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Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento (XXXIII)

Emiliano José*

O julgamento dos envolvidos no processo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), como dizíamos no capítulo anterior, foi aconteceu no dia 16 de março de 1976. Os advogados de defesa eram Jaime Guimarães e Ronilda Noblat. Começou às 15 horas e terminou aos 30 minutos do dia seguinte. Junto deles, uma testemunha quase invisível: o padre Renzo Rossi. Ele já os acompanhava desde quando foram presos, em meados de 1975. Sofreu com eles o julgamento, minuto a minuto.

Luís Contreiras não tinha dúvidas: seriam todos condenados. Afinal, o general Adyr Fiúza de Castro, que comandava a VI Região Militar, cuja sede era em Salvador, havia deixado claro: se denunciassem as torturas que haviam sofrido, a condenação seria inevitável. E os presos denunciaram. Contreiras tinha razão: foram 14 condenações, com penas que variavam de dois anos e meio a cinco anos. Os nomes estão no capítulo XXXI desta série.

Isabel Veiga Santana, mãe dos irmãos Sérgio, Marcelo e Ieda, todos condenados, pediu a Renzo, logo depois das sentenças condenatórias: “Continue perto deles”. Renzo nunca se esqueceu desse pedido. Isabel será uma das mais importantes figuras do Movimento Feminino pela Anistia, seção da Bahia. Trabalhará ao lado de outras lideranças da luta pela anistia no Estado, agrupadas no Comitê Brasileiro de Anistia, como Joviniano Neto e Ana Guedes, das quais o padre Renzo também se aproximará intensamente.

O leitor que pretender conhecer melhor a singular figura do padre Renzo Rossi poderá ler o livro que escrevi sobre ele – “As asas invisíveis do padre Renzo, editado pela Casa Amarela, em 2002, de 432 páginas. Dele, disse frei Betto, que faz o prefácio do livro: “Creio que Renzo Rossi é um desses raros protótipos do homem e da mulher novos, tão sonhados – e pouco realizados – por cristãos, socialistas e comunistas”.

Renzo seria protagonista de outro episódio marcante com os presos políticos da Casa de Detenção, ligados ao PCB. Como acompanhava atentamente o desenrolar das condenações, os processos, tudo, Renzo, no final de 1976, começou a fazer as contas. Percebeu que a maioria dos que estavam na Casa de Detenção já havia cumprido metade da pena e que isso, de acordo com a lei, ensejava a chance de liberdade condicional, concedida a presos de boa conduta carcerária.

Passou a pressionar os advogados com essa argumentação, particularmente Jaime Guimarães e Ronilda Noblat. Não se conformava com o fato de a medida não ser solicitada. Os defensores dos prisioneiros explicavam a Renzo que, como o Ministério Público havia interposto recurso ao Superior Tribunal Militar (STM), em Brasília, não seria legalmente possível pleitear a condicional.

Renzo não aceitava a argumentação. Direito é direito. Eles tinham de entrar com o pedido junto ao Conselho Penitenciário. O pior que poderia acontecer era o Conselho negar – dizia Renzo, subitamente tomado de pendores advocatícios. Os advogados resistiam. Conheciam a lei. Renzo, então, mudou de tática. Passou a insistir com os presos. Não era possível que deixassem de acionar um direito deles. E tanto fez que eles acabaram convencendo os advogados a entrar com o pedido.

O julgamento ocorreu no dia 8 de fevereiro de 1977, Renzo presente. Os advogados, antes da sessão do Conselho Penitenciário, vendo a ansiedade do religioso, o advertiram de que dificilmente os presos seriam soltos. Tinham poucas esperanças de vitória. À sessão do Conselho Penitenciário foram admitidos apenas os advogados Jaime Guimarães e Ronilda Noblat. E Renzo. Os familiares esperaram do lado de fora. Começou por volta das 17 horas, terminou às 19 horas e 30 minutos. E com a vitória da tese de Renzo: nove presos receberam o parecer favorável para a liberdade condicional.

Agora caberia ao juiz-auditor da VI Região Militar dar a última palavra, e este aceitou a decisão do Conselho. Quatro outros presos foram julgados no final do mês de fevereiro daquele ano, quando completaram metade da pena cumprida, e também libertados. Apenas Paulino Vieira, condenado a cinco anos, é que não teria direito e seria por isso, como ficou só, transferido para a Penitenciária Lemos de Brito.

Quando os advogados e Renzo chegaram à Detenção, por volta das 21 horas daquele 8 de fevereiro de 1977, para dar a notícia aos presos, a festa foi para Renzo, herói de todos naquela noite. Sem a insistência dele, ficariam mais algum tempo presos. Ronilda e Jaime deram mão à palmatória. O Senso de justiça de Renzo falara mais alto. Luís Contreiras costuma dizer que Renzo não precisou morrer para se santificar. “Conseguiu tornar-se santo em vida”. E Contreiras, aos 80 anos, comemorados em meados deste ano, é um homem cheio de saúde, de fé e de esperança, exemplo para as novas gerações.

*jornalista, autor, entre outros livros, de As asas invisíveis do padre Renzo; de Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento (1o volume); de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; e de Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar. É deputado estadual pelo PT

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
Waldir Pires
Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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