A
Lei da Remessa de Lucros de Goulart colocou Waldir Pires
novamente no olho do furacão...
Emiliano José*
O capital estrangeiro, como lembra Waldir,
estava no centro do debate do desenvolvimento brasileiro
havia muito tempo. No segundo governo de Getúlio
Vargas, entre 1950-1954, a discussão se intensificou.
Um governo nacionalista como o de Vargas, colocava-se
numa posição antiimperialista, à
medida que tomava medidas que fortaleciam a economia
nacional. A Petrobrás, o BNDES, entre tantas
outras iniciativas que, registre-se, contaram com a
participação de Rômulo Almeida,
um baiano de grande talento e dedicado ao País,
anunciavam uma política destinada ao fortalecimento
da soberania nacional, que continuava uma trajetória
iniciada no final dos anos 30, durante a ditadura getulista.
O governo Kubitschek não seguiu
a trajetória varguista. Abriu as portas ao capital
estrangeiro, fortalecendo uma nova matriz de acumulação,
na qual o capital externo passava a ser um protagonista
fundamental. É quando a indústria automobilística
chega com toda força ao País. No governo
Goulart, esse problema foi suscitado de forma muito
mais intensa. Um governo reformista não podia
aceitar que houvesse uma tão escandalosa remessa
de lucros para o exterior. No final de 1961, o Congresso
Nacional aprovou a lei que limitava a remessa de lucros.
Goulart, no entanto, àquele momento,
preferiu nem vetar, nem sancionar a lei. Não
se sentia suficientemente forte para tanto. Deixou o
prazo constitucional expirar para que coubesse à
Mesa do Congresso Nacional promulgá-la. E Goulart
também não a regulamentou. É provável
que a imaginasse como instrumento de negociação
com os norte-americanos em outra conjuntura. Osny Duarte
Pereira, no prefácio que faz ao livro O Reencontrado
elo perdido das reformas agrárias, de Clodomir
Morais, diz que isso era decorrente das indecisões
de Goulart, de sua política de conciliação.
O fato é que Goulart caminhava sobre o fio da
navalha.
Em meados de 1963 as contradições
com os EUA se aguçaram acentuadamente. Washington
não escondia o propósito de, através
de um bloqueio financeiro, da não renovação
de créditos, asfixiar o Brasil e desestabilizar
o governo Goulart. Os EUA provocavam ostensivamente
o governo brasileiro, corrompiam governadores e prefeitos,
utilizando-se para tanto, entre outros mecanismos, dos
recursos da Aliança para o Progresso.
Diante disso, Goulart mandou o Itamarati
comunicar ao Departamento de Estado que não toleraria
mais aqueles procedimentos que atentavam claramente
contra a soberania nacional. Até ali, contemporizara.
Agora, tinha que ser mais ofensivo.
Numa madrugada de 1963, conforme a lembrança
de Waldir Pires, é acordado por um telefonema
do presidente da República, que o convida para,
no dia seguinte, seguir com ele para uma de suas fazendas
em Goiás. O assunto era o Instituto Brasileiro
de Ação Democrátrica (IBAD), do
qual já falamos.
Waldir afirma que a atividade subversiva
dos EUA no Brasil naquele momento era impressionante.
Em 1962, foram gastos mais de 20 milhões de dólares,
a preços de então, via IBAD, para financiar
a eleição de parlamentares comprometidos
com as teses golpistas, segundo Waldir. Na madrugada
do telefonema, Waldir não dormiu mais. Como tinha
um calhamaço de papéis sobre o assunto
em suas mãos, debruçou-se sobre ele e
às sete da manhã estava no aeroporto para
seguir com o presidente. Na fazenda, depois de conversar
com Goulart, rabiscou a minuta do decreto do fechamento
do IBAD, aprimorou-o no seu gabinete e na mesma semana
o decreto se efetivou. O IBAD foi fechado.
E foi nessa mesma conjuntura que Goulart
decidiu apressar a regulamentação da Lei
de Remessa de Lucros. E Waldir, nesse caso, foi colocado
no olho do furacão novamente. Acontece, como
ele explica, que pela Consultoria Geral da República,
da qual ele era titular, passavam todas as propostas
do governo e era lá que se elaboravam as propostas
legislativas do Executivo.
A questão da Lei da Remessa de
Lucros foi apressada, segundo Waldir, por conta da queda
de braço travada entre o Brasil e os EUA quanto
à encampação das empresas norte-americanas
de energia elétrica e de comunicações.
Estas, na avaliação de Waldir, não
respondiam pelas necessidades da população
e do desenvolvimento brasileiro.
Era evidente a ineficácia das
empresas estrangeiras que prestavam serviços
públicos. “E ainda por cima, por diversos
mecanismos, de sub ou sobre-faturamento, as multinacionais
sangravam o Brasil, enviando para o exterior um volume
de dinheiro muito desproporcional ao que haviam efetivamente
investido no País”, explica Waldir. O decreto
que regulamentava...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca,
o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar; As asas
invisíveis do padre Renzo; Galeria F –
Lembranças do Mar Cinzento.