Home
Quem é Emiliano
Mandato
Livros
Imagens
Artigos
Notícias
Boletins
Na Imprensa
Galeria F
Contato

Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (XI)
Publicado em A Tarde em
17/01/2002

Emiliano José

O soldado acendeu o cigarro, rompendo a escuridão. Mário Alves de Souza Dantas pôde, naqueles segundos, orientar-se para continuar sua fuga. Antes mesmo que se esgueirasse por entre as moitas, viu a movimentação da tropa levantando o cerco. Melhor esperar.

Quando tudo silenciou, botou o pé na estrada. De carona em carona, de caminhão em caminhão, chegou a São Paulo. Antes, no entanto, desvencilhou-se de todos os seus documentos. Fosse abordado, não seria mais Mário Alves de Souza Dantas. Só Mário Alves de Souza. Tanto que logo chegado a São Paulo, tirou os documentos sem o Dantas.

O caminhão sacolejava. Às vezes, cochilava, o cansaço tomando conta do corpo. Acordava, mergulhava em recordações. Doces recordações. Das traquinagens na Fazenda Barreiro, em Inhambupe, onde nascera, no já distante ano de 1918. Aos 19 anos, vai para Salvador e logo depois para Feira de Santana, onde então entra em contato com o PCB, que o marcaria para o resto da vida.

Em 1947, volta para Salvador. Já militante do PCB, trabalha ao lado de figuras importantes do partido, como Aristeu Nogueira e Almir Matos. Integra-se aos esforços de viabilização cotidiana do jornal “O Momento”, cuja redação ficava na Ladeira de São Bento, centro da cidade. Era o tesoureiro. A experiência de “O Momento” foi bem-sucedida. Único jornal do PCB auto-sustentável e que chegava a dar lucro.

Mas ninguém imagine que vida de comunista naqueles tempos era fácil. Afinal, tratava-se praticamente da única força de esquerda no País. Ao menos se pensamos em força organizada e de expressão entre os trabalhadores. E isso em tempos de Guerra Fria, a União Soviética tendo saído fortalecida da II Guerra Mundial e os EUA, ontem como hoje, desdobrando-se para dominar a América Latina e insuflando o espírito anticomunista.

Como “O Momento” era um jornal que incomodava os poderosos da Bahia, foi empastelado. Chegaram assim de repente e não deixaram pedra sobre pedra. Estavam todos trabalhando na redação naquele início de noite, 22 de maio de 1947. Sob a mira de metralhadoras, foram imobilizados. Entre perplexos, indignados e impotentes, puderam ver os soldados do Exército, sob o comando de oficiais truculentos, destruírem tudo – móveis, máquinas de escrever e impressoras. E não foi a única fez que “O Momento” foi empastelado.

A segunda, seis anos depois, 31/7/1953, foi executada sob o comando do então capitão Durval Carneiro, esta já com ares de legalidade, com assistência da promotoria pública e que resultou em inquérito. Mas quebraram tudo novamente. Quem me contou isso foi a professora Sônia Serra, da Faculdade de Comunicação da Ufba, autora de uma dissertação sobre “O Momento”.

Mário, perseverante militante, recebe a determinação do partido de ser o gerente da Livraria Popular, na Ladeira da Praça. Era uma livraria administrada pelo PCB. Mário era, assim, um espécie de coringa do PCB, o chamado pau para toda obra, que não recusava tarefa. O partido tinha um serviço de alto-falante na Feira de Água de Meninos, quase uma rádio comunitária. Era um poderoso instrumento de agitação e propaganda, de difusão das idéias do PCB. Mário era o radialista.

Gostou tanto da nova atribuição, que buscou nela uma forma de ganhar a vida. Com um automóvel equipado com serviço de som, vendia serviços publicitários – se se pode chamar assim – para empresas. Divulgava eventos e produtos. E, de lambuja, trabalhava para o partido.

O PCB, quando lhe pedia para divulgar alguma manifestação, prometia pagar pelo serviço. Luís Contreiras, dirigente do PCB à época e até hoje no PPS, seguidor em linha direta do velho partido, garante que o pagamento nunca era feito. Mário, no entanto, como bom militante, fazia o trabalho do partido com imensa satisfação.

O caminhão demora para chegar a São Paulo. A recordação dos tempos passados invade sua alma, com doçura. Especialmente quando se lembra de Iris Maria. Conheceu-a nas lides do partido. Irmã de Ana Montenegro, dedicada e competente militante do PCB, ela o encanta à primeira vista. Casa-se em 1949.

Como tantos outros militantes, torna-se íntimo das dependências da Secretaria de Segurança Pública, na Praça da Piedade, e do Forte de Santo Antônio, no Centro Histórico. Volta e meia era preso. O governo do general Eurico Gaspar Dutra...

Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela).
emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
Quem é Emiliano l Mandato l Livros l Imagens l Artigos l Notícias l Contato
Assine nosso livro de visitas
Copyright © 2000-2003 Emiliano José - Todos os direitos reservados