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F – Lembranças do Mar Cinzento (XVI)
Publicado em A TARDE em 04/05/2002
Emiliano José
O professor Everardo Públio de Castro era vereador quando foi preso. Vereador
e secretário de Educação do prefeito Pedral Sampaio, em Vitória da Conquista.
Estava entre os muitos presos de maio de 1964, o maio do capitão do Exército
Antônio Bendochi Alves Filho, que desembarcou na cidade para dirigir a
repressão, estimulado por decisão da Câmara Municipal, que solicitou os
préstimos do Exército, e pela delação dos que haviam sido derrotados nas
eleições de 1962.
O professor Everardo era desses homens raros. Pela integridade, correção,
caráter. Comunista à antiga, homem de partido. E sem a exata dimensão
do que significava aquele golpe militar. Não é que não o entendesse politicamente.
Sabia que era uma movimentação da direita. Compreendera isso desde muito
cedo. Não tinha, no entanto, a devida compreensão do que era a repressão,
quais as manhas e artimanhas e a violência que viriam junto com o golpe.
Por isso, conversou com o capitão Bendochi sem rodeios.
Bendochi queria saber sobre sua vida. Ele contou. Que teria a esconder?
Era filho de um carpinteiro, Armindo Públio de Castro, da dona de casa
Adília de Castro, nascido em Caetité, lá pelos idos de 1912. Fora professor
no distrito de Boa Vista do Jacaraci, atualmente a cidade de Mortugaba.
Professor, que se o diga, era algo de muito respeito em qualquer lugar
do País. Em 21 de junho de 1934, casou-se com Emérita Ladeia David e,
em março de 1939, foi transferido para Vitória da Conquista. Fora professor
a vida inteira.
Bendochi, então, depois de ouvir tudo isso, perguntou como eram as suas
aulas. Que teria a esconder? – pensou o professor Everardo outra vez.
Tudo o que dissera, já estava dito. Não havia mais como apagar. Explicou
tudinho.
O Brasil fora uma nação erguida à base de muita exploração e sacrifício
de seu povo. A escravidão, um crime. As lutas dos quilombos, heróicas
e justas. Desdobrou-se em explicar a Revolução Praieira, na qual o povo
ensaiava um novo projeto. Falou da Revolução dos Alfaiates. Da Revolta
dos Malês, insurreições baianas. Viera a República, mas não a verdadeira
libertação do povo e dos escravos. Estes, largados ao léu no meio da sociedade
de assalariados que começava, iam comer o pão que o diabo amassou durante
muito tempo – os afro-descendentes sofriam até hoje as conseqüências.
Entusiasmou-se quando falou da Coluna Prestes, serpenteando os sertões
do Brasil, driblando as forças repressivas, e escapando, dando um exemplo
de luta e de ousadia aos brasileiros. E empolgou-se mais ainda quando
“falou do Prestes comunista, de sua prisão, sua volta, senador, a fugaz
vida legal do Partido Comunista, a cassação, a continuidade da luta. “É,
devo dizer, diante dessa violência, nós pichamos quase todos os muros
de Vitória da Conquista para protestar”.
Nudd David de Castro, filho de Everardo, e que também será preso em Salvador,
lembra-se das reuniões em sua casa, ele menino, os vários camaradas em
torno da mesa da sala. Como recorda-se, também, de ver o pai, brocha nas
mãos, pichando os muros de Conquista, saudando o aniversário de Luís Carlos
Prestes. Everardo deixava o filho acompanhá-lo, mas insistia que, caso
a polícia chegasse, devia correr.
Olhava para Bendochi, via-o atento. Disse que era um dos articuladores
do PC em Conquista. Considerava isso um direito. Houve momentos em que
o professor Everardo acreditou que Bendochi estava sinceramente interessado,
quase entusiasmado com o relato que fazia de suas aulas, de sua visão
sobre a história do Brasil. Via-se na sala de aula, quase falando para
um aluno. Em 1961, prosseguiu, integrou a Frente de Libertação Nacional,
sendo o representante do Diretório Municipal de Conquista. Era então professor
de Geografia e História no Ginásio de Conquista. “Já ensinei a várias
gerações”, disse.
O primeiro mandato foi obtido em 1958, quando elegeu-se vereador. Apaixonado
orador, entusiasmava as praças de Conquista quando falava. Em 1962 tornou-se
presidente da Câmara de Vereadores. Terminou o seu relato. Um amplo material
para o Inquérito Policial-Militar, que era o que Bendochi queria. Cassado,
preso, condenado. Ficou preso um ano e três meses em Salvador. Somente
em 1984 recuperou seus direitos políticos, voltando às salas de aula.
Aposentou-se compulsoriamente, com mais de 35 anos de magistério. Morreu
em 28 de janeiro de 1996, com 84 anos. Foi uma vida que deixou marcas
de coragem, honradez e dignidade que o povo de Conquista não esquece.
Será sempre lembrado por sua generosidade, seu amor pelo povo. Da ditadura,
só lembraremos da violência, do terror e repetiremos sempre: Ditadura
nunca mais!
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha, de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos
da Editora Casa Amarela). Atualmente, vereador em Salvador, pelo PT.
emiljose@uol.com.br (site: www.emilianojose.com.br)
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