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F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte
3 - (Cap. XIV)
Goulart
queria a reforma agrária pela via pacífica
e democrática...
Emiliano José*
Goulart, diante da conjuntura de radicalização
da direita, de falta de apoio no Congresso, decide mobilizar
o povo, ir diretamente às bases. Waldir assegura
que isso não o desviava do caminho democrático.
“Eu sentia nele a convicção de que
era possível chegar às reformas pelo caminho
da democracia”. Mas, ali, naquele início
de 1964, ele havia perdido completamente as ilusões
com os setores mais conservadores da sociedade brasileira,
com os quais havia, de alguma maneira, conciliado durante
todo o seu governo.
Ao apelar à mobilização
popular – na visão de Waldir – Goulart
estava querendo dizer que a luta do governo pelas reformas
era irreversível. Ele não estava disposto
a conciliar com as classes dominantes nesse ponto. Continuava,
porém, querendo e acreditando que tudo pudesse
ser feito pelas vias democráticas e, por isso
mesmo, insistia na negociação constante,
com a pretensão de atrair o centro e isolar a
direita mais reacionária. Não foi bem
sucedido na empreitada. A radicalização
crescia.
Goulart, equivocadamente, acreditava
no seu esquema militar. Waldir reconhece que havia ingenuidade
nisso. Goulart certamente não tinha a noção
devida de como o golpismo tomara conta da oficialidade,
sobretudo da alta oficialidade. Imaginava recorrer às
massas populares, mas com a convicção
de que contava com uma retaguarda militar. Resolveu,
então, partir para o enfrentamento.
É
interessante o depoimento de Flávio Tavares sobre
Goulart. (Memórias do Esquecimento – os
segredos dos porões da ditadura. Rio de Janeiro:
Record, 2005). Tendo convivido com ele no exílio
uruguaio, constatou que Goulart não tinha idéia
do significado político dele próprio.
É provável que não tivesse noção
do que significara o seu governo até ali, não
o valorizasse devidamente.
Tavares
lembra que um dia comentou com ele sobre a natureza
dinâmica e democrática do governo dele
– o despertar do povo, a emergência das
raízes culturais, o programa de reformas, a visão
de desenvolvimento lastreada na soberana nacional. E
lembrou-lhe que, se as idéias de Paulo Freire
tivessem surgido no tempo de Kubitschek, “teriam
sido soterradas pela visão de um desenvolvimentismo
vesgo, no qual fabricar um liquidificador ou um automóvel
era mais importante que formar um cidadão consciente,
alfabetizado e integrado à sociedade”.
A reação de Goulart ao que lhe dissera
Tavares revela sua personalidade:
“_Tu
achas, mesmo, que o meu governo foi isso? – perguntou-me
incrédulo, como se eu houvesse ferido a sua humildade
profunda com um elogio desmedido”.
Talvez imaginasse que seu governo só teria algum
significado caso fizesse as reformas que sempre defendera,
particularmente a reforma agrária. Para tanto,
agora sabia, precisa mobilizar o povo, e estava disposto
a isso. O comício de 13 de março de 1964,
no Rio de Janeiro, na Praça da Central do Brasil,
com a presença de mais de 200 mil pessoas, foi
o primeiro e grande comício da jornada que ele
imaginara, jornada que terá fôlego curto.
A direita, diante de tal mobilização,
compreenderá que não podia mais perder
tempo. E ela já havia reunido forças suficientes
para deflagrar o golpe.
Antes que falemos do golpe, no entanto, tratemos um
pouco do comício de 13 de março. As mais
de 200 mil pessoas que estavam na Praça Central
do Brasil viram e ouviram, como diz Waldir, um presidente
determinado, anunciando, no palanque, o decreto de encampação
de todas as refinarias privadas de petróleo,
a declaração de interesse social para
fins de desapropriação de uma faixa de
500 metros ao longo das estradas, ferrovias e patrimônios
públicos de acumulação de água
para a efetivação da reforma agrária,
além de diretrizes para uma reforma urbana que
garantisse moradias à população
mais pobre.
No discurso, Goulart disse que esperava que, com a colaboração
das Forças Armadas, em menos de 60 dias já
estivessem sendo divididos os latifúndios das
beiras das estradas, os latifúndios ao lado das
ferrovias e dos açudes “construídos
com o dinheiro do povo”, como revela o texto do
discurso na íntegra, publicado no livro de Carlos
Fico (Além do Golpe – Versões e
controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar.
Rio de Janeiro: Record, 2004). E ele sabia que aquela
era ainda uma medida parcial. Que a reforma agrária
demandava mais mudanças. “E não
se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer
a reforma sem mexer a fundo na Constituição.
Em todos os países civilizados do mundo já
foi suprido do texto constitucional aquela parte que
obriga a desapropriação por interesse
social, a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro”.
Goulart, não se sabe se ciente da cartada que
estava jogando, lembrou as experiências de reforma
agrária no Japão pós-2ª Guerra,
na Itália, no México e na Índia.
E afirma, sem meios-termos, que a reforma agrária
deverá...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.
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