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Galeria
F – Lembranças do Mar Cinzento –
Parte 3 - (Cap. XVII)
Waldir
Pires e Yolanda começaram vida nova no Uruguai,
como exilados...
Emiliano José*
A idéia de opinião pública precisa
ser devidamente qualificada. Uma espécie de senso
comum dá conta de que ela surge naturalmente,
como uma opinião livre, que emana dos cidadãos,
e que, sendo assim, seria uma força democrática,
libertadora. A opinião pública, nas sociedades
contemporâneas, de modo geral, é, no entanto,
fruto da ação midiática, do conjunto
dessa ação, como já se disse, embora
não se possa reduzi-la apenas a ela. É
verdade que, em algumas conjunturas, o povo reage porque
se desenvolvem mecanismos contra-hegemônicos que
conseguem resistir ao impacto da mídia. Mas não
foi o caso durante a preparação do golpe
de 1964. Ali prevaleceu a influência golpista
da imprensa brasileira, que contribuiu decisivamente
para a chegada dos militares ao poder.
Waldir e Darcy iniciariam uma vida inteiramente nova
no Uruguai. Sentiriam a experiência do exílio,
dura como se sabe. Solitário, sem os filhos,
Waldir não via a hora de reencontrar a família,
Yolanda e os cinco filhos: Cristina, Waldemir, Vívian,
Lídia e Francisco. Yolanda ficara em Brasília,
hospedada no Hotel Nacional, à espera do apartamento
funcional que estava em obras, e que nunca seria ocupado
pela família. Yolanda saiu do hotel com toda
a família e foi para a residência de um
casal amigo, Renato Sampaio e Doralice Gomes. Experimentava
uma sensação de que tudo se desagregava:
os filhos irrequietos, os objetos da família
todos dispersos, inclusive as centenas de livros, Waldir
distante. Um sentimento de vazio e desânimo.
Em meio a esse quadro, ainda foi intimada a depor.
O coronel, grosseiro, além de exigir o apartamento
que estava destinado à família, fazia
perguntas ridículas sobre Waldir e queria também
saber o que ela fazia como presidente da Casa do Candango,
entidade que ajudava as pessoas carentes que chegavam
a Brasília em busca de oportunidades de trabalho.
Era uma entidade suprapartidária, tão
assim que ao lado de Yolanda na direção
estava Carmela Salgado, mulher do líder integralista
Plínio Salgado. Yolanda, que tinha o sangue quente,
disse ao coronel o que pensava da ditadura. Sentia-se
só, em meio a um mar de dificuldades.
Alberto Avena, irmão de Yolanda, foi a Brasília,
e a convenceu de que os filhos menores deveriam ir com
ele para Salvador, para onde então seguiram Waldemir,
Vivian, Lídia e Francisco. Cristina, com 11 anos,
ficou com Yolanda. Ela acompanhava com muita aflição
os acontecimentos, sofria com a ausência de Waldir,
com a separação dos filhos, com a angústia
de outras pessoas, perseguidas pela ditadura, como Lígia,
mulher de Almino Afonso, grávida, interrogada
pra informar onde se encontrava o marido.Yolanda sentia
o quanto era necessário ter convicções
sólidas para agüentar uma situação
como aquela. Resistia.
Nos primeiros tempos, falou poucas vezes com Waldir
por telefone, e sempre de modo cifrado, consciente de
que os telefonemas estavam sendo gravados. Experimentou
a alegria de uma carta trazida em mãos pelo escritor
Mário Palmério, ex-embaixador brasileiro
no Uruguai. Resoluta, Yolanda decidiu que deveria estar
com Waldir para decidirem juntos o que fazer da vida
a partir daquele quadro, que não dava sinais
de mudança no curto prazo. Embarcou no Rio de
Janeiro, sob o olhar vigilante, solidário e amigo
de Acácio Ferreira. No Aeroporto de Carrasco,
em Montevidéu, Waldir a esperava.
Resolveram que deveriam adotar as providências
para que os filhos também viessem para o Uruguai,
voltar a reunir a família, o que só veio
ocorrer em julho de 1964, depois de a ditadura opor
inúmeras dificuldades. Moravam no Parque Legenda
Patria, num pequeno apartamento, de precárias
condições, embora muito bem localizado.
Moravam próximos aos casais Maria Tereza e Goulart
e Berta e Darcy Ribeiro. Exílio, Yolanda tinha
plena consciência disso, é a perda da normalidade
da vida, sensação permanente de estranheza,
saudades da terra deixada para trás, solidão.
Yolanda ressentia-se do frio intenso, do vento minuano
chicoteando-lhe o rosto. O mesmo frio incomodava toda
a família à noite, aquecida apenas por
um aparelho portátil que, ligado, aquecia demais
o ambiente; desligado, transformava os quartos numa
geladeira. Dormiam entre o frio e o calor intensos.
O exílio no Uruguai foi muito duro, ela registraria
mais tarde.
Waldir, Darcy, Almino Afonso, Max da Costa Santos,
Neiva Moreira, Goulart, Brizola, entre tantos exilados,
organizavam-se para socorrer os companheiros mais necessitados,
tanto os que já estavam no Uruguai, quanto os
que chegavam. Waldir procurava emprego e não
conseguia, como a maioria dos brasileiros, exceção
feita a Darcy Ribeiro. A família vivia do dinheiro
que era enviado por parentes e amigos. Waldir sabia
ser aquela uma situação insustentável.
Mas, ia tentando. Alugou um novo apartamento, na Calle
Benito Blanco, antes ocupado pelo ex-vice-governador
do Rio de Janeiro, Eloy Dutra, onde o conforto era um
pouco maior. Ao menos, tinha aquecimento central, o
que era uma extraordinária vantagem em relação
ao anterior.
Waldir passou a pensar em vender frangos para sobreviver.
Começou...
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.
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