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F – Lembranças do Mar Cinzento (IV)
Publicado em A TARDE em 28/06/2001
Emiliano José
No último capítulo, falávamos das boas relações
entre o movimento estudantil e o operário. Sérgio
Gaudenzi relembra que havia uma espécie de embrião
na Bahia do que hoje é a Central Única dos Trabalhadores
(CUT). Era a CPOSB – Comissão Permanente das Organizações
Sindicais da Bahia. A CPOSB é que reunia os sindicatos
em torno de si. O presidente, lembra Gaudenzi,
era Raimundo Reis, funcionário do Banco do Brasil,
uma liderança séria e lúcida.
Gaudenzi não se esquece do velho e respeitado
metalúrgico João dos Passos, de Washington José
de Souza, de Cardosão dos portuários. As reuniões
da CPOSB realizavam-se na Rua Guedes de Brito,
próximo ao Liceu de Artes e Ofícios. O movimento
operário podia unir-se ao estudantil em bandeiras
de luta nacionais, como na defesa do monopólio
do petróleo, na política antitruste, na luta contra
a indústria de enlatados, na defesa da soberania
nacional, pela reforma agrária, contra a indústria
farmacêutica multinacional, pela autodeterminação
dos povos.
A Bahia vivia, naquele início dos anos 60, uma
verdadeira explosão cultural. A Universidade Federal
da Bahia havia montado novos cursos, como dança
e teatro, e implantado o seminário de música.
A política cultural ousada do reitor Edgard Santos
atraiu muita gente de fora do Estado. Havia, de
acordo com as lembranças de Gaudenzi, uma profusão
de peças teatrais se sucedendo. Eros Martim Gonçalves
foi o primeiro grande nome do teatro. Em seguida,
veio o Teatro dos Novos, tendo à frente João Augusto.
A partir daí, diversos grupos teatrais foram nascendo
e se multiplicando.
Na dança, Yanka Rudska, Rolf Gelewsky, Lia Robatto,
Laís Salgado, Dulce Tâmara. Na música, Hans Joachim
Koellreutter e a família Benda. Período em que
Lina Bo Bardi dirigia o Museu de Arte Moderna
da Bahia. Final dos anos 50, início dos anos 60.
A universidade era o centro animador da cultura,
numa época de extrema criatividade. Aos interessados
em conhecer esse tempo de forma mais detalhada,
que complete as lembranças de Gaudenzi, aconselha-se,
entre tantas indicações possíveis, a leitura do
livro de Antônio Risério, Avant-Garde na Bahia,
publicado pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi.
Toda essa agitação cultural, que era acompanhada
pela efervescência política, e efervescência que
indicava a possibilidade da afirmação das idéias
revolucionárias e progressistas. Mas o golpe de
64 aconteceu, com todas as suas conseqüências,
como já discutimos. E Gaudenzi foi preso no dia
15 de abril e solto em 23 de junho, véspera de
São João, uma das maiores festas populares da
Bahia, o que contamos rapidamente no primeiro
capítulo desta nova série. Coisa de 20 dias depois,
no entanto, um delegado chega à casa de Gaudenzi
com um mandado de prisão preventiva. Novamente,
foi levado para o 19º Batalhão de Caçadores, onde
então soube que estava enquadrado no Artigo 1º,
inciso II, da Lei de Segurança Nacional por tentar
mudar a ordem social estabelecida mediante ajuda
ou subsídio de potência estrangeira ou organização
de caráter internacional. Gaudenzi costumava dizer
que, no seu caso, sendo da Juventude Universitária
Católica, só podia ser o “Ouro do Vaticano” e
não o de Moscou como se falava à época.
Na primeira prisão, entre abril e junho, ficou
no terceiro andar de uma ala do 19º BC, alojamento
de uma das companhias. A rotina era acordar para
o café da manhã – pão e café – , esperar a comida
do almoço – feijão, arroz e carne ensopada –,
a do jantar, igual a do almoço, e dormir. Gaudenzi
lembra-se que havia uma escada no meio do alojamento,
no início da qual ficava um soldado de fuzil em
punho. Recorda-se que um dia um dos presos, José
Brandão, queria fumar e não achava fósforo. Perguntou
ao soldado se podia acender o cigarro. Este, sem
pestanejar, entregou o fuzil a Brandão e foi ao
armário buscar o fósforo. Na volta, a troca: devolveu
o fuzil, recebeu a caixa de fósforos. Felizmente
nenhum oficial apareceu no alojamento naquele
instante. Com ele, estavam, nessa fase, Amílcar
Baiardi, José Brandão, Antônio Carlos Tramm, Fernando
Alcoforado, Edson Teles entre muitos outros.
Na segunda prisão, ficou no início no xadrez dos
sargentos. Depois, foi transferido para o dos
oficiais, onde havia sanitário na cela. Com ele,
Marcos Gorender, Ronaldo Duarte, Aristiliano Braga,
Moacir Pinheiro, Sá Barreto entre outros. Passavam
o tempo em longas conversas, nas quais sempre
a política acabava predominando. Ronaldo Duarte
conseguiu que lhe mandassem uma bela coleção de
livros de arte. Foi um deleite. Foi também um
aprendizado enorme com Ronaldo, conhecedor da
matéria, servindo de professor. Jogavam futebol
durante os banhos de sol. Essa foi uma reivindicação
que fizeram e foi atendida pelo general Ernesto
Geisel, então chefe da Casa Militar, que percorreu
as prisões do País, a mando do ditador Castelo
Branco, para verificar as condições dos prisioneiros.
O centroavante do time de Gaudenzi era Seixas
Dória, ex-governador de Sergipe, de quem lembra
ser bom de papo e muito ruim de bola mas, sendo
governador, não podia ser barrado, tinha de jogar.
Um dia, no banho de sol, Edson Teles, médico,
chamou Gaudenzi de lado e disse: “Acabo de me
casar”. “O homem enlouqueceu”, pensou Gaudenzi,
sem entender nada. Mas Teles explicou: “Passei
uma procuração para um irmão me casar”.
São coisas de uma vida na prisão. Pelo menos,
no meio da incerteza, da angústia, do medo, do
sofrimento, há algo de bom, de fraterno, de solidário
e até de pitoresco, afirma Gaudenzi, que saiu
da prisão como resultado de um habeas-corpus impetrado
pelo seu advogado Jaime Guimarães, em outubro
de 1964. Era obrigado a se apresentar no quartel-general
duas vezes por semana, rotina que o incomodava
muito. Sem consultar ninguém, resolveu ir para
São Paulo, onde ficou até o início de 1965. José
Milton Almeida, seu colega de faculdade, de posse
de uma procuração, fez a matrícula dele na Escola
Politécnica, onde estudava. Voltou para a Bahia
no início das aulas, quando a situação política
tinha abrandado um pouco. Formou-se em Engenharia
em dezembro de 1967, sendo o orador de sua turma.
Emiliano José
é jornalista
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