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F – Lembranças do Mar Cinzento (VII)
Publicado em A TARDE em 21/09/2001
Emiliano José
O leitor que acompanha esta série deve ser alertado para um erro de digitação
ocorrido no último capítulo. Quando se fala, no oitavo parágrafo, na eleição
de Péricles de Souza para presidente do Centro Acadêmico São Tomás de
Aquino, do curso de História da Universidade Católica, o ano é 1966, dois
anos após o golpe, e não 1996. É muito possível que isso tenha sido percebido
por quem estiver mais atento às datas. Afinal, fala-se que ele passara
no vestibular em 1965 e que depois fora eleito para o centro acadêmico,
mas não custa esclarecer.
Como se dizia, Péricles havia se afastado do que a esquerda chama de frente
de massas. A organização – Ação Popular (AP) – havia decidido que era
melhor que ele se dedicasse ao trabalho clandestino. Afasta-se do trabalho
universitário em 1968. Dedica-se, então, ao trabalho de organização, mais
voltado para as ações não-legais do que as legais. Naturalmente, não deixa
a vida legal. Continua a trabalhar, a conviver normalmente na sociedade,
sempre discreto.
Em 1967, um assessor da Secretaria de Trabalho (Setrabes) do governo Luiz
Viana, Istvan Jancsó, orientou a realização de um concurso público para
a contratação de sociólogos, historiadores e profissionais de várias outras
áreas.. Formou-se ali, na Setrabes, no pós-concurso, um grupo de esquerda,
no interior do qual estavam, entre outros, Joviniano Neto, Solange Santana,
Anete Brito e o próprio Péricles, que passara no concurso. De 1967 até
maio de 1968, Péricles permaneceu como técnico de governo, em meio a uma
equipe que ele considera de excelente qualidade e de boas posições políticas.
Em abril de 1968, Péricles recebe a determinação de deslocar-se para a
R-9. A AP dividia-se em regiões, que ela numerava. A R-9 correspondia
ao Norte, correspondendo ao Estado do Pará e ao Bico do Papagaio, área
que incluía também parte do Estado de Goiás, hoje Tocantins, e um pedaço
do Maranhão. A tarefa dele era reorganizar a AP na região. A direção da
organização sabia que havia companheiros trabalhando naqueles Estados,
mas de modo assistemático e há mais de ano sem qualquer contato com o
núcleo dirigente central. Péricles deveria procurar os militantes e iniciar
a reestruturação política e orgânica da AP.
Deveria primeiro ficar em Belém e, dado os primeiros passos no trabalho
de reorganização, seguir para a região do Bico do Papagaio. Chegou a Belém
no dia 1º de maio. É importante lembrar que a AP naquele momento já estava
bastante tomada pela visão teórica maoísta, pois a organização havia estreitado
os laços com o Partido Comunista Chinês (PCCH).
Péricles levava um extenso material impresso de origem chinesa na bagagem.
Chegado ao hotel, percebeu uma intensa movimentação. Soube que naquele
dia realizava-se a Travessia da Baía de Guajará – uma competição de natação
que se realizava todo ano em Belém. O saguão do hotel onde se hospedaria
estava repleto de atletas e de membros das diversas delegações, já preparando-se
para as viagens de retorno aos seus locais de origem. Péricles colocou
sua mala grande no chão e começou a fazer a ficha no hotel. Quando deu
por si, não encontrou mais sua bagagem.
Na confusão da saída, a bagagem dele foi com as demais. Quando, no aeroporto,
as delegações embarcaram, a mala ficou lá, solitária, no meio do saguão.
Depois de algum tempo, os funcionários do aeroporto perceberam, pegaram-na,
e descobriram o conteúdo. Além dos objetos pessoais e dos documentos de
identidade, estavam lá o Livro Vermelho de Mao Tsé Tung, variados documentos
sobre a guerra popular prolongada desenvolvida na China. Péricles não
teve outra saída: agora tratava-se de tornar-se um cidadão clandestino,
com documentos falsos e tudo o mais que a clandestinidade exigia. A Aeronáutica
passava agora a procurá-lo, com a ajuda dos demais órgãos de segurança.
Assumiu outro nome. Tornou-se Carlos David de Souza. E não ficou mais
em Belém, conforme o planejado anteriormente. Seguiu imediatamente para
a região do Bico do Papagaio, mais precisamente para o povoado de Milesetecenta
– assim mesmo, como escrito -, localidade que correspondia ao quilômetro
1.700 da Belém-Brasília, situada no município de Imperatriz, no Maranhão.
Durante dois anos, dirigiu dali a AP na região. Era o principal dirigente
da organização naquela área, considerada prioritária pela organização.
Como várias outras organizações que adotavam a perspectiva da luta armada,
a AP também compreendera que o Bico do Papagaio era um local de grande
potencial conflitivo pelas disputas entre grileiros e camponeses. E por
isso...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de “Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento” e de “Marighella, o
inimigo número um da ditadura militar” (ambos da Editora Casa Amarela)
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