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Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento (XXI)
Publicado em A TARDE em 09/08/2002

Emiliano José

Antes de prosseguir, para evitar equívocos, gostaria de retificar uma informação registrada no capítulo XIV desta série (A TARDE, 6/3/2002, p. 8). Fiz referência a dois vereadores que se colocaram ao lado do golpe: José Gil Moreira e Orlando Oliveira Flores. O nome do último está errado. Trata-se, na verdade, de Orlando da Silva Leite, da UDN, que terminou prefeito imposto pelos golpistas. Esta correção devo-a a Ruy Medeiros, amigo e companheiro, que tive a satisfação de encontrar no dia 5 de julho, quando fiz conferência na abertura do Encontro Estadual do Movimento Familiar Cristão, em Vitória da Conquista.

No capítulo anterior, o leitor há de se lembrar, falávamos de um habeas-corpus impetrado pelo advogado José Borba Pedreira Lapa em favor de dez prisioneiros políticos, entre os quais Nudd David de Castro, sobre cuja história temos escrito ultimamente. Nudd, sabendo da decisão favorável do Superior Tribunal Militar (STM), juntou os poucos pertences, colocou-os na pequena maleta que trazia consigo e esperou ansiosamente pelo momento de ganhar a liberdade.

À tarde do dia 28 de agosto de 1964, Nudd é chamado (no capítulo anterior demos a data errada, falamos em 26 de agosto). Um soldado, fuzil de baioneta calada, o conduz a um salão do primeiro andar, no 19º Batalhão de Caçadores, no Cabula, onde estavam detidos muitos prisioneiros políticos. Na presença de vários oficiais do Exército, em ambiente circunspecto, solene, Nudd é convidado a ouvir a ordem de soltura. Depois da leitura, convidam-no a assinar um documento. Nudd pediu a presença de seu advogado para fazê-lo.

É que Lapa, poucos dias antes, havia recomendado aos seus clientes que ao serem chamados para assinar a ordem de soltura só o fizessem na presença dele ou então dos familiares. Com a negativa de Nudd, o chefe do cerimonial, visivelmente irritado, disse que ele havia desrespeitado e agredido o Exército brasileiro com aquela negativa e ordenou que Nudd fosse reconduzido à cela. Todos os outros beneficiados com o habeas-corpus agiram da mesma maneira.

O resto da tarde e de boa parte da noite foi uma mistura de tédio e revolta. Por volta da meia-noite, abrem a porta da prisão e intimam Nudd a acompanhar dois soldados, com instrução para que levasse os seus pertences. Emocionado, ele abraça demoradamente o velho Everardo Públio de Castro, seu pai, e mergulha na noite, sem saber o que o esperava, embora desconfiasse não ser coisa boa. Afinal, ditadura é ditadura.

Três jeeps aguardavam-no e aos seus companheiros beneficiados pelo habeas-corpus. O seqüestro de que estavam sendo vítimas era comandado pelo capitão Etiene Falcão. Foram levados para o Quartel de Amaralina para não serem localizados pela Justiça. Com ele, seguia Wladimir Pomar. A escolta era constituída de quatro soldados. Nudd diz que diante de tanto soldado escoltando-o estava quase se convencendo que era de fato muito perigoso. A sensação era de total impotência. Não sabia para onde estava sendo levado.

Wladimir cochichou no ouvido de Nudd sugerindo uma tentativa de fuga. Nudd foi contra. Era tudo o que queriam. Qualquer gesto e poderiam matá-los. Sugeriu a Wladimir que aguardasse um pouco, quem sabe uma ocasião mais favorável. Aquele não era um bom momento. Foram levados para o Quartel de Amaralina, o 14º Grupo de Artilharia de Costa. Numa cela de 2,50m por 3m ficaram por mais de um mês Othon Jambeiro, Fernando Alcoforado, Wladimir Pomar, Sebastião da Silveira Carvalho e Nudd.

Não tinham qualquer informação do mundo. Incomunicáveis. Tudo foi cortado, inclusive o banho de sol. De vez em quando, chegava um oficial e informava que um preso havia sido executado. Terrorismo, que só irá crescer com o passar dos anos. Nudd ainda se recorda do mar de Amaralina, que ele observava da pequena grade, da parte de cima da beliche. Era azul o mar de Amaralina. O tempo demorava muito a passar naquele cubículo. Quando eram ameaçados, a tensão aumentava, mas depois concluíam que tudo era parte de um jogo destinado a enfraquecer o espírito de cada um.

Logo depois ocorreu a visita do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do general Humberto de Alencar Castello Branco, que ocupava a presidência da República, já relatada em capítulos anteriores. Foi essa visita que determinou no final das contas que o habeas-corpus fosse cumprido, embora tardiamente. A partir de 10 de outubro de 1964, os que foram beneficiados pela decisão do STM começaram a ser soltos. E Nudd foi também posto em liberdade. Atualmente, Nudd pertence aos quadros da administração do PT em Vitória da Conquista.

Emiliano José
é jornalista, ex-preso político entre 1970-1974 e autor, entre outros livros de Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento, de Lamarca, o Capitão da Guerrilha, e de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar (ambos da Editora Casa Amarela). Atualmente é vereador do PT em Salvador.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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