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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento (II)
Publicado em A TARDE em 07/05/2001
Emiliano José
Sérgio Gaudenzi, de quem falávamos no capítulo anterior, considera que
a JUC, embora fosse um movimento ligado à Igreja Católica, funcionava
quase como um partido político. Disputava diretórios, a direção da União
dos Estudantes da Bahia (UEB). Na verdade, buscava a hegemonia do movimento
estudantil em todo o Brasil, na luta com o Partido Comunista Brasileiro
(PCB), a grande organização de esquerda do País naquele momento, e que
desempenhara papel importante desde os anos 30, e particularmente após
o fim da II Guerra Mundial.
Em 1960, a JUC já consegue eleger Paulo Mendes para a presidência da UEB.
Em 1961, é eleito Aristiliano Braga, próximo do PCB, mas Gaudenzi, no
entanto, ligado à JUC, ocupa o cargo de vice-presidente. E no final de
1962, é eleito presidente da UEB, no momento em que a JUC servira de base
para o surgimento de Ação Popular (AP), organização que nasce cristã e
que se transformará em marxista na seqüência.
A eleição de Gaudenzi para a presidência foi cheia de sobressaltos. Não
propriamente por conta dele, que reunia um consenso grande, mas em razão
de divergências que envolviam outros nomes e outras vaidades. Ele já havia
acertado uma composição política, que incluía duas vice-presidências para
o PCB: uma para Carlos Nelson Coutinho, de Direito, e outra para Paulo
Duarte, de Medicina. A AP, no entanto, prejudicou o acordo, o PCB rompeu,
e só apoiou o nome de Gaudenzi. A chapa vencedora contava apenas com militantes
da AP e nomes da chamada esquerda independente.
Em 1963, o governador da Bahia era Lomanto Júnior. O prefeito de Salvador,
Virgildásio Sena. O primeiro havia vencido Waldir Pires, no ano anterior,
por uma pequena margem de votos, ancorado numa forte campanha anticomunista,
apoiada pela alta hierarquia da Igreja Católica. O segundo vencera Osório
Villas Boas.
O ano de 1963 foi particularmente agitado. O presidencialismo derrota
o parlamentarismo. E o presidente da República, João Goulart, previa que
a crise brasileira, que não era pequena, poderia “caminhar para um desfecho
imprevisível, decorrente, há 15 anos, de um processo de espoliação por
parte das grandes potências, que se enriqueceram às custas do nosso empobrecimento”.
Infelizmente, o “desfecho imprevisível” foi a ditadura.
A Bahia sofre com a seca. Milhares de trabalhadores do cacau migram para
São Paulo e Goiás em busca de trabalho. Goulart anuncia a aplicação de
73 bilhões de cruzeiros no Plano Preferencial de Obras Contra a Seca.
As chamadas classes produtoras baianas começam a arregaçar as mangas para
o golpe do ano seguinte, e telegrafam ao presidente da República revelando
suas preocupações com o “ambiente de intranqüilidade em que vive o País”.
Foi nesse quadro que instalou na Bahia o Primeiro Seminário Estudantil
do Mundo Subdesenvolvido, na Reitoria da Universidade Federal da Bahia
(UFBA). Organizado pela União Internacional dos Estudantes, pela União
Nacional dos Estudantes (UNE) e pela UEB, contou com a participação do
Ministério da Educação do governo João Goulart e reuniu milhares de estudantes
da Bahia, do Brasil e de várias partes do mundo. O secretário-geral do
seminário foi Sérgio Gaudenzi, presidente da UEB.
São fortes em Gaudenzi as lembranças do seminário, do entusiasmo dos seus
colegas estudantes. O encontro, aberto pelo governador Lomanto Júnior
e que contou também com a presença do ministro da Educação, Paulo de Tarso,
e do presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Vinícius Caldeira
Brandt, revelava o espírito do tempo, marcado pela luta contra o colonialismo,
contra o subdesenvolvimento, contra os países imperialistas e, também,
pela ênfase quanto ao papel da juventude no processo de transformação
do mundo. Na preparação do encontro, Gaudenzi e alguns de seus colegas
foram presos porque estavam colando cartazes do seminário. A polícia só
os soltou depois de confirmarem que a reunião contava com o apoio do governador
e do ministro da Educação.
Gaudenzi não economiza elogios à capacidade de mobilização, de criatividade
e de ação política do movimento estudantil de então. Reuniões estaduais
constantes, seminários de reformas universitárias, a criação do Centro
Popular de Cultura (CPC) na gestão de Aristiliano Braga são algumas das
lembranças dele. O CPC particularmente foi muito importante para as atividades
da UEB. Até nos trotes, o CPC atuava, com suas criações culturais, como
o “Auto do 1%” – peça que denunciava o fato de que apenas 1% dos que entravam
no ensino primário chegavam à Universidade. O “Bumba Meu Boi”, de Capinan,
percorreu o interior baiano, levado pelo CPC, a UEB à frente, pretendendo,
e sem esconder que pretendia, educar politicamente o povo. Ninguém, naquele
1963 cheio de entusiasmo, admitia a possibilidade de golpe, muito menos
os dirigentes do movimento estudantil.
Emiliano José é jornalista
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