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F - Lembranças do Mar Cinzento (XIX)
Publicado em A TARDE em 27/06/2002
Emiliano José
Do Exército brasileiro, refletia Nudd David de Castro, aqueles presos
conheciam pouco. Como contávamos no capítulo anterior, Nudd havia chegado
havia pouco ao 19º Batalhão de Caçadores, no Cabula, em Salvador. Estava
intrigado não com a prisão que, na hipótese do golpe militar, era esperada.
Não atinava era com a acusação. Parecia pouco imaginar que a ditadura
o condenaria apenas pelo fato de ser comunista, que era o que mais os
oficiais repetiam. Alguma outra razão deveria explicar a sua presença
ali e também a dos demais companheiros. Até onde iriam os militares naquela
insanidade?
Nudd sabia que os militares brasileiros estavam sob a hegemonia da escola
norte-americana. Não só indiretamente, mas também pelo fato de muitos
oficiais terem cursado a Academia Militar de West Point, nos EUA. Estava
consciente de que muitos acreditavam com boa dose de sinceridade que “o
que era bom para os EUA era bom para o Brasil”. Sabia, ainda, que instituições
violentas, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), tinham a bênção
do Exército. Mas ainda assim não se conformava com o fato de estar preso
e não haver nenhuma acusação mais consistente além daquele genérico e,
para os militares, maldito nome de comunista.
Ele próprio, no entanto, perguntava-se e respondia. Afinal, o Brasil,
com seu grande acervo de recursos naturais, sua posição estratégica na
América Latina, a promessa de um mercado em ascensão, transformara-se
numa jóia rara para os EUA. Assim, era importante extirpar os comunistas,
seus seguidores e simpatizantes. Não era assim apenas um genérico nome.
Ser comunista era um perigo no Brasil. Estava demonstrado. Os dias iam
passando e ele ia compreendendo melhor as razões.
Na prisão, as notícias eram trazidas pelos novos companheiros que chegavam.
As condições não eram as melhores. Os primeiros ainda tiveram camas, mas
logo, com o número crescendo, elas foram cedidas aos mais velhos. O chão
era a cama da maioria. O banho era no quarto comum, o sabonete era compartilhado
por todos. Toalha só para alguns que conseguiram pegar algumas coisas
antes de serem arrastados de suas residências.
A alimentação era precária. De manhã, um copo de café com leite com um
pãozinho sem manteiga. Almoço e jantar sempre a mesma coisa: arroz, feijão
e uma espécie de dobradinha mergulhada na gordura ou carne com osso, também
gordurenta. Passavam a maior parte do tempo deitados – alguns no chão,
outros na cama. Ou conversando em pequenos grupos. O preso sempre luta
para enfrentar o terror do tempo. Na prisão parece que o tempo não passa.
A rotina esmaga, o tédio chega. De repente, boas notícias: o comandante
do quartel autorizara a visita de familiares e banho de sol todos os dias.
Era muito para quem vivia isolado dentro da cela. Uma nova rotina se estabelecia,
menos tediosa.
Nudd muitas vezes contemplava o pátio do quartel através da janela gradeada.
Um dia foi surpreendido pela chegada de um fusca com passageiros para
ele muito especiais: dele desceram o seu ex-colega de ginásio, e que virá
a ser prefeito de Vitória da Conquista, Raul Ferraz, o prefeito cassado
de Conquista, Pedral Sampaio, e seu pai, Everardo Públio de Castro, sobre
quem já falamos em capítulos anteriores. Com o coração aos pulos, pediu
ao soldado de plantão que chamasse o comandante do quartel. Ao comandante
solicitou que o pai fosse colocado no mesmo quarto, e foi atendido. Os
presos já haviam sido colocados em compartimentos diferentes, em grupos
de quatro ou cinco.
Não demorou muito para que Nudd fosse chamado, no quartel mesmo, para
responder ao Inquérito Policial Militar, terror daqueles tempos. Dois
soldados armados levaram-no a uma sala onde um oficial, atrás de uma grande
mesa escura, o esperava. Ao lado um soldado, à máquina de escrever, exercia
a função de escrivão. Um ambiente entre lúgubre e solene, que colocava
o preso na defensiva logo de cara. O oficial não o cumprimentou. Olhou-o
de soslaio e mandou que sentasse na cadeira em frente dele. A luz de dois
holofotes incidiam fortemente sobre o rosto de Nudd.
Depois da identificação, começou a rotina que seria implementada pela
ditadura durante duas décadas: qual a organização subversiva de que fazia
parte, o que pretendia a organização, quem contribua financeiramente,
a relação com Moscou, quem trazia o dinheiro, quem era o chefe. Depois
de algum tempo, irritado com as negativas de Nudd, o oficial abruptamente
retirou a arma do coldre e colocou-a sobre a mesa. Olhou Nudd nos olhos
e disse que não estava ali para brincadeira. “Quero fatos, dados, não
respostas evasivas como o senhor deu até agora”. Nudd perguntava-se: até
onde resistiria àquelas pressões. Não sabia qual era o seu limite...
Emiliano José
é jornalista, vereador do PT em Salvador e ex-preso político entre 1970-1974
e autor, entre outros livros, de Lamarca, o Capitão da Guerrilha, e Marighella,
o inimigo número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela)
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