Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento - Parte 3 - (Cap. XVI)

A grande imprensa articulou o golpe e depois viu a censura voltar-se contra ela...

Emiliano José*

Quem recorrer ao excelente livro de Paolo Marconi (A censura política na imprensa brasileira - 1968-1978. São Paulo: Global Editora, 1980) vai poder constatar o quanto é verdadeira a afirmação de Skidmore quanto ao papel da imprensa na articulação do golpe militar. Especialmente quando ler o depoimento de Ruy Mesquita, então diretor e co-proprietário de O Estado de S. Paulo. Ele registra, sem meios-termos, que os diretores do jornal tinham reuniões diárias com os militares que conspiravam contra Goulart.

Não se tratava tão somente da ação discursiva, das manchetes, das matérias, dos enfoques e conteúdos jornalísticos. Os donos dos jornalões brasileiros, que tinham força e prestígio nacionais, reuniam-se constantemente com os golpistas. “Tínhamos reuniões diárias com militares que se opunham à situação e que acabaram derrubando Goulart”. Ou seja, prepararam o golpe conjuntamente com eles. Esse mérito, Mesquita o tem: não faz rodeios. Mérito do “Estadão”, que sempre proclamou sua posição à direita. Diferentemente de outros veículos, que fingem uma coisa e são outra.

Ruy Mesquita, no depoimento dado a Marconi, diz que sabia que se o golpe fosse vitorioso – ele o chamava de revolução – não seria impossível implantar imediatamente um regime “plenamente democrático”. Afirma que o jornal só rompeu com a ditadura – a revolução, segundo Mesquita – depois do AI-5, embora em termos, pois nada impedia de o jornal dar todo o apoio ao que a ditadura fizesse de positivo, “principalmente na sua política econômica”. Nesse depoimento, curiosamente, Mesquita reclamava da censura. Faz lembrar o que Marx dizia: a burguesia chama a espada, e depois a espada se volta contra ela.

A grande imprensa brasileira chamou o golpe, quis o golpe, articulou o golpe. E depois viu a censura voltar-se contra ela própria, pelo menos contra alguns dos órgãos que se entusiasmaram com a ordem castrense. Caso extremo foi o do Correio da Manhã, que deu entusiástico apoio ao golpe militar e depois, como reagiu às violências da ditadura, foi implacavelmente perseguido por ela, até extinguir-se. São famosos os títulos dos seus editoriais, nos últimos dias de Goulart, característicos de um meio que se envolvera profundamente com a idéia do golpe: “Chega”, “Basta” e “Fora”. Uma seqüência nitidamente golpista, clara subversão dos princípios democráticos, atuação contra um governo democraticamente eleito.

A história do Correio da Manhã está registrada em Calandra: o sufoco da imprensa nos anos de chumbo, de Pery Cotta. (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997) e também em Um jornal assassinado: a última batalha do Correio da Manhã, de Jéferson de Andrade (Rio de Janeiro: José Olympio, 1991). Depois de relatar a adesão ao golpe, Pery Cotta, no seu livro, esmiúça, como também o faz Andrade, o processo de asfixia econômica a que foi submetido o jornal pelo fato de ter compreendido que ditadura é ditadura e que não admite imprensa livre de nenhuma espécie. A asfixia econômica foi decorrente de uma decisão política da ditadura, que não admitia contestações. O importante a reter, nesse momento, no entanto, é a participação decisiva da imprensa brasileira na criação das condições para o golpe. Se não existia clima para a ação golpista, a imprensa trataria de criá-lo.Eu diria que ainda nos devemos uma análise mais acurada do papel da imprensa brasileira na fabricação das crises políticas no Brasil. Lembro as palavras de Marilena Chauí na revista Caros Amigos de novembro de 2005 a respeito da crise política do decorrer de 2005: “A crise, sobretudo como ela é apresentada, não existe! Ela foi criada num momento que alguns julgaram interessante inventá-la. Um produto midiático”.

Em 1964 tratava-se de criar um clima de pânico, mostrar a existência de perigosa república sindicalista, atemorizar os latifundiários com o espectro da reforma agrária, amedrontar a classe média com as greves, chamar a massa de católicos para se opor às reformas que Goulart pretendia fazer, trazer para a reação instituições como a Igreja Católica, assustar a todos com os riscos que a propriedade privada corria. Tudo isso a imprensa brasileira conseguiu fazer, com muito trabalho, consciência e disciplina. Sem qualquer inocência e atentando contra os princípios jornalísticos liberais que ela disse e diz defender.

A imprensa brasileira conseguiu fabricar uma opinião pública favorável ao golpe. Seguramente ao menos uma parcela da sociedade brasileira viu o golpe com alívio. Não importa que grande parte daquilo que a imprensa dissesse fosse uma construção ideológica – e ideológica no sentido de falso. Importa que se a imprensa diz, parece verdade. Dito de outra maneira é a imprensa que constrói a verdade, mesmo que ela, examinada com outras lentes, não seja mais do que uma construção arbitrária, mentirosa, a serviço dos interesses das classes dominantes, que viam os seus privilégios contrariados, ou potencialmente contrariados, pelo governo Goulart. E a serviço, como já se viu, dos interesses norte-americanos.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados