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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, Parte III, Capítulo IV

Waldir e Darcy estranharam que o avião com o presidente demorava a decolar, tinha sido sabotado e a palidez do general indicava traição Jango partiu em outro avião

Emiliano José*

Com o golpe em marcha, consciente disso, o governo, ainda mantendo Brasília sob controle, havia ocupado as emissoras de rádio, as televisões, os correios, toda a área de comunicações. Waldir e Darcy Ribeiro resolvem, então, ir a uma emissora de televisão falar à Nação, como dizíamos no capítulo anterior. No pronunciamento, conclamaram o povo a defender a legalidade e denunciaram a ação dos golpistas. Waldir, no seu pronunciamento, disse que naquele episódio não haveria repetições da história. Não aconteceria suicídio (como ocorrera com Getúlio Vargas em 1954). Não haveria renúncia (como acontecera com Jânio Quadros em 1961). Haveria resistência.

Da televisão, seguiram para o aeroporto na esperança de ainda despedirem-se do presidente. Lá encontraram, entre outros, Tancredo Neves, um liberal profundamente comprometido com a democracia, ao contrário do que às vezes análises apressadas podem fazer supor. Estivera com Getúlio Vargas até os últimos instantes da vida dele, em 1954, pronto para a resistência e contra o golpismo de então. Trabalhou politicamente, e com sucesso, para garantir a posse de João Goulart em 1961. Protestou no Congresso contra o golpe de 1964, no dia mesmo em que se declarava vago o cargo do presidente. Não votou no general Castello Branco, para não dar legitimidade ao ditador que pretendia o simulacro da legitimidade do Congresso Nacional. Estava ali, agora, vendo o presidente partir para, em princípio, organizar a resistência no Rio Grande do Sul. Tinha lado, sempre: o da democracia.

Além dele, no aeroporto, estavam, entre alguns poucos amigos fiéis, o deputado Almino Afonso e os comandantes militares oficialmente ainda afinados com o presidente da República. Quando chegaram ao aeroporto, Waldir e Darcy encontram o presidente já a bordo de um avião a jato – o Coronado, da Varig. Explique-se a razão de ser um jato da Varig. A presidência da República não possuía nenhum avião a jato e circulara a notícia de que o Comando da Aeronáutica, já sob orientação golpista, havia dado ordens para interceptar o avião presidencial. Impunha-se, assim, que Goulart viajasse num avião que voasse mais alto que os caças da FAB, nenhum deles a jato.

O presidente João Goulart ficou quase uma hora aguardando dentro do avião, sem que ele conseguisse decolar. Waldir e Darcy, como os demais, estranhavam tanta demora. Ao final, a conclusão: fora sabotado. Observaram, Waldir e Darcy, a palidez do general Nicolau Fico, comandante militar de Brasília. Sentiram que podiam estar diante de um traidor, e não se equivocaram. A conspiração já alcançara Brasília. Goulart teve de partir em outro avião, de dois motores, da presidência da República, arriscando-se a ser abatido ou interceptado por caças da FAB.

Com o presidente, seguiram, entre outros, os ministros Wilson Fadul, da Saúde, Amaury Silva, do Trabalho e o chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. No Rio Grande do Sul, como já se disse, o presidente encontrou Leonel Brizola e o comandante do III Exército, general Ladário Teles. Lá pretendia, e já o dissemos, organizar a resistência, o que não foi possível. Logo que o presidente decolou, Waldir e Darcy voltaram ao Palácio do Planalto. Estavam conscientes dos riscos, e dispostos a corrê-los. Eram os últimos resistentes do governo Goulart no Planalto.

Um era Chefe da Casa Civil, homem da mais absoluta confiança do presidente da República – Darcy Ribeiro. Outro, Waldir, Consultor Geral da República, e que se tornou também íntimo de Goulart. Como testemunhou Darcy Ribeiro, em seu depoimento sobre Waldir, já citado, os dois passaram, desde então, a trabalhar “irmanados, mão a mão, no esforço mais profundo e lúcido que jamais se fez em nosso país, para ampliar as bases da vida social”. Darcy, nesse depoimento, fala das façanhas, grandes façanhas de Waldir nesse governo.

Foram da lavra de Waldir os decretos de nacionalização das minas de ferro; de monopólio da importação de petróleo; de encampação das refinarias; de defesa da soberania nacional contra interferências norte-americanas. “E, sobretudo, os dois grandes projetos maiores do governo Jango: a Reforma Agrária de democratização do acesso à propriedade e ao uso da terra; e a implantação da Lei de Remessa de Lucros que disciplinaria as multinacionais, proibindo que investimentos em cruzeiros gerassem dólares exportados”. Não por acaso, a revogação desses decretos, como lembra Darcy, foi a principal exigência norte-americana aos golpistas de 1964.

Na leitura de Darcy, os norte-americanos se dispuseram a trabalhar para desestabilizar o governo de João Goulart (Darcy o chama sempre de Jango, como ele era conhecido pelo povo) especialmente por conta dos dois últimos decretos, e especialmente pelo que disciplinava a remessa de lucros. Goulart não aceitara as pressões norte-americanas para que este não fosse implementado e foi isso que...

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
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Capítulo 34
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Capítulo 7
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Capítulo 6
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Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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