Waldir
Pires e Goulart não aceitaram a interferência
do embaixador dos EUA...
Emiliano José*
O decreto que regulamentava a Lei de
Remessa de Lucros foi redigido inicialmente pela assessoria
do ministro da Fazenda, Carvalho Pinto, e depois revisto
juridicamente pela Consultoria Geral da República.
Foi quando Waldir pôde sentir de perto “a
audácia dos representantes do governo dos EUA,
mais especificamente do então embaixador daquele
país no Brasil, Lincoln Gordon.
Disso, Waldir, com sua prodigiosa memória,
recorda com detalhes. Foi no segundo semestre de 1963.
Ao chegar à Consultoria Geral da República,
recebe um recado de seu chefe de gabinete que lhe soa
estranho e “inaceitável”. O embaixador
Lincoln Gordon telefonara deixando um convite para que
ele fosse à embaixada americana “tomar
um drinque às 17 horas”. Waldir, através
de seu chefe de gabinete, manda dizer ao embaixador
que estaria à sua disposição. Que
poderia tomar café com ele, às 17 horas,
como sugerido. “Só que no meu gabinete”.
Para surpresa de Waldir, no horário
anunciado, o embaixador se fez anunciar e foi recebido.
Waldir era professor de Direito Constitucional da Universidade
de Brasília. Não deixara a atividade docente,
apesar do volume de tarefas no governo. Gordon, que
havia sido professor da Universidade de Harvard, iniciou
a conversa pelos meandros das discussões acadêmicas.
Depois, disse que não entendia como Waldir conseguia
conciliar as tarefas administrativas e universitárias.
Waldir deixa a conversa correr, esperando
para saber o motivo real que trouxera o embaixador ao
seu gabinete. Disse que, entre as tarefas do governo
e as acadêmicas, tinha uma jornada de trabalho
de mais de 14 horas. Que comia de marmita na própria
Consultoria Geral da República e que assim ia
levando a vida, e com alegria porque gostava de ambas
as tarefas. “O nosso País precisa desse
esforço”, disse. Discorreu brevemente sobre
a Universidade de Brasília e sobre o desenho
novo que Darcy Ribeiro havia feito para ela, pensada
como um laboratório de pensamento e reflexões
sobre a construção nacional.
Depois dessas introduções
quase protocolares, espécie de esquentamento
do encontro, o embaixador disse a que viera. Tratava-se
da legislação que disciplinaria a remessa
de lucros. Waldir, quase rispidamente, pediu que ele
não continuasse a conversa. “Esse é
um assunto que eu não conversarei com o senhor”,
disse, de modo categórico, para acrescentar:
- Peço que o senhor procure o
presidente da República ou o ministro das Relações
Exteriores. Não converso com o senhor, não
converso com o embaixador da União Soviética,
da França, da Inglaterra, de nenhum país.
Trata-se, na minha área, de assunto de reflexão
interna do meu País.
Lincoln Gordon despediu-se, consciente
que ali não era porta para voltar a bater. Não
desistiu, no entanto. No segundo semestre de 1963, esteve
várias vezes com o presidente João Goulart,
sempre com o objetivo de interferir na lei que regulamentaria
a remessa de lucros e a presença de capitais
estrangeiros no Brasil. Até um dia antes da assinatura,
o presidente Goulart, diante de tanta pressão,
perguntava a Waldir se havia possibilidade de mexer
no decreto, preservado o interesse nacional.
Goulart, já vimos, caminhava
sobre o fio da navalha. Ao perguntar a Waldir, estava
tentando encontrar alguma saída para as sucessivas
propostas provenientes de Gordon e de parlamentares
afinados com os interesses americanos. “Nunca,
no entanto”, - ressalta Waldir – “Goulart
determinou mudanças no decreto por conta dessas
pressões. Acabou como originalmente foi pensado,
assegurando os interesses nacionais e a justa remuneração
ao capital estrangeiro efetivamente investido”.
O decreto 53.451 foi assinado no dia 20 de janeiro de
1964.
Certamente, essa medida foi uma das
que acirraram os ânimos golpistas. A temperatura
esquentara em setembro quando, acompanhando as lembranças
de Waldir, sargentos do Exército e da Aeronáutica
tomam suas guarnições em Brasília,
prendem o ministro mais progressista do Supremo Tribunal
Federal, Vitor Nunes Leal, ocupam os Correios, o Aeroporto
e a Base Aérea. Manifestavam-se contra decisão
da Justiça que lhes negara o direito de serem
eleitos. O governo sufoca a revolta, mas tinha consciência
de que ela fornecia mais munição à
direita golpista.
Goulart, nessa conjuntura de dificuldades,
não estava propenso a qualquer guinada à
direita. Ao contrário, nesse momento, faz inflexões
à esquerda, como o próprio decreto de
regulamentação da Lei de Remessa de Lucros
o demonstra. Nesse início de 1964, diz Thomas
Skidmore (Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1988), Goulart se encontrava cercado por
todos os lados. “Não tinha muita esperança
na aprovação pelo Congresso de qualquer
das reformas que propusera – acima de todas, a
reforma agrária”. Decide ir diretamente
ao povo, mobilizar as bases...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.