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Lembranças do mar cinzento
(XI)
Como dizíamos no artigo anterior, Marie Helène Russi e Getúlio Gouveia,
precisamente no dia 2 de setembro de 1969, chegaram à Rodoviária de Salvador
para tomar o ônibus que os levaria a São Paulo para um contato com a Ação Libertadora
Nacional (ALN), dirigida por Carlos Marighella. Maria Helène Russi já era relativamente
conhecida por sua participação no movimento estudantil. Certamente já havia
sido bastante fotografada, embora não pudesse dizer que a repressão na Bahia
fosse especialmente preparada. O fato é que a polícia política no Estado estava
à procura de uma suíça, e quando ela apareceu na Rodoviária, aquele rosto já
quase familiar para os policiais, não houve dúvidas: prenderam-na. Getúlio,
que carregava um 32 e uma Bereta, ainda tentou desvencilhar-se das armas e escapar,
mas não conseguiu. Também foi preso. Os que estavam soltos trataram de esconder-se.
Ou em Salvador mesmo ou em outros locais do interior. Nemésio Garcia, Carlos
Sarno, Jurema Valença, Chantal Russi, esta irmã de Marie, Denilson Vasconcelos
e Israel Pinheiro, entre outros, deram um jeito de desaparecer dos olhos da
repressão. Rui Patterson, além de tudo, logo que os dois caíram, viu desenvolver-se
um tumor - um antraz - que o fazia sofrer terrivelmente. A falta de infra-estrutura
em Salvador fez Rui lembrar-se de Ipiaú, para onde foi, de ônibus, sentando
meio de lado, de modo a não sofrer ainda mais com o tumor, lancetado, no dia
seguinte, pelo médico Desidério Neto, irmão do advogado e ex-prefeito do município,
Euclides Neto. Logo voltou para Salvador, disposto a refazer o contato com seus
companheiros. Nemésio Garcia, vendo a repressão apertar o cerco na capital,
resolve pedir socorro a Claudionor Fróes Couto, um simpatizante, filho de João
Batista Couto, este dono de uma fazenda em São Miguel das Matas. Rui visitou
Nemésio e Chantal nesta fazenda, uma primeira vez, acompanhado do arquiteto
Raimundo Nonato, também militante. Na segunda vez, e ainda acompanhado de Nonato,
Rui foi preso. Era a madrugada do dia 17 de outubro de 1969. Nemésio Garcia
e Chantal Russi caíram no dia 16 de outubro de 1969, um dia antes de Rui ser
preso.
Maria Helène e Chantal não foram torturadas. A condição de estrangeiras salvou-as
disso. A embaixada suíça se mobilizou. O cônsul Hans Peter Muler movimentou-se
na Bahia, e isso contribuiu decisivamente para que elas fossem bem tratadas.
Marie, no entanto, não aceitou fazer uma declaração solicitada pela embaixada.
Entre outras coisas, a diplomacia suíça pretendia que ela assinasse um termo
afirmando que gostava do Brasil, que convivia com um companheiro brasileiro
há mais de cinco anos (Nemésio Garcia) e sobretudo que não voltaria às atividades
políticas. Numa entrevista dada ao jornal suíço "Tages-Anzeiger", de 28 de maio
de 1976, logo depois de ser expulsa do Brasil, Marie Helène explicará os conflitos
que viveu diante dessa proposta e por que não assinou o texto:- A proposta provocou
em mim terríveis dores de consciência. Por vários dias, lutei comigo mesma,
mas finalmente recusei. Mesmo se escrevesse "hoje faz um tempo ótimo", o regime
poderia interpretar isso como declaração de simpatia. Provavelmente teriam me
posto em liberdade e provavelmente não me teriam expulsado. Eu não poderia fazer
nada que pudesse ser interpretado como aceitação daquela situação de ditadura.
Creio que a embaixada não entendeu minha atitude. Se as duas irmãs não foram
torturadas, Nemésio, desde o primeiro momento, sofreu o pão que o diabo amassou.
Já falei disso anteriormente, embora nunca se consiga expressar devidamente
a violência utilizada. E as torturas dele agravaram-se depois que descobriram
o P.o.r.r.a. Explico-me, e peço paciência para que o leitor não pense tratar-se
de algum descuido ou brincadeira. É que Rui, quando preso, cai com uma carta
de Denilson Vasconcelos para Chantal, onde, em vários momentos, ele dizia que
tal companheiro era um P.o.r.r.a., grifado, com esses pontinhos, sempre com
destaque, que aquele companheiro era outra p.o.r.r.a., e assim por diante. Tenta
esconder a carta no fundo da viatura onde vieram presos ele e Raimundo Nonato.
Esconde, sem saber que Nonato já estava trabalhando para a repressão. Tanto
Rui como Claudionor Fróes têm a opinião de que Nonato teria sido preso naqueles
dias, sem que eles soubessem, e feito um acordo com a repressão. Nemésio e Chantal
também teriam sido vítimas de Nonato. Como Nemésio fazia trabalho operário,
era considerado o mais perigoso de todos. Logo que Rui chega ao Quartel do Barbalho,
os policiais, com a carta de Denilson nas mãos, investem sobre Nemésio com toda
a brutalidade possível querendo saber que partido era aquele. Depois de muita
selvageria, Nemésio resolve abrir. Está certo: pertencia ao Partido Operário
Revolucionário Retado e Armado - o Porra. E os policiais - o capitão Hemetério
Chaves Filho à frente - exultaram com a descoberta. No inquérito fizeram constar,
com pompa e circunstância, o nome do novo partido, o Porra, uma nova organização
revolucionária surgida na Bahia.
O advogado Inácio Gomes, contratado para defender Nemésio, dias depois, lê o
depoimento e ao deparar-se com o Porra não se conforma com a admissão feita
pelo prisioneiro:
- Mas como você admite um negócio desse?
- Por que inventar um partido como esse? Como diz uma loucura dessa?
- Por que você não explicou que porra era porra?
Nemésio responde quase com irritação:
- Se o senhor estivesse no meu lugar, iria entender por que fiz isso.
- Não, não dá para entender - insistia Inácio.
- Eu estava no pau-de-arara, Dr. Inácio. Insistiam que aquilo era uma sigla.
E eu fui então construindo o partido na tortura. O p era de partido. O o de
operário. E aí eu completei com armado. Eles diziam que estava faltando letra.
Inácio ouvia estupefato.
-E eu por fim construí a sigla inteira: Partido Operário Revolucionário Retado
e Armado. Só acrescentei o retado. E então desci do pau-de-arara. Com eles todos
felizes pela descoberta.
Inácio entendeu. E mais tarde usará o episódio tragicômico, no Superior Tribunal
Militar, para beneficiar o seu cliente. Com sucesso.
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