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Lembranças do mar cinzento (X) 

...Um dia, ainda em Ipiaú, aparece Fernando Gonzalez Passos, à procura dos que tinham pichado muros pelo Movimento Contra a Ditadura. Rui Patterson, sobre quem falávamos no artigo anterior, era um dos principais organizadores das pichações. Além dos muros, Rui havia também pichado alguns jegues, que andavam soltos pela cidade. O prefeito Euclides Neto não deixava prender os jericos, e havia muitos deles nas ruas. Tornaram-se, pelas mãos de Rui e de seus companheiros, outdoors ambulantes contra o regime militar. Fernando era militante da Ação Popular. A pichação alertou a organização para a existência na cidade de um núcleo de pessoas que podia se incorporar à AP. Conversa com Rui e o convida a entrar.
- Você vai fazer parte de uma grande organização.
Rui torna-se simpatizante da AP, ao lado de outros companheiros de Ipiaú. Em 1968, passa no vestibular para Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia e transfere-se para Salvador.
Entra em contato com Carlos Sarno, Jurema Valença, Marie Helène Russi, Chantal Russi, Nemésio Garcia. Deixa de ser simpatizante da AP. Começava uma nova etapa em sua vida, totalmente diferente de tudo o que experimentara antes. O caminho, explicam-lhe, é a luta armada. Acabou a conciliação com a ditadura. Fazem duras críticas ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que seria reformista, àquela época um terrível adjetivo. E informam estar participando da Dissidência, nome dado a todos aqueles que, nos diversos Estados, divergiam do PCB e que haviam optado pela luta armada. E definem o lugar dele:
- Como você não é uma figura muito destacada, não está tão integrado à luta de massas, queremos prepará-lo para a guerrilha. Rui aceita, entusiasmado. E passa a desenvolver treinamentos militares nos finais de semana. Ia para o campo, nas proximidades de Salvador. Às vezes Camaçari, outras vezes Mata de São João. Entrava na mata, aprendia a lidar com armas e a fazer explosivos. Com ele, Nemésio, Getúlio, Eudaldo Guerra, entre outros. Os melhores professores de explosivos, segundo o que conta Rui, foram Amílcar Baiardi e Flávio Tavares. Esse treinamento desenvolveu-se até o primeiro semestre de 1969.
No decorrer desse período, entre 1968 e 1969, intensas discussões movimentaram o grupo. Mantinham relações com a dissidência do Rio de Janeiro e a de São Paulo, mas discutiam todas as opções existentes à época. Era uma época turbulenta. Se 1968 fora um ano de mobilizações de massa, fora também de preparação das organizações para a luta armada contra a ditadura, daquelas que divergiam do PCB. O final de 1968, com o AI-5, marcará uma nova e mais dura etapa da ditadura, que radicalizará o combate à esquerda, especialmente aos que haviam optado pelo caminho das armas.
O grupo a que Rui pertencia não fugia à regra: discutia intensamente os rumos a tomar. Rui era dos mais novos integrantes. Os demais já tinham uma longa história em comum. Todos tinham passado pelo PCB. Nemésio se integrara ao meio operário e o restante estava vinculado ao movimento estudantil. A união entre eles começara muito cedo, desde o Colégio Central, centro de efervescência política e cultural naqueles anos. Sarno pretendia ver exibida no Central a peça de sua autoria "Aventuras e desventuras de um estudante". A peça, censurada naquele ano de 1966, provocou uma grande agitação em toda Salvador. Sarno acabou excluído do ensino público por um decreto do governador Lomanto Júnior. A movimentação tornou-os mais unidos e cristalizou-se entre eles uma noção mais clara de militância política. Quando chegaram à Universidade, em 1968, já o fizeram com um forte sentido de conjunto. Na Universidade Federal da Bahia, Marie Helène Russi tornou-se presidente do Diretório Acadêmico de História, Sarno do de Filosofia. Na Universidade Católica, Jurema foi eleita presidente do Diretório Acadêmico de Filosofia. De modo combinado, à exceção de Nemésio, fizeram vestibular em 1967 e ocuparam todos os espaços políticos que podiam. A revolução tinha pressa.
No ano de 1969, o recrudescimento da repressão em todo o país reforçou o sentimento, no interior das organizações da esquerda armada, que de fato não havia outro caminho senão o das armas. Entre os integrantes do grupo baiano ligado à Dissidência houve, em meados do ano, uma discussão intensa sobre se os militantes deviam ou não andar armados. Uma posição, liderada por Getúlio Gouveia, insistia que andar desarmado era uma besteira. Numa situação como aquela, não se justificava ser preso sem reagir, e o único jeito de fazê-lo era de armas na mão.
Outra posição, e esta defendida por Rui, era a de que, para andar armado, era necessário conhecer armas e saber atirar. Caso contrário, tratava-se de um contra-senso. Getúlio, conhecido por sua capacidade discursiva, acabou vencendo. Todos passariam a andar armados, ou ao menos os militantes mais visados, alguns dos quais já vivendo em aparelhos. Rui lembra-se que morava num desses aparelhos, à Rua Carlos Gomes, num edifício situado quase em frente à antiga Mesbla. Junto com ele, morava seu companheiro de organização, Israel Pinheiro. Sabia da localização de outros aparelhos, como o que morava Denilson Vasconcellos, no fim de linha do Garcia. Ou o de Marie e Jurema, por onde transitavam mais as pessoas vinculadas ao movimento estudantil, na Orla, perto da Boca do Rio.
No segundo semestre de 1969, resolveram que iriam fazer um contato com a Ação Libertadora Nacional (ALN), criada e dirigida por Carlos Marighella, o mais destacado dirigente das organizações da esquerda armada. Decidiram que Getúlio Gouveia e Marie Helène Russi viajariam para fazer o contato e as discussões. Na volta, decidiriam qual o destino do grupo. Iriam de ônibus. Getúlio, cumprindo com rigor o que ele próprio havia proposto, seguiu armado para a Rodoviária, localizada então nas proximidades das Sete Portas. Não com um, mas com dois revólveres. Certamente ele e Marie acreditavam que passariam despercebidos. Que a polícia política, se lá estivesse, não os reconheceria. Não pensaram no fato de que Marie já era uma pessoa bastante conhecida por sua intensa participação no movimento estudantil. Quando estavam se aproximando do ônibus...

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
Waldir Pires
Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
Waldir Pires
Capítulo 31
Waldir Pires
Capítulo 30
Waldir Pires
Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
Waldir Pires
Capítulo 27
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Capítulo 26
Waldir Pires
Capítulo 25
Waldir Pires
Capítulo 24
Waldir Pires
Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
Waldir Pires
Capítulo 19
Waldir Pires
Capítulo 18
Waldir Pires
Capítulo 17
Waldir Pires
Capítulo 16
Waldir Pires
Capítulo 15
Waldir Pires
Capítulo 14
Waldir Pires
Capítulo 13
Waldir Pires
Capítulo 12
Waldir Pires
Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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