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F - Lembranças do Mar Cinzento (XLV)
Emiliano José*
Na entrevista dada no Aeroporto Dois de Julho, naquele
12 de janeiro de 1979, Waldir desenvolvia um raciocínio
de paz, de entendimento, buscava inspirações
não propriamente radicais. Fazia um discurso abrangente.
- A anistia deverá vir sem ódios, sem revanchismos,
cada um de nós perguntando de que maneira poderemos
trabalhar pelo Brasil. Até me lembro daquela bela
frase de Kennedy, quando abria o seu governo no início
dos anos 60, num período cheio de esperanças
para a história do mundo. Kennedy um liberal nos
EUA. João XXIII abrindo uma concepção
extraordinariamente renovadora do pensamento e da doutrina
cristã.
Waldir se referia à fala de Kennedy, quando assumia
o mandato: disse que gostaria que cada americano não
se perguntasse a si mesmo o que é que a nação
poderia fazer por ele, mas que, ao contrário, indagasse
o que é que cada um poderia fazer pela nação.
De João XXIII, talvez caiba dizer ter sido uma
revolução para a Igreja Católica.
"A anistia" - dizia Waldir - "tem que significar
a permissão do Brasil para que todos os brasileiros
trabalhem e sirvam à nação, sem discriminações".
Waldir analisou a conjuntura com um olhar bastante amplo.
Falou sobre a transição que estava em andamento.
A ditadura ainda demoraria seis anos para acabar.
"A transição é muito difícil.
Estamos saindo de um regime autoritário para ir
ao encontro da democracia e das liberdades".
Diante desse quadro, a oposição devia ter
clareza de executar uma estratégia de reconstrução
democrática, de restauração republicana.
Essa estratégia devia cuidar para que todos os
passos fossem dirigidos à concepção
de que o essencial era volta do exercício da cidadania.
O que Waldir queria dizer com isso? Que todos os cidadãos,
todas as cidadãs tivessem condições
de praticar atos legítimos, e legítimos
porque praticados em função de uma Constituição
democrática, que ainda não existia.
- Nós todos teremos que praticar atos que sejam
legítimos. Em função, portanto, de
nossas leis. Sair do período autoritário,
o período da tutela para o período da legitimidade
democrática, onde todos os atos são permitidos
e são lícitos em função do
ordenamento jurídico e constitucional da Nação.
É uma tarefa penosa, difícil. Que, portanto,
exige cuidados. É um caminho que teremos que percorrer
com muito equilíbrio.
Analisou a história de outras tentativas de transição:
- Nós temos o exemplo de outras repúblicas,
inclusive latino-americanas, que tiveram períodos
autoritários, que se abriram democraticamente,
e que em seguida tombaram. O Brasil vive no mundo contemporâneo,
enfrenta todos os riscos. E, sobretudo, nós vivemos
um período de situação econômica,
social e financeira muito difícil.
E lembrou que a direita brasileira poderia tentar barrar
a transição à democracia:
- Haverá uma tendência de setores mais radicais
ou mais reacionários de pretenderem imputar ao
processo de restauração democrática
a pretensa inviabilidade da democracia no Brasil.
Esse perigo - o da ação dos grupos mais
radicais de direita tentarem inviabilizar a democracia
- devia, na opinião de Waldir, ser enfrentado "com
muita lucidez, muita coragem, muito patriotismo".
Afinal, refletia, a situação financeira
do Brasil não é fácil. Havia um endividamento
interno e externo brutal. E condições sociais
degradantes para a maioria do povo brasileiro.
- De modo que nós teremos de construir uma caminhada
para implantar a democracia brasileira dentro de condições
que são muito ásperas e difíceis.
É preciso que cada um de nós se compenetre
muito dessa hora delicada que estamos vivendo. E que passemos
a dar a nossa contribuição com muita lucidez.
E com muita competência política. Essa abertura,
tenho convicção, há de ser consolidada
com o esforço de todos os brasileiros.
Defendeu o restabelecimento das eleições
diretas em todos os níveis, o direito às
liberdades individuais, o respeito aos direitos humanos
e a reconstrução da vida cultural e social
da Nação. Tarefas que exigiam muita habilidade
política. Ressaltou o único ponto inegociável,
o único aspecto que não se podia transigir:
a liberdade.
"A liberdade é inegociável e é
a partir dela que se fará do Brasil um grande país".
Profético, lúcido, manifestou a certeza
de que no ano 2000 o Brasil seria um país importante.
Mas indagava-se sobre como isso se daria. "Que Nação,
no entanto, seremos? Construiremos uma Nação
viável, abrangente, para todos os brasileiros ou
a manteremos com disparidades tão perversas que
tornem este País inviável?".
Era um Waldir capaz de pensar o País e o mundo,
contextualizar os problemas do seu Estado, que desembarcava
no Aeroporto Dois de Julho. Com a convicção
de que o MDB se constituía na grande frente das
oposições, "o grande instrumento que
vai comandar a redemocratização". O
Waldir que virá a ser governador, eleito em 1986,
na maior vitória que um candidato já conquistou
em toda a história da Bahia.
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