Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento (III)
Publicado em A TARDE em 21/05/2001
Emiliano José

Era, dizíamos no capítulo anterior, um ano cheio de entusiasmo. Havia muita esperança na movimentação dos estudantes em 1963. A posteriori, é fácil analisar, e dizer que havia forças conservadoras se movimentando e que não era possível que os setores progressistas não percebessem. Ali, no entanto, no olho do furacão, não era fácil compreender o que se passava. Parecia que tudo corria a favor da revolução, quando tudo conspirava contra. É provável que tenha sido esse espírito que tenha feito com que as forças de esquerda fossem apanhadas quase que completamente desprevenidas quando o golpe de 1964 sobreveio.

O Congresso da UNE de 1963 refletiu esse clima entusiasmado. Era uma disputa acirrada. Sérgio Gaudenzi inicialmente era candidato a presidente da entidade e tinha o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Como houve divergências dentro da AP e existia um outro candidato da própria organização, o atual ministro da Saúde, José Serra, Gaudenzi, após uma prévia nas diversas bancadas estaduais, contestadíssima, retirou sua candidatura e apresentou em plenário a candidatura de Serra. Contra a opinião do PCB, que defendia que o nome de unidade era o de Gaudenzi, Serra foi eleito.

Recentemente, o atual secretário de Cultura de Marta Suplicy, em São Paulo, Marco Aurélio Garcia, dizia-me que errou ao apoiar o nome de Serra contra o de Gaudenzi. As lições da história o fizeram rever o apoio. Sérgio Gaudenzi hoje é secretário-geral do PSB na Bahia. José Serra, ministro tucano-neoliberal. A AP, antes JUC, desde o começo dos anos 60, hegemonizara o movimento estudantil nacional. Para a presidência da UNE, elegera, em 1961, Aldo Arantes. Em 1962, Vinícius Caldeira Brandt. E em 1963, José Serra.

A AP já tivera problemas com o PCB quando da eleição de Gaudenzi para presidente da UEB no final de 1962. Na sua sucessão, o PCB, que ainda tinha força no movimento estudantil baiano, consegue fazer o presidente da União dos Estudantes da Bahia (UEB), e isso apesar de a AP controlar 25 dos 32 diretórios acadêmicos então existentes. Foi a divisão da AP, ainda como seqüela do Congresso da UNE de 1963, que determinou a derrota, e não apenas a força, do PCB, segundo o diagnóstico de Gaudenzi. Assim, quando ocorre o golpe de 64, o presidente da UEB é Carlos Alberto Oliveira, então conhecido como Betinho, hoje quase célebre como Caó – jornalista e depois deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Quando o ano de 1964 chega, depois de sair da direção da UEB, Gaudenzi começa a se articular para, desta vez, conquistar a presidência da UNE. Tentaria unir a AP e não tinha mais a disposição de ceder para outro candidato como fez na eleição anterior. Na Bahia, o movimento estudantil continuava a ocupar um papel destacado na luta política.

Havia, no entanto, um movimento sindical em ascensão por conta especialmente da existência da Petrobras. As duas organizações sindicais mais fortes eram o Sindipetro (que agregava os trabalhadores do refino) e o Stiep (que congregava os operários da extração de petróleo). As duas grandes lideranças dos assalariados da Petrobras eram Mário Lima e Wilton Valença. Os dois serão eleitos deputados – Lima, federal, Valença, estadual. O historiador Franklin Oliveira Jr, em seu livro “A Usina dos Sonhos – sindicalismo petroleiro na Bahia – 1954-1964”, localiza, a partir de 1960, a presença da esquerda orgânica no movimento sindical (PCB, AP, Polop), que, no entanto, não consegue suplantar as lideranças de Mário Lima e Wilton Valença.

Claro que o movimento sindical baiano não começou com a Petrobras. Havia forças operárias organizadas nos portos, nas ferrovias e em várias outras categorias. A Petrobras, no entanto, deu outra dimensão ao sindicalismo. Gaudenzi destaca, porém, que o movimento estudantil, naquela específica conjuntura, desempenha um papel fundamental. Era, na verdade, o elemento instigador das movimentações políticas. E o que colocava multidões nas ruas. E, ao mobilizar os estudantes, provocava positivamente os operários. Gaudenzi acentua a boa relação existente entre os sindicatos e as organizações estudantis. “Eu vivia em reuniões com as entidades sindicais. E éramos bem entrosados, apesar do jogo de vaidades”. E então veio o golpe...

Emiliano José é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela). emiljose@uol.com.br - (site: www.emilianojose.com.br)

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados