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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte 3 - (Cap. XV)

Os golpistas de 1964 contavam com o apoio dos grandes jornais influentes...

Emiliano José*

Goulart, no comício de 13 de março de 1964, na Praça Central do Brasil, no Rio de Janeiro, não se sabe se ciente da cartada que estava jogando, lembrou as experiências de reforma agrária no Japão pós-2ª Guerra, na Itália, no México e na Índia. E afirma, sem meios-termos, que a reforma agrária deverá ser feita nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o escoamento de seus produtos. “A reforma agrária só prejudica uma minoria de insensíveis, que deseja manter o povo escravo e a Nação submetida a um miserável padrão de vida”. O fato de o País não ter, durante séculos, enfrentado o problema da reforma agrária torna essa discussão ainda atual.

Minas Gerais – diagnostica Waldir – era um dos epicentros fundamentais do golpismo, com o governo Magalhães Pinto à frente. Este se articulara com os EUA, conforme revelará o próprio Goulart a Waldir, já no exílio uruguaio. Magalhães Pinto montara um secretariado com perfil de secessão – ou seja, o governador de Minas estava disposto não só a deflagrar o golpe, quanto a se separar do Brasil para a hipótese de resistência mais prolongada, e receber apoio dos EUA para tanto. Com esse objetivo, ele teria nomeado Afonso Arinos secretário de Estado para a tarefa dos contatos com o exterior.

Waldir lembra de suas conversas com Goulart e testemunha que ele tinha convicção da possibilidade de levar as reformas à frente pelos caminhos democráticos. Não tinha consciência, assim, do quadro que já se formara em torno dele, nitidamente golpista. Acreditava que podia ir em frente, apelando ao povo, mas persistindo na institucionalidade de então. No dia 15 de março, Goulart envia a Mensagem Presidencial ao Congresso. Nela, como resultado de uma grande discussão dentro do governo, comunica que a Lei de Remessa de Lucros vai ser cumprida imediatamente.

Além disso, na mesma Mensagem, anuncia a implantação da Embratel e da Eletrobrás. Propõe, ainda, a adoção do princípio de que todo eleitor é elegível, a legalidade de todos os partidos políticos que afirmassem lealdade aos princípios democráticos e, além disso, o direito de convocação de plebiscito para consulta ao povo sobre as reformas de base. A ênfase, no entanto, é para a reforma agrária. Defende que “a ninguém é lícito manter a terra improdutiva por força do direito de propriedade”. Goulart, afirma Waldir, “continuava acreditando ser possível construir um Brasil soberano e mais justo, à base das reformas e de atitudes nacionalistas”.

Anteriormente, já dissemos o quanto Goulart estava cercado naquele março de 1964, talvez desde o segundo semestre de 1963, e lembrávamos análise de Thomas Skidmore, no seu Brasil: de Castelo a Tancredo. Suas possibilidades de êxito na política de reformas eram remotas. Sua permanência no governo, também. E, para além do golpismo militar em andamento, para além das lideranças civis que articulavam sua derrubada, entre as quais os já lembrados governadores de São Paulo, de Minas Gerais e da Guanabara, respectivamente, Adhemar de Barros, Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, para além de tudo isso, é essencial fazer o registro do papel decisivo da imprensa de então na articulação do golpe, na criação das condições político-sociais que possibilitaram a chegada dos militares ao poder.

É o próprio Skidmore quem retrata essa conjuntura e o papel da imprensa. Lembra que os militares estavam decididos a afastar Goulart, mas enfrentavam algumas dificuldades legais para concluir a operação. “Esta, porém, não seria uma dificuldade irremovível. Afinal, não descobriram o meio de depor Getúlio Vargas em 1945 e novamente em 1954? Por isso a falta de maioria parlamentar não seria causa maior de preocupação para os conspiradores”. Depois de lembrar os aliados civis, sobre os quais já falamos, Skidmore acentua que os conspiradores militares contavam com apoio decidido de jornais influentes como o Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo e o Correio da Manhã.

Para que compreendamos o papel de tais jornais, é importante acentuar que a televisão não era ainda o meio hegemônico no País. Os jornais desempenhavam um papel importante, eram os principais meios de formação do que conhecemos como opinião pública – opinião que, como sabemos, nas sociedades contemporâneas, é sempre construída sob o impacto decisivo dos meios de comunicação de massa. O apoio da grande imprensa ao golpe militar de 1964 foi quase obsceno. Isso não constitui mais novidade, mas creio ser importante reiterar o papel dela até para que compreendamos muito dos seus movimentos recentes que, na essência, não são distintos dos daquele período.

Quem recorrer ao excelente livro de Paolo Marconi (A censura política na imprensa brasileira - 1968-1978. São Paulo: Global Editora, 1980) vai poder constatar o quanto é verdadeira a afirmação de Skidmore. Especialmente quando ler o depoimento de Ruy Mesquita, então diretor e co-proprietário de O Estado de S. Paulo. Ele registra, sem meios-termos, que os diretores do jornal tinham reuniões diárias com os militares que...

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
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Capítulo 37
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Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 34
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Capítulo 31
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Capítulo 8
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Capítulo 7
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Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
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Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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