| Galeria
F - Lembranças do Mar Cinzento (IX)
Publicado em A TARDE em 15/11/2001
Emiliano José
Jorge Amado morreu. Uma terrível notícia. Haviam sido contemporâneos de
militância no Partido Comunista Brasileiro. Admirava-o profundamente,
admiração construída sob o manto de valores nobres. Ainda na idade da
inocência do PCB. Ele, um militante dedicado. Jorge, já uma estrela do
partido e grande escritor.
Mário entrou em crise. Depois de ter visto a intensa, ampla cobertura
do ritual que se seguiu à morte do mais lido escritor brasileiro em todo
o mundo, foi dormir. Tenso. Na madrugada, acorda, sobressaltado, e sacode
a mulher: “Vou morrer, vou morrer! Faltava-lhe o ar nos pulmões. Não sabia
a razão, nem havia causa aparente. A idade, talvez. Ou simplesmente a
morte de Jorge. Era como se a morte dele lhe desse a consciência da natureza
efêmera da vida, do fim próximo. A mulher abraça-o, acaricia-o. Ele sossega.
O coração volta ao ritmo normal. Respira. A vida, doce vida, parecia ainda
à mão. Dorme. Mário tem hoje 83 anos. Mora num pequeno apartamento no
bairro do Cabula, em Salvador.
Dona Íris costumava contar aos filhos sobre Jorge. Conhecera Mário nas
reuniões do partido. Era enfermeira. Com ele se casara. E conhecera também
Jorge. Sem nunca ter chegado a ser íntima dele, acompanhava a sua trajetória
com atenção. Ele, para além de sua condição militante, era também um ídolo,
quase um mito.
Ela se lembra de Jorge, nos trens do Subúrbio Ferroviário, em Salvador,
indo e vindo, a máquina de escrever apoiada sobre os joelhos, a imaginação
correndo solta. Fechado em seu mundo imaginário. Certamente, algumas vezes
foi ao Subúrbio em busca da moqueca predileta, à casa de algum amigo,
a uma reunião. Outras vezes, correu o subúrbio ávido por algum personagem.
Ali podia encontrar inspiração para seus capitães de areia, para seus
marinheiros de longo curso, ouvir histórias do sem fim, imaginar pistoleiros
querendo matar coronéis, e podia encontrar mulheres que o inspirassem.
Mergulhar fundo na alma, não raro no corpo, da mulher que o encantasse,
e depois deixar a imaginação correr por entre os dedos que afundavam nas
teclas, embalado pelo barulho do trem. Ali podia sonhar com os subterrâneos
da liberdade.
Dona Íris se lembra. Como hoje. Da filha Maria Lúcia, com 13 anos, em
1966, a família já fugida da Bahia, dos rigores e terrores do golpe de
1964. Como ela lia, com que interesse e prazer, o romance “Subterrâneos
da Liberdade”, que vai animá-la também à militância e levá-la à prisão,
com 16 anos, por alguns dias, na capital paulista. Os três volumes que
compõem o livro foram retirados da Biblioteca Pública do Centro Educacional
do bairro da Móoca, onde fixaram residência quando chegaram da Bahia.
O “Subterrâneos da Liberdade” conta, na forma romanceada, a história do
PCB, particularmente durante a ditadura de Vargas. Jorge fora inspirador
da militância de muitos jovens.
Em 1964, Mário Alves de Souza teve de sair às pressas da Bahia, sem lenço
nem documento, sob pena de ser preso. Era militante do PCB. Chegara em
São Paulo sem cobre quebrado. Tem o apoio de Luís Estênio Correia Lima,
irmão de Íris. Acumulara experiência em oficina mecânica, sucataria e
borracharia. Melhor montar uma borracharia, que implicava um investimento
pequeno, embora reclamasse muito trabalho.
Chegou a trabalhar 14, 15 horas por dia, nunca menos de 12 horas para
garantir o sustento da família. Seis filhos: Maria das Graças, jornalista,
atualmente professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado
da Bahia (Uneb); Agliberto, fotógrafo do jornal “O Estado de S. Paulo”;
Maria Lúcia, fotógrafa, jornalista, colaboradora da “Folha de S. Paulo”;
Raimundo, jornalista, hoje editor de “O Liberal”, de Belém; José Jorge,
comerciante em Salvador, e Edson, engenheiro agrônomo, trabalhando no
Instituto Anísio Teixeira, também em Salvador.
Democracia, respeito à mulher, ou fruto das virtudes guerreiras de dona
Íris, todos levam, no sobrenome, o Correia Lima, dela, e o Souza, dele.
Os Correia Lima de Souza tiveram que buscar régua e compasso em São Paulo.
A vida relativamente folgada que levavam no interior da Bahia, o pequeno
patrimônio que construíram eram coisas do passado. Perderam tudo. O golpe
militar levara de roldão. Mário recebeu o aviso de que devia fugir sem
perda de tempo ainda no dia 31 de março de 1964. Dado pelo adolescente
Ari da Mata, irmão da ex-prefeita Lídice da Mata, que...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros, de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento e de Marighella, o inimigo
número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela)
emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)
|