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F – Lembranças do Mar Cinzento – Parte
3 - (Cap. XVIII)
Waldir
e Yolanda foram para o exílio no Uruguai, depois
Paris...
Emiliano José*
Waldir, diante das dificuldades de sobrevivência
no Uruguai, passou a pensar em vender frangos para sobreviver.
Começou a ler sobre a criação e
o abate, convenceu outros parceiros a se articular para
o empreendimento. Amaury Silva, ex-ministro do Trabalho
de Goulart, Darcy Ribeiro e o ex-comandante da Aeronáutica
Mello Bastos juntaram-se à idéia. Constataram
o óbvio: precisariam de um bom aporte de recursos,
de que não dispunham. Ainda imaginaram investir
num posto de gasolina. A falta de capital inviabilizou
todos os projetos empresariais do grupo no Uruguai.
Waldir, então, decidiu então ir para
a França, onde acreditava existir mais oportunidades.
A sua obstinação permitiu que aprendesse
francês em apenas 6 meses. Começou a dialogar
com os amigos que estavam na França. Max da Costa
Santos já havia partido para Paris, onde também
se encontravam Raul Riff, Celso Furtado e Josué
de Castro. Com a decisão, os filhos foram mandados
para Salvador, onde ficariam na casa dos tios Gerbaldo,
Alberto, Luiz e Tereza. O casal saía do país
cheio de gratidão com tantos que os ajudaram.
Especialmente João Goulart e sua mulher Maria
Tereza, esta de uma generosidade e um carinho extraordinários
com os filhos de Waldir e Yolanda.
Começou a se corresponder com Josué de
Castro de modo a encontrar algum argumento, algum apoio
para chegar à França. Castro, que havia
sido embaixador em Genebra durante o governo Goulart,
deu um jeito de convidar Waldir para um seminário
que ocorreria em Paris sobre liberdade do comércio
internacional. Isso abria a possibilidade de se conseguir
um visto temporário em território francês.
O visto era de exilado político. Waldir não
conseguia um passaporte ordinário. Conseguiu
apenas, do governo uruguaio, o documento de refugiado
político.
Para viajar para a França, no entanto, era necessária
uma outra garantia: a de que poderia voltar ao Uruguai
e poder permanecer no país por mais um ano, o
que Waldir conseguiu.
Antes de viajar para a França, foi ao Chile
conversar com alguns companheiros exilados sobre o seu
plano. Queria também preparar a eventualidade
do retorno à América Latina, caso as coisas
na França não corressem como ele planejava.
Deixou o terreno preparado para a hipótese da
volta com Paulo de Tarso Santos, Plínio de Arruda
Sampaio e Almino Afonso, que havia algum tempo viviam
em Santiago. Se Paris desse errado, se na França
não conseguisse nenhum emprego, Waldir não
voltaria mais ao Uruguai, onde não encontrara
nenhum emprego. O Chile, com tantos amigos, oferecia
mais possibilidades.
Na noite de 17 de dezembro de 1965, encontra-se com
Yolanda no aeroporto de Buenos Aires, e de lá
seguem num vôo da Air France para Paris, passando
por Dakar. O dia amanhecia quando desembarcaram no aeroporto
de Orly, 18 de dezembro de 1965.
Waldir, mais forte e mais afeito às intempéries
da vida, suportava o frio e a situação
de uma forma mais serena. Yolanda sentiu de início
o impacto do frio. Não tinha agasalhos suficientes
para enfrentar a baixa temperatura parisiense desse
período. Para ela, um frio irritante. E a invadiam
sentimentos de medo, de perplexidade diante daquele
cenário novo, onde tudo era incerteza. Nostalgia,
melancolia, um vazio na alma, uma saudade que doía,
intensa, profunda das crianças. Tudo isso, no
entanto, era compensado pela presença solidária
de Max da Costa Santos (que havia sido deputado federal
durante o governo Goulart) e de Raul Riff (que fora
secretário de imprensa de Goulart), que os receberam
carinhosamente no aeroporto.
Max da Costa Santos já havia reservado um quarto
para os dois no Hôtel du Levant, na Rue de La
Harpe, no Quartier Latin. Um hotelzinho duas estrelas,
de instalações precárias, que impressionaram
Yolanda negativamente. Waldir sempre procurava animá-la,
confortá-la. O que mais entristecia, deprimia
Yolanda era a ausência dos filhos. Ela se perguntava,
sem poder responder, por que tinham de enfrentar tantas
provações. Sabia racionalmente ser tudo
isso decorrente da situação política,
mas entre a razão e a emoção há
sempre uma grande distância. Waldir ali, ao seu
lado, estóico, firme e sempre estimulando-a a
ser serena e forte. Ela com o corpo todo doído,
somatizando a crueldade da separação dos
filhos. Cumpriam uma sentença – o exílio,
conforme o raciocínio de Yolanda.
Waldir procurava atalhos que não permitissem
o mergulho de Yolanda numa situação depressiva.
Chamava-a para a rua, para inebriar-se de Paris, apesar
de tudo. Talvez por isso, por ter vivido em Paris tantos
anos numa situação difícil, Waldir
tenha até hoje um amor profundo pela cidade,
que ele conhece como a palma da mão. Fala dela
com um carinho imenso, com um amor inesgotável.
Naqueles primeiros dias, quase arrastava Yolanda para
a rua. Ela, como fera ferida, queria ficar sozinha,
curtindo a solidão, a saudade dos filhos. Waldir
não deixava. Carinhosamente, mas de modo decidido,
tomava-a pelas mãos e levava-a para as ruas do
Quartier Latin, ao lado de Max da Costa Santos e de
Raul Riff.
Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número
um da ditadura militar; As asas invisíveis do
padre Renzo; Galeria F – Lembranças do
Mar Cinzento, parte I e II.
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