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F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte
3 – (Cap. VI)
Waldir
interpela Nicolau Fico: mas, general, o senhor traiu
o presidente?
Emiliano
José*
Ao saberem que o Congresso Nacional estava prestes a
consumar a trama que destituiria o presidente Goulart,
sob o argumento de que ele estava fora do país,
Waldir e Darcy decidem que este, como chefe da Casa
Civil, deveria mandar um comunicado oficial ao Congresso,
informando-o do contrário. Waldir sentou-se à
máquina e redigiu aquela que seria a última
mensagem do governo. Era dirigida ao senador Auro Moura
Andrade, presidente do Congresso, assinada por Darcy,
e comunicava, em nome do presidente da República,
que este se encontrava em Porto Alegre, no uso pleno
de suas atribuições constitucionais, assumindo,
de lá, o comando da resistência contra
as manifestações criminosas dos golpistas,
disposto, portanto, a defender a Constituição.
O deputado Doutel de Andrade foi à tribuna, leu
a mensagem, e a entregou ao senador Auro de Moura Andrade.
Apesar de ter conhecimento de que o presidente Goulart
encontrava-se em território nacional e que não
renunciara, o senador Auro de Moura Andrade, convoca
uma sessão extraordinária do Congresso
Nacional e, ao abri-la, sem quaisquer considerações
regimentais, sem qualquer respeito à Constituição,
plenamente cônscio do objetivo golpista e da necessidade
de chancelar o golpe pela via legislativa, declara a
vacância do cargo e convoca o presidente da Câmara,
Ranieri Mazzili, presidente da Câmara, para assumir
o posto de presidente da República. Rapidamente,
determina que sejam desligados os microfones e as luzes,
antes do que ainda foi possível ouvir os gritos
de revolta e duras imprecações contra
a atitude de Moura Andrade, principalmente vindos de
Tancredo Neves. Era 1h da manhã do dia 2 de abril.
Estava dado o golpe de Estado.
Waldir e Darcy foram informados do golpe imediatamente.
Antes, no entanto, que a comitiva proveniente do Congresso
chegasse para dar conseqüência ao golpe,
Waldir vê o general Nicolau Fico, comandante militar
do Planalto, chegando e o interpela: “Mas general,
o senhor traiu o presidente? O senhor não iria
manter o Exército nos quartéis?”.
O general, constrangido, puxa um papel do bolso e entrega
um telegrama que recebera a Waldir. Nele, determinava-se
que o Exército em Brasília assegurasse
o funcionamento normal dos poderes Executivo, Legislativo
e Judiciário.
O
telegrama era assinado pelo general Costa e Silva, já
auto-nomeado ministro da Guerra dos golpistas. Em seguida,
o general passa a Waldir a resposta que redigira ao
ministro da Guerra do golpe: “Comunico prezado
chefe que os vários poderes estão com
seu funcionamento assegurado”. Waldir disse-lhe
que, com isso, ele havia viabilizado o golpe e que não
fora leal com o presidente. Nesse momento chega Darcy.
Quando Waldir mostra a ele os telegramas, e ele os lê,
lívido, encara o general Fico como se tivesse
feito uma grande descoberta:
_ General, agora, olhando bem para o senhor, vejo que
tinha de ser isso mesmo. Estou vendo a sua cara de gorila
que obedece cegamente ao gorilão maior.
O
general, impassível, não deu uma palavra.
Waldir e Darcy saíram rapidamente do Planalto,
antes que Ranieri Mazzili viesse ocupá-lo. Combinaram
entre si que em meia se encontrariam no aeroporto da
Base Aérea. Waldir passou em casa, beijou a cada
um dos filhos, que dormiam: Cristina, Waldemir, Vivian,
Lídia e Francisco. A mais velha, Cristina, tinha
11 anos. O mais novo, Francisco, 2. Conversa com Yolanda,
sua mulher. Explica que iria para Porto Alegre participar
da resistência, assegurar, lá, a continuidade
do governo legalmente constituído.
Ao
chegarem ao aeroporto da Base Aérea, como havia
sido combinado, procuram o avião que deveria
levá-los ao Rio Grande do Sul. Um major da Aeronáutica
reconhece Waldir e adverte que não há
avião. E o aconselha a sair dali o mais rapidamente
que pudesse, tomar cuidados. Brasília já
estava inteiramente nas mãos dos golpistas. Waldir
se recorda que na madrugada de 4 de abril, Rubens Paiva
passa na casa onde se hospedara e o conduz ao aeroporto.
Yolanda, rebelada contra a determinação
de não ir ao aeroporto, segue em outro carro,
a mesma rebeldia de Berta, mulher de Darcy, que também
irá se despedir do companheiro. Darcy foi apanhado
em outra residência. Tudo como recomendavam as
cautelas próprias de clandestinos. E partiram
para o exílio, como já contado. Waldir
guarda de Rubens Paiva um enorme sentimento...
Jornalista,
escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha;
Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura
militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria
F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I
e II
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