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F - Lembranças do Mar Cinzento (XV)
Publicado em A TARDE em 05/04/2002
Emiliano José
Dentre os presos em Vitória da Conquista em maio de 1964, como relatávamos
no capítulo anterior, estavam, ainda, Hugo de Castro Lima, médico, que
fora candidato a prefeito pelo PTB em 1962; Ivo Vilaça Freire de Aguiar,
funcionário público; Jackson Fonseca, radiotécnico; João Idelfonso Filho,
dono de um serviço de alto-falante; José Luiz Santa Isabel, bancário;
José Fernandes Pedral Sampaio, prefeito; Juracy Lourenço Neto, comerciário;
Lúcio Flávio Viana Lima, bancário, autor de crônicas nacionalistas; Paulo
Demócrito Caires, estudante; Péricles Gusmão Régis, vereador; Raimundo
Pinto, comerciante; Raul Carlos Andrade Ferraz, advogado, e que mais tarde
será prefeito de Conquista e deputado federal; Reginaldo Santos, bancário,
diretor de “O Combate”, jornal que apoiava Pedral; e Vicente Quadros Silva
Filho, radiotécnico.
Estes foram conduzidos ao ônibus de imediato. Na seqüência, foram presos,
ainda, Everardo Públio de Castro, vereador e secretário de Educação do
governo Pedral; Anfilófio Pedral Sampaio, irmão do prefeito Pedral Sampaio,
funcionário público e suplente de vereador; Camilo de Jesus Lima, poeta,
oficial do Registro de Imóveis de Macarani, onde foi preso, e Flávio Viana
de Jesus, marceneiro e um dos diretores do Sindicato dos Trabalhadores
na Construção Civil.
A maior parte dos presos foi sendo liberada nos primeiros dias. Diferentemente
de Atenor Rodrigues Lima, mais conhecido como Badu, do poeta Camilo de
Jesus Lima, de Flávio Viana de Jesus, de Franklin Ferraz Neto, Hemetério
Alves Pereira, João Idelfonso, Everardo Públio de Castro, Anfilófio Pedral
Sampaio, do prefeito José Fernandes Pedral Sampaio, Paulo Demócrito e
Raul Ferraz, que permaneceram presos e depois foram enviados para Salvador.
Contra estes pesavam as acusações de ora pertencer ao PCB, ora integrar
a Frente de Libertação Nacional ou o Grupo dos Onze de Brizola.
A repressão em Conquista foi ampla. O Sindicato dos Trabalhadores na Construção
Civil foi fechado, a Câmara de Vereadores (a hora da desforra) cassou
o mandato do prefeito Pedral Sampaio e empossou no cargo o vereador Orlando
da Silva Leite, eleito formalmente prefeito em junho, pela mesma Câmara.
Os meios de comunicação desdobravam-se em elogios ao regime de terror
recém-implantado.
Conquista, como município já de relativa importância, contava com uma
atuação organizada da esquerda. Falar em esquerda naquele momento histórico
é dizer da existência e presença do PCB – o velho e respeitado Partidão.
É possível dizer, portanto, que também em Conquista o núcleo pensante
e organizador da esquerda, estrito senso, era o Partidão. Pedral, o prefeito,
não era do Partidão. Era um simpatizante, mas não tinha ligações orgânicas.
Seu irmão, Anfilófio, tinha mais proximidade com os comunistas.
A eleição de 1962 opôs, de um lado, a UDN autoritária e sectária de Gerson
Sales e Edvaldo Flores, e uma frente muito ampla de oposição, Pedral como
candidato, que saiu vitoriosa. Nessa frente estavam o PSD, ao qual Pedral
pertencia, o Movimento Trabalhista Renovador, brizolistas, dirigentes
e militantes do PCB, brizolistas e até ex-integralistas, seguindo o registro
de Ruy Medeiros. Todos unidos contra a UDN. A esquerda, vista de modo
amplo, era composta por militantes e simpatizantes do PCB, por integrantes
do MTR e pelos brizolistas organizados no chamado Grupo dos Onze.
Dos que foram enviados a Salvador, pode-se anotar que Flávio Viana de
Jesus era, desde os anos 50, um dos mais dedicados militantes do PCB,
organizador do Sindicato da Construção Civil; da mesma maneira, Hemetério
Alves Pereira, que era o correspondente do jornal “Novos Rumos”, ligado
ao partido; ou como Franklin Ferraz Neto, combativo advogado, brilhante
orador, e também de notórias ligações com o Partidão. João Idelfonso também
era do PCB, Anfilófio Pedral Sampaio era simpatizante assim como Camilo
de Jesus Lima. E Everardo Públio de Castro era o mais conhecido comunista
da cidade. Com isso se quer afirmar que a repressão tinha um objetivo
central que era desarticular o PCB no município, além de facilitar a vindita
paroquial.
Anote-se, ainda, que ao final do Inquérito Policial-Militar, foram denunciados
apenas Anfilófio Pedral Sampaio, Paulo Demócrito e Everardo Públio de
Castro. E condenado, apenas, Castro. E por sua vinculação com o Partidão.
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento, de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha, e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar
(ambos da Editora Casa Amarela). Atualmente é vereador em Salvador, pelo
PT. emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)
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