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Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (I) - Série 2

Publicado em A TARDE - 07.04.2001

 

Emiliano José
  
No dia 15 de abril de 1964, Sérgio Gaudenzi apresentou-se no Quartel-General, no bairro da Mouraria, em Salvador, já de malas prontas, certo de que seria preso. E foi. Levado para o 19º Batalhão de Caçadores do Exército (19º BC), lá encontrou vários de seus colegas de movimento estudantil. O general Humberto de Alencar Castello Branco, feito presidente pela ditadura, em face do grande número de denúncias de ilegalidades, determinou que fossem soltos os prisioneiros que não estivessem com culpa formalizada. Na véspera de São João, Gaudenzi ganhou a liberdade. Não sabia que voltaria à prisão três semanas depois, para sair apenas no final de outubro, com habeas-corpus obtido por seu advogado, Jaime Guimarães. O leitor já se deu conta de que estamos voltando à nossa história, iniciada em 1999 e que já resultou num livro (“Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento”, Editora Casa Amarela), começando agora uma nova fase.

O golpe surpreendeu Gaudenzi, então estudante de engenharia e dirigente do movimento estudantil, como a vários de seus colegas. Afinal, João Goulart havia feito um comício-monstro no Rio de Janeiro poucos dias antes, e se acreditava que o governo estivesse forte. “E em questão de dias, tudo desmoronou”, comenta Gaudenzi, atualmente secretário do Partido Socialista Brasileiro (PSB) na Bahia. Ele e seus amigos imaginavam que fosse mais um dos vários movimentos militares, que seria rapidamente sufocado. Não foi.

Rapidamente chegou-se à conclusão de que o golpe era para valer. Quem pôde, saiu de Salvador, com esperança que, de repente, viesse alguma sinalização do governo, e pudessem, os que haviam saído, voltar para ajudar na resistência. Ele partiu junto com Péricles de Souza e Raimundo Mendes, dois de seus companheiros de movimento estudantil.

Primeiro, procuraram Francisco Pinto, prefeito de Feira de Santana. Este lhes disse que a situação no município não era boa e que ele próprio podia ser preso a qualquer hora. Seguiram, então, para Cruz das Almas, para pegar Amilcar Baiardi, presidente do Diretório de Agronomia. Baiardi já havia partido. Naquele 2 de abril de 1964, dormiram em Cachoeira, e no dia seguinte foram para Amargosa, depois para Itaberaba, onde se esconderam na fazenda do pai de Raimundo Mendes.

Mandaram o motorista da Kombi em que viajaram de volta. Todo o armamento de que dispunham era um revólver calibre 22, velho, e foi a ele que recorreram quando, numa noite, ouviram primeiro um ruído de carro se aproximando e depois um grito que os chamava. Mas, para alívio deles, não precisaram se valer da arma, pois eram os pais de Gaudenzi e de Mendes que haviam chegado de Salvador para ajudá-los. Gaudenzi concluiu que não havia muita saída e que o melhor caminho seria se entregar, saber o que a ditadura queria com ele.

Até ali a sua trajetória era de liderança estudantil, que começara no Colégio Maristas, em 1957. Não no grêmio, que não existia, mas na Academia Rui Barbosa – uma instituição elitista, de 40 membros. Gaudenzi fez o concurso para entrar, e venceu. Seu patrono, com muito orgulho, era Machado de Assis, e ele, quando falava para os estudantes, entremeava seus discursos com frases de Machado.

No jornal-mural da escola, Gaudenzi assinava um artigo sob o título “Meu personagem da semana”, mesmo título que Nelson Rodrigues dava para o dele num jornal do Rio de Janeiro. Até o dia em que fez um esculhambando um professor e cassaram-lhe o direito de continuar escrevendo. Lembra-se também da União Estudantil Mariana, pela qual recolhia roupas com os colegas e com pessoas de classe média para distribuir com os pobres da Baixa do Canela. Hoje, a área é uma avenida, e os pobres foram empurrados para regiões distantes dos bairros centrais de Salvador. O começo da vida política de Gaudenzi foi assim: discursos na Academia e distribuição de roupas para os pobres. Foi isso que levou definitivamente para os braços da política, da qual não mais se afastaria.

Entrou para a Universidade Federal da Bahia (Engenharia), em 1960, com 17 anos. Logo foi convidado para ingressar na Juventude Universitária Católica (JUC) por Jorge Leal Gonçalves Pereira, que será mais tarde assassinado pela ditadura. Aceitou e começou a atuar politicamente, pois a JUC tinha uma veia política acentuada. Além de Jorge Leal, a JUC contava com personalidades como Haroldo Lima, Paulo Mendes, Rubem Ivo, Mário Nascimento e Joviniano Neto, entre os homens. “E um verdadeiro matriarcado na direção: Moema Parente, Lourdes Coelho, Liliana Mercuri, Suzana Marcelino: depois vieram Clarita Mesquita, Anete Leal, Jaci Célia Franca e Stella Barros”.

Gaudenzi compreende que a JUC, embora fosse um movimento ligado à Igreja Católica, funcionava quase que como um partido político. Disputava diretórios, a direção da União dos Estudantes da Bahia (UEB), buscava a hegemonia do movimento estudantil na luta com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), a grande organização de esquerda de então. Em 1960...
 
Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de “Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento” (Editora Casa Amarela).

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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