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F - Lembranças do Mar Cinzento (XIII)
Publicado em A TARDE em 27/02/2002
Emiliano José
Houve quem não acreditasse no suicídio. O enterro, com a participação
de uma multidão, era mais do que uma homenagem ao morto, como diria Ruy
Medeiros, advogado e memória viva do município. A cidade fazia o seu protesto.
Chorava, homenageava e protestava. Havia os que achavam que Péricles Gusmão
Régis fora assassinado pela ditadura. Muito cedo, Vitória da Conquista,
encravada no Sudoeste baiano, a 500 quilômetros de Salvador, experimentava
o terror do golpe de 1º de abril de 1964.
Péricles fora interrogado pelo chefe do Inquérito Policial Militar (IPM),
capitão do Exército Antônio Bendochi Alves Filho, no então Quartel da
Polícia Militar, na Avenida Brumado, onde atualmente funciona o 9º Batalhão
da Polícia Militar. O interrogatório durou vários dias. Começara no dia
6 de maio de 1964, quando Péricles fora preso.
O mais duro, longo e tumultuado ocorreu entre as 7 horas do dia 11 e as
2 horas do dia 12. Ao final desse interrogatório, Péricles foi levado
à cela onde estavam outros companheiros presos. A ele se pediu que arrumasse
rapidamente seus pertences. Foi colocado numa solitária. No dia 12, pela
manhã, recebeu a visita de seu primo Hermann Gusmão Prattes, que atendia
a pedido da mulher de Péricles, Maria Portela Gusmão, que ficara impressionada
com seu estado quando lhe fora levar o café da manhã no quartel.
“Sua situação física e moral era realmente ruim. A nossa presença junto
a Péricles naquele dia foi escoltada por dois oficiais. Não pudemos conversar
quase nada. O ambiente no quartel era horripilante. Ele estava em prisão
solitária. Nossa visita durou poucos minutos, por imposição dos militares”.
Pouco tempo depois, no mesmo dia, foi encontrado morto, com vários ferimentos.
“Um dos presos na época relata que ouviu de um companheiro de cela a informação
de que havia ocorrido luta corporal entre Péricles Gusmão Régis e o capitão
Bendochi Alves Filho”, diz Ruy Medeiros.
Ele acrescenta: “O primeiro parente a ver o corpo nu de Péricles estranhou
a grande quantidade de hematomas e de cortes e ficou com a impressão de
que Péricles tenha sido torturado, amarrado com fios metálicos finos que
o cortaram quando tentara desvencilhar-se. Os cortes teriam sido provocados
pelo fio, não pela lâmina de barbear encontrada na cela”. O parente a
que se refere Ruy Medeiros era Hermann Gusmão Prattes, que, uma hora depois
da visita que lhe fizera, foi apanhado em casa por uma viatura do Exército
“com a notícia de sua morte e que eu deveria assistir o seu levantamento
cadavérico”.
Prattes, em depoimento por escrito datado de 10 de setembro de 1995, ressalta
que, apesar de Vitória da Conquista contar com médicos-legistas, os militares
pediram ao oftalmologista Hugo de Castro Lima, companheiro de prisão de
Péricles, que fizesse o levantamento cadavérico. Atestou-se suicídio.
O atestado de Castro Lima tinha valor pelo respeito de que desfrutava.
Por isso também há os que acreditam que Péricles se matou.
Prattes, no entanto, que presenciou tudo, disse que não teve condições
psicológicas e emocionais “para perguntar as causas dos hematomas, ferimentos
e outros indícios que mostrava em seu corpo nu”. Ruy Medeiros foi advogado
da família de Péricles Gusmão junto à Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos,
instituída pelo governo federal. A comissão reconheceu a responsabilidade
do Estado na morte de Gusmão. A dúvida sobre o suicídio permaneceu.
E quem era este homem? Nascera em 5/12/1925. Envolveu-se muito cedo com
a luta política e era defensor das idéias socialistas. Eleito vereador
pelo Movimento Trabalhista Renovador (MTR) em 1962, torna-se líder do
prefeito Pedral Sampaio, eleito pela coligação PSD/MTR, oposição ao esquema
dominante em Conquista. Freqüentava regularmente a Loja Maçônica Cavaleiros
do Oriente, onde defendia seus pontos de vista, entre os quais o voto
do analfabeto, a reforma agrária e a redistribuição da renda. Suas posições
tornavam-se mais irritantes ainda para a classe dominante local porque
ele não era uma pessoa pobre.
Tudo isso começou com um ônibus estacionado na Praça Rio Branco, que podia
ser apropriadamente chamado de ônibus da morte ou do terror, como se queira,
sede do golpe militar naquele momento, gerenciado pelo capitão do Exército,
Antônio Bendochi Alves Filho. As pessoas delatadas eram primeiramente
conduzidas ao coletivo, fichadas, e depois seguiam no próprio ônibus para
o Quartel da Polícia Militar, sempre sob as ordens iradas do capitão Bendochi,
senhor de baraço e cutelo de Vitória da Conquista naquele momento...
Emiliano José
é jornalista e vereador (PT/BA).
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