suas terras e golpe militar. Darcy e Waldir começaram a pensar num plano B.

Confabularam com o piloto, a essa altura inteiramente envolvido com a operação, sabedor de tudo. Se o outro avião não chegasse até as 13 horas, não haveria condições de decolar, foram informados pelo piloto. Diante disso, decidiram que, face à perigosa movimentação dos fazendeiros, o avião deveria levantar vôo, procurar um outro ponto de pouso nas redondezas e voltar no dia seguinte. No dia 5, partiriam no mesmo avião, impulsionado por combustível conseguido em alguma fazenda próxima.

E o combustível, seguindo a orientação do piloto, seria gasolina de caminhão. Explicou que já passara por uma experiência como essa e que o risco era pequeno. A Waldir e a Darcy não restava alternativa. Esperar os fazendeiros é que não podiam. E quando o avião voltou, no dia 5 de abril, já estavam decididos a não mais voar para Porto Alegre. Na noite anterior souberam pelo pequeno rádio de pilha que levavam: o presidente João Goulart chegara à tarde no Aeroporto de Montevidéu e pedira asilo político ao Uruguai. Não havia mais nada a fazer em Porto Alegre.

O golpe estava praticamente consolidado. O presidente dos EUA, Lyndon Johnson, reconheceu o novo governo brasileiro poucas horas depois de consumado o golpe militar, ainda na madrugada de 2 de abril. O presidente João Goulart tomou conhecimento da posição dos EUA em Porto Alegre, onde já se encontrava, na expectativa da organização da resistência, juntamente com o general Ladário Teles, comandante do III Exército, e de Leonel Brizola. As coisas não andavam bem no Rio Grande do Sul, como se imaginara.Goulart não pôde ser levado do aeroporto para o Quartel-General do III Exército porque...

*Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II


23/09/2005

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1 2 3
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Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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