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Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (X)
Publicado em A TARDE em
18/12/2001

Emiliano José

Ari da Mata chegou esbaforido na sua bicicleta. Vinha da parte de Aurélio da Mata, companheiro de militância de Mário Alves de Souza Dantas no PCB. Aurélio da Matta é pai da ex-prefeita e deputada Lídice da Matta e do próprio Ari. Era 1º de abril de 1964.

Ari, então com 12 anos, não sabia bem o que acontecia. Só sentia estar cumprindo uma missão importante. Havia um céu de tempestade. As águas de março não tinham cessado no tabuleiro de Alagoinhas, então fértil produtor de laranja. O vento assobiava e varria as ruas. As gotas frias e grossas do começo de chuva faziam subir fumaça do chão quente.

Mário estava atrás do balcão da loja de autopeças, na Rua Dr. João Dantas, em Alagoinhas. Ari vai logo dando o recado: – Meu pai disse para o senhor fugir. Que é melhor o senhor sair da cidade o mais rápido possível.

Mário não se apavorou. Olhou calmamente para o menino. Já ouvira as notícias pelas emissoras de rádio. O golpe militar era uma realidade. Colocou algum dinheiro no bolso, orientou os poucos empregados e perguntou a Ari pelo pai.

– Ele está em casa. Não foi trabalhar, não.

– Está bem. O recado está dado. Diga a ele que vou lá daqui a pouco.

Passou na casa de Aurélio, conversaram. Mário, dirigente municipal do partido. Aurélio, ligado à direção estadual, um nível acima. Alagoinhas tinha um dos diretórios mais importantes do PCB. Pelo trabalho junto aos ferroviários e aos camponeses. O trabalho de Mário era mais aberto, o de Aurélio, mais discreto. Mário não podia ser preso – esta era a orientação do PCB.

Os dois sabiam o significado daquela situação. O partido não acreditava muito no golpe militar, mas chegava a discutir a possibilidade. Pelo visto, não foi possível resistir. Provavelmente, o esquema militar do governo de Jango não conseguira se articular a tempo. Ganha um rádio de pilha de Aurélio, despede-se. Busca refúgio num dos dois sítios que possuía na Estrada Velha de Inhambupe e, de lá, orienta a fuga de militantes, arruma dinheiro para alguns deles. Até que um funcionário da casa de autopeças chega com a notícia da chegada do Exército.

Mário nunca mais colocou os pés na casa da Rua Barão de Cotegipe, 22, onde morava com a mulher, Íris, e os seis filhos. Nem na casa de autopeças. Nem na borracharia da Ladeira do Alto do Capinã, nem na Sucataria Lunik 9, situada na Rua 24 de Maio. Nem nos dois sítios.

Fugir era a única saída. Iria deixar para trás um pequeno mas respeitável patrimônio, fruto de muito trabalho. Patrimônio que lhe permitia viver relativamente bem com seus filhos. Agora, iria dar um mergulho no desconhecido.

Vai para Inhambupe, onde se esconde por algumas semanas na região do Barreiro, onde sua família tinha uma propriedade rural. Suas sobrinhas, Teresa Dantas e Jozenice Dantas, é que o ajudam financeiramente naquele momento. Viviam em Inhambupe, município próximo de Alagoinhas, situado a pouco mais de 100 quilômetros de Salvador. Ficou na roça dos parentes por alguns dias. E viveu um momento de particular tensão. Foi quando recebeu a notícia de que o Exército estava em Inhambupe. O Exército e a polícia de Alagoinhas. Sua mente virou um turbilhão. Pensava menos nele, mais nos seis filhos e na mulher, Íris, na sogra, uma cearense rija e disposta. Imaginou a invasão de sua casa em Alagoinhas. Íris havia sido orientada por ele para queimar todos os livros considerados comprometedores, os pacotes de impressos com propaganda dos candidatos do PCB, as fotos, tudo que pudesse incriminá-lo.

Logo que soube da presença do Exército, saiu da casa da roça onde estava. Iria para São Paulo, de qualquer jeito. Carregava rapadura, castanha de caju, algumas laranjas e uma lanterna. Vestia as roupas de um dos trabalhadores da propriedade de seus parentes, um chapéu de palha na cabeça. Andou alguns quilômetros de estrada secundária, buscando a saída leste da cidade. A intimidade com a região, que conhecia de cor e salteado, facilitou a caminhada. Por aquelas picadas, andara até os 19 anos, quando foi dar com os costados em Feira de Santana.

Na noite da fuga, no entanto, quase é surpreendido pelas tropas do Exército. Quando ouviu o barulho dos motores dos jipes, imobilizou-se no meio das moitas. Era final de dia. Via a movimentação. Os veículos sendo escondidos, o cerco sendo montado. A escuridão da noite o surpreende. Não vê mais nada. Fica horas imobilizado, a respiração contida. Até que um soldado acende um cigarro, e ele divisa o que há em torno, e para onde não podia ir. Suspenderam o cerco, e ele continuou sua caminhada...

Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela)
emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
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Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
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Capítulo 19
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Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
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Capítulo 14
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Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
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Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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