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Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (XII)
Publicado em A TARDE em
01/02/2002

Emiliano José

O governo do general Eurico Gaspar Dutra foi marcadamente anticomunista. No jogo brutal da Guerra Fria, que se inicia logo depois da 2ª Guerra Mundial, os militares brasileiros tomaram partido ao lado dos EUA, e os comunistas tornaram-se, para eles, inimigos mortais. Apesar de ser um governo eleito, pós-ditadura de Vargas, foi extremamente repressivo, violento, particularmente com os dirigentes e militantes do PCB.

Mário Alves de Souza Dantas irá amargar algumas prisões, sempre rápidas, antes de 1964. O partido viveu diversas fases na sua relação com o poder entre 1945 e 1964, e a mais livre foi a do período Kubitscheck. Nos arquivos da Secretaria de Segurança, Mário figurava como “frio e calculista”. Nunca se enervava, esboçava um sorriso diante de algumas perguntas, óbvias demais, simplistas em demasia, abusivas para sua inteligência.

Iris, sua mulher, nunca esquece de quando policiais invadiram sua casa no bairro da Lapinha. Levaram o álbum de casamento e todas as fotos da família penduradas nas paredes. As recordações fotográficas dos Souza Dantas foram engrossar os arquivos da Secretaria de Segurança. Tanta a perseguição, que o PCB resolve deslocar Mário para Alagoinhas.

Além de suas atividades como borracheiro e mecânico em Alagoinhas, torna-se o principal responsável por um programa diário no Serviço de Alto-Falante A Voz da Liberdade, que atingia toda a cidade. Além de cumprir as suas tarefas de organizador, era, ainda, uma espécie de propagandista do partido. Até que o golpe chega, e ele segue viagem para São Paulo, como já se contou.

Mário não chegou a ser figura de proa no partido, embora chegasse a dirigente municipal em Alagoinhas. Foi, no entanto, lembrado por muitos que o conheceram. E a lembrança de maior destaque foi a de Antônio Torres, autor, entre tantos livros, de Balada da Infância Perdida.

“Mundo velho surpreendente: o borracheiro era do Partido Comunista” - dirá Torres, exatamente no Balada da Infância Perdida. E foi Mário, ele mesmo, o pistolão de Torres para ajudá-lo a sair do interior e alçar vôo para o mundo.

Torres conhecera Mário na borracharia de Alagoinhas, e dele se tornara amigo. Impressionava-o o fato de aquele homem simples ser o que era. Era o borracheiro que lhe passava “aquele jornaleco que vinha do Rio” e que ele lia às escondidas. O jornal era o “Novos Rumos”, do PCB. “De leitura em leitura, de conversa em conversa, vocês foram se entendendo, não foi assim? Ah, se tia Madalena viesse a farejar com quem você estava andando. Ia ser um deus-nos-acuda”. E foi o borracheiro que o levou pelas mãos para conversar com João Falcão, dono do Jornal da Bahia.

– Vim aqui para lhe trazer esse menino. Ele precisa de uma oportunidade no seu jornal. É um rapaz de muito valor. João Falcão atendeu prontamente, para surpresa de Torres, então com 19 anos. “Menino, daí a instantes você iria entrar no jornal pela porta da frente, conduzido pelas mãos do próprio dono. Vá ter tanta sorte assim no inferno”. Nascia, então, o jornalista, e mais tarde surgiria o extraordinário, premiado escritor, ainda pouco reconhecido em sua própria terra.

Mário, depois de suas andanças por São Paulo, volta a se instalar na Bahia e já maduro, filhos criados, deu-se de ermitão, e refugiou-se por um bom número de anos na Ilha de Itaparica, numa casinha, em Aratuba, espécie de sítio à beira da praia.

Pôde, então, reviver seus tempos de Alagoinhas, rememorar sua vida nos sítios onde morou. Criava galinhas e porcos. Nunca perdera o amor pela terra. E gastava o tempo também em Tairu, praia vizinha, especialmente no bar de Reginaldo, velho amigo que tivera a alegria de reencontrar no seu período de recolhimento.

No refúgio da ilha, nos seus momentos de reflexão, que os tinha à vontade, concluía que a vida lhe trouxera fortuna. Não a da burra, do dinheiro fácil. Mas a outra, a que assegura ao homem a certeza da espinha ereta, do coração tranqüilo.

Não fora uma existência pobre, rotineira. Ao contrário, contribuíra sempre para a luta por um país melhor, mais justo, mais humano. E quando pensava assim, sorria, sereno, como até hoje.

Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros, de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento, de Lamarca, o Capitão da Guerrilha, e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela) emiljose@uol.com.br(site: www.emilianojose.com.br)

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
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Capítulo 30
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Capítulo 29
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Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
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Capítulo 26
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Capítulo 25
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Capítulo 24
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Capítulo 23
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Capítulo 22
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Capítulo 21
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Capítulo 20
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Capítulo 19
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Capítulo 18
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Capítulo 17
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Capítulo 16
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Capítulo 15
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Capítulo 14
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Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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