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Lembranças
do mar cinzento (XIII)
Publicado em A Tarde 15/12/99
Entre 1965 e 1966, a ditadura tateava. Sondava o terreno. Media reações. Em
1965, com o Ato Institucional nº 3, implanta o bipartidarismo, e surgem o Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), que deveria agrupar os que, de uma forma ou de
outra, eram contra o regime militar, e a Aliança Renovadora Nacional (Arena),
que juntaria os que eram favoráveis ao golpe de 1964. Um dito da época dizia
que um devia ser o partido do "sim", o outro, do "sim senhor", embora isso não
venha a fazer justiça ao MDB, que, à frente, contribuirá de modo decisivo para
o fim do reinado castrense.
Havia a pretensão, nesses primeiros anos, por parte dos generais, de fixar algumas
regras institucionais, dar a impressão de alguma legalidade, que vai culminar
com a Constituição de 1967, feita nos moldes estabelecidos pela corporação militar
dominante, mas que ainda assim guardava resquícios de observância da lei. Essa
situação será rompida de modo drástico, com o AI-5, em dezembro de 1968, quando
então eliminaram-se quaisquer vestígios de respeito às normas legais e institui-se
um quadro de terror e morte.
No âmbito do ensino, havia uma estratégia, fundada no acordo Mec-Usaid, que
pretendia fazer uma reforma universitária baseada em padrões norte-americanos,
e orientada pelo Big Brother do Norte. Pretendia-se o fortalecimento do ensino
privado, se possível a privatização das universidades públicas e a dissolução
das entidades estudantis. Para o ataque à organização autônoma dos estudantes,
editou-se a Lei Suplicy, que legalizava a perseguição e demissão de alunos e
professores e, ainda, a intervenção nas universidades.
Mas sempre há o problema apontado por Garrincha a Feola. Não custa lembrar:
Feola, orientando o maravilhoso time que teve nas mãos em 1958, explicava como
as coisas deveriam ocorrer. Zito pegaria a bola na intermediária, entregaria
a Didi, que acionaria Garrincha. Este, então correria para a linha de fundo,
cruzaria, e Vavá faria o gol. Garrincha, tímido, mas sábio, perguntou: "Seu
Feola, e isso está combinado com o João?" João era como Garrincha chamava todos
seus marcadores. No caso da ditadura, o João não estava combinado. A intelectualidade
e os estudantes, cedo, muito cedo, começaram a se rearticular, depois da quase
perplexidade pós-golpe.
O teatro, já em 1965, se reanima. A ditadura censura O Berço do Herói, de Dias
Gomes, e o Brasil Pede Passagem, de Sérgio Porto. Mas, quem sabe por descuido,
deixa passar Liberdade, Liberdade, de Flávio Rangel. E também Arena Conta Zumbi,
que reconstitui a luta do Quilombo dos Palmares. Os que viveram o período ainda
se lembram de Upa Neguinho, de Edu Lobo, cantada por Elis Regina.
Na música, no 1º Festival de Música Popular da TV Excelsior de São Paulo, em
1965, Elis Regina, ela outra vez, emociona a platéia com Arrastão, de Edu Lobo
e Vinícius de Moraes. Zé Kéti entusiasma o país, a partir do show Opinião, com
sua música: "Podem me prender, podem me bater, mas eu não mudo de opinião..."
E Maria Bethânia, no mesmo show, cantando João do Vale, quase inventa um grito
de guerra: "Carcará: pega, mata e come; Carcará: mais coragem do que home; Carcará:
não vai morrer de fome...".
Geraldo Vandré, com sua Cantiga Brava, dando força ao filme A Hora e a Vez de
Augusto Matraga, de Roberto Santos, é quase premonitório quanto aos acontecimentos
do pós-1968: "O terreiro lá de casa/não se varre com vassoura/varre com ponta
de sabre/bala de metralhadora". O importante a registrar, para além de cada
destaque artístico-musical, é que a atividade cultural transforma-se numa trincheira
de luta, num campo de resistência, numa forma de manifestar inconformismo com
a ditadura. Cada peça teatral, festival, cada show transformava-se em manifestação
contra os militares. Os atores, os músicos, os homens de cultura sentiam o calor
dos aplausos demorados, e sabiam que muito daquilo tinha a ver com o repúdio
à situação do país.
É tempo do livro A Revolução Brasileira, de Caio Prado Júnior, que terá forte
impacto na esquerda brasileira. De O Colapso do Populismo, de Octavio Ianni,
que também mexerá com muitos dos conceitos tradicionais sobre o populismo no
Brasil. Tempo de Quarup, de Antônio Callado. De Realidade, revista de reportagem
dirigida por Sérgio de Souza, de excelente qualidade. De O Rei da Vela, dirigida
por Zé Celso, e de Navalha na Carne, de Plínio Marcos. De Disparada, de Vandré,
de A Banda, de Chico Buarque. Claro, do sucesso estrondoso de Roberto Carlos,
Mora. E é no ano de 1966, que a UNE realiza o seu 28º Congresso, em Belo Horizonte.
Na Bahia, o inconformismo político-cultural revelou-se primeiro no movimento
estudantil, e mais especificamente entre os secundaristas. Não custa lembrar
que no texto anterior, falávamos da prisão de Airton Silva Ferreira Filho, ocorrida
em 1970, ligado ao MR-8, depois de ter pertencido à Dissidência Comunista da
Bahia. Voltamos no tempo, para explicar que ele era originalmente do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), junto com seus irmãos Júlio e Juca. Que os três
saíram do PCB para integrar-se à Dissidência. Nós voltaremos à trajetória de
Airton Ferreira pela prisão, mas só depois de examinarmos como tudo começou.
O movimento estudantil passou a se rearticular em 1965, ainda timidamente, em
todo o país. Na Bahia, o PCB tinha uma sólida base entre os estudantes e a clara
noção de que a luta política, naquele momento, passava pela cultura. Os nomes
mais destacados do movimento secundarista, do ponto de vista da articulação
do PCB, eram Hamilton Celestino e Haroldo Cardoso.
Para que o leitor não se impaciente tanto, vamos agora começar a falar da quase
insurreição secundarista, motivada pela peça Av'enturas e Desventuras de um
Estudante, de autoria de um aluno do Colégio Central da Bahia, Carlos Sarno,
hoje um festejado publicitário. Estamos em meados de 1966. O diretor do Colégio
Central, Walter Reuter, decidiu que a peça teatral não poderia ser exibida no
estabelecimento. O secretário de Educação do Estado, Alaor Coutinho, considerou
que a encenação fora vetada porque ela se constituía num "acinte ao magistério
baiano". Diante da atitude de Reuter e das autoridades estaduais, os estudantes...,
e aqui novamente tenho que pedir novamente paciência ao leitor. Contaremos tudo,
ou quase tudo, no próximo capítulo.
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