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F - Lembranças do Mar Cinzento (XVII)
Publicado em A TARDE em 29/05/2002
Emiliano José
Desde janeiro de 1964 que a Refinaria Landulfo Alves, da Petrobras, em
Salvador, vivia nervosamente. Pelo menos esse era o sentimento de Nudd
David de Castro, funcionário da empresa. Dele, falamos antes: filho de
Everardo Públio de Castro, situava-se entre os que podiam ser denominados
de simpatizantes do velho Partidão – o PCB. Os petroleiros sentiam no
ar toda a agitação contra a Petrobras e contra o governo do presidente
João Goulart. E era discutida permanentemente a necessidade de reagir,
defender a Petrobras e lutar para evitar o golpe.
Nudd lembra-se, apesar dos quase quarenta anos passados, de várias reuniões
de que participou no Hotel Mataripe, à noite. Dos informes dos companheiros
mais experientes, das discussões com base nas notícias políticas dos jornais,
dos comentários em torno das colunas de Márcio Moreira Alves e Carlos
Heitor Cony, ambos do Correio da manhã. Havia o espírito de aumentar a
mobilização, aumentar a consciência dos trabalhadores quanto aos perigos
de aventuras golpistas da direita.
Em fevereiro, tiveram notícias de que as pressões da direita sobre Goulart
estavam aumentando. Os militares, sabia-se, usavam como argumento básico
a presença e a força dos comunistas – propositada e conscientemente superestimada
pelos reacionários e pela imprensa aliada aos golpistas. O comício de
13 de março, realizado na Praça da Central do Brasil no Rio de Janeiro,
que contou com a presença de cerca de 200 mil pessoas, acirrou ainda mais
os ânimos. E veio o golpe.
Nudd e vários de seus companheiros, naquele 1º de abril de 1964, estavam
no Clube da Vila de Mataripe, acompanhando nervosamente as notícias sobre
as movimentações militares que indicavam que o golpe estava em marcha,
quando alguém entrou correndo e avisou que a refinaria estava sendo tomada
por soldados do Exército. Olharam pelas janelas e viram os soldados arrastando-se
que nem cobra pelo chão, fuzis nos braços, cortando na seqüência o arame
farpado da cerca que envolvia a refinaria. A Refinaria Landulfo Alves
era, então, a maior do Brasil.
A tomada, dizia-se, era total: de norte a sul, de leste a oeste. Uma operação
militar de grande envergadura. Bom, quem sabe, para o ego de Manelão,
como era conhecido o general Manoel Mendes Pereira, comandante da VI Região
Militar. O objetivo de cerco tão amplo era, primeiramente, encontrar e
desarmar as bombas-relógio que estariam localizadas em toda a trajetória
da cerca que envolvia as unidades de refino e produção de derivados de
petróleo. Tais bombas teriam sido colocadas pelo ex-estudante de engenharia
Milton de Carvalho Silva – Miltinho –, funcionário da refinaria. A informação
era falsa, mas vai custar muito caro a Miltinho, cuja história já foi
contada no livro Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (Editora Casa
Amarela).
Nudd lembra-se de ter sido tomado por um sentimento de profunda tristeza
enquanto via os soldados arrastando-se lentamente. Tristeza e estupefação.
Tomado pela sensação angustiante de uma derrota anunciada. Anunciada,
mas de difícil absorção. Ainda teve tempo e ânimo para despedir-se de
seus companheiros. Abraçou Flordivaldo Maciel Dutra, Milton da Costa Oliveira,
Rubens Dias do Nascimento, Vivaldo Fernandes das Neves, Miltinho (que
estava na refinaria naquele momento), Edson Teles, Marcos Gorender, Jarbas
Santana, dentre os que a memória ainda alcança.
Entrou no fusca e foi para o quarto onde morava, no Hotel Mataripe. Recebera
instruções de seus companheiros para limpar o quarto de documentos de
reuniões, recolher livros e quaisquer vestígios que pudessem comprometê-lo
ou a qualquer dos colegas de trabalho. Perceberam que agora todo cuidado
era pouco. A ditadura era uma realidade, evidenciada de modo particularmente
brutal para os petroleiros.
Feita a limpeza, colocou o fusca em movimento e tomou o rumo da guarita
para pegar a estrada para Salvador. Um militar o barrou. Pediu a carteira
de identidade de Nudd. Por eternos poucos minutos, Nudd viu o soldado
consultar uma comprida lista de nomes para ver se o dele figurava ali.
Nudd, olhando de soslaio, no meio de centenas, percebeu o seu. Estava
frito. E viu também o de Moacir Pinheiro, superintendente do Terminal
Marítimo de Madre de Deus – Temadre. Preparou-se para receber voz de prisão.
Surpreendeu-se quando o soldado devolveu-lhe a identidade e disse-lhe
que podia seguir em frente. Provavelmente não olhara a lista com atenção.
Quem está na chuva é para se molhar. Sentiu-se na obrigação política e
moral de avisar Moacir Pinheiro da inclusão de seu nome na lista dos procurados.
Foi até o Temadre, a cerca de 40 quilômetros de Mataripe. Avisado, Moacir
vestiu-se de médico, tomou a ambulância náutica e...
Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros
livros de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento, de Lamarca, o Capitão
da Guerrilha, e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar
(ambos da Editora Casa Amarela). Atualmente é vereador do PT em Salvador
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