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Lembranças do mar cinzento (XIV) 

Publicado em A Tarde 28/12/99

"Aventuras e Desventuras de um Estudante", de que começamos a falar no último capítulo, de autoria de Carlos Sarno, aluno do Colégio Estadual da Bahia, mais conhecido como Colégio Central, era uma peça quase singela. Narra as atribulações de um interiorano que vem estudar na capital. Insurge-se contra a burocracia e o autoritarismo do colégio. Desenvolve os temas da liberdade, da democracia, da necessidade de auto-organização estudantil, do fortalecimento do grêmio, da afirmação dos direitos humanos. O seu lado singelo, no entanto, não conseguia obscurecer a sua pretensão política. E sob uma ditadura, tudo parece maior do que é. Aquela peça podia acirrar os ânimos dos alunos do Central - ao menos foi dessa maneira que o diretor Walter Reuter pensou, e por isso decretou que ela não podia ser exibida no estabelecimento que dirigia.
Os estudantes do Central se rebelaram, e iniciaram uma movimentação que sacudiu Salvador. O governador Lomanto Júnior, o vice Orlando Moscozo, secretários de Estado e o ministro das Relações Exteriores, Juracy Magalhães, entre outros, viram-se envolvidos diretamente nas aventuras e desventuras dos estudantes. É possível especular que, acaso não tivesse havido a proibição, a peça não tivesse a extraordinária repercussão que teve. Curioso isso: tudo o que aconteceu, e foi muita coisa, decorreu de uma peça não-exibida. Salvador conheceu as aventuras e as desventuras de um estudante de outra forma: no drama da vida sob uma ditadura.
O Grupo de Teatro do Colégio Central (Gateb) já começara a atuar desde 1964, quando encenou a peça "Do tamanho de um defunto", de Millôr Fernandes, sob a direção de Haroldo Cardoso. Dela, participaram, entre outros, Emanueli Marimpietri, José Cordeiro Filho, Francisco Ribeiro Neto, Ângelo Oliva, José Nogueira Neto, Marie Hèlene Russi, Jurema Augusta Ribeiro Valença, Nemésio Garcia, Ruth de Brito Lemos, Orlando Lacerda e Mário Galrão, vários dos quais estarão envolvidos com a luta política aberta contra a ditadura mais à frente. O grupo teatral era constituído por alunos esperançosos de suas possibilidades artísticas mas sobretudo conscientes de que o país vivia sob uma ditadura, de que podiam contribuir para mudar o país e o mundo. E eram pessoas, como já se disse, bastante influenciadas por militantes do PCB, cujos principais nomes eram, no Colégio Central, Hamilton Celestino e Haroldo Cardoso.
Quando Walter Reuter, no final de maio de 1966, decidiu proibir "Aventuras e Desventuras de um Estudante" foi como se fizesse cumprir a profecia maoísta, aquela que dizia que um só rastilho podia incendiar toda a pradaria. Tocou fogo em mato seco. Em meados de 1966 já havia um clima político mais propício à resistência. A ditadura já não assustava tanto.
O Central declarou-se em greve. Os alunos não aceitaram a suspensão de sete colegas do Gateb, chamados de subversivos e marxistas por Reuter. Os sete subversivos eram Carlos Sarno, Jurema Augusta Ribeiro Valença, Ruth de Brito Lemos, Alexandrina Luz Conceição, Zoroastro Pena Santana, Nemésio Garcia e Francisco Ribeiro Neto. E os estudantes não reconheciam a autoridade da Comissão de Inquérito constituída por ele, integrada pelos professores Walfrido Morais, que a presidia, Nilton José e Walter Matos. Mais tarde, esta comissão será dissolvida pela Secretaria de Educação, alegando ter havido cerceamento de defesa, constituirá outra, que, no entanto, chegará também à conclusão da "inconveniência" da exibição da peça.
Que pretendiam os estudantes com a greve? Num manifesto, pediam a substituição de Walter Reuter por "incompetência administrativa, pedagógica e moral", reconsideração da proibição da peça, garantias de liberdade cultural, de funcionamento do grêmio e de todas as atividades culturais, e anulação das punições.
Mas os secundaristas do Central não ficaram apenas na greve. Ocuparam as ruas. No dia 3 de junho de 1966, saíram em passeata pelas ruas centrais de Salvador. E nessa mesma noite pretendiam encenar a peça no Restaurante Universitário, já que os universitários também se mobilizaram em solidariedade. E diz-se pretendiam porque houve uma repressão brutal, feroz contra a tentativa. Para a ditadura, parecia questão de honra que a peça não fosse exibida. Até o vice-governador do Estado, Orlando Moscozo, que passava pelo local no momento em que uma tropa de choque de mais de 60 homens da Polícia Militar agredia os estudantes, e que pretendeu acalmar os ânimos, foi insultado e desrespeitado pelos policiais. Foram agredidos, ainda, segundo o Jornal do Brasil (4/6/1966), o repórter Lázaro Guimarães e o fotógrafo Arivaldo Nobre, ambos do Jornal da Bahia.
No dia seguinte, 4 de junho de 1966, as manifestações prosseguiram, e estas provocaram um incidente grave. Os estudantes estavam concentrados em frente à Reitoria da Universidade Federal da Bahia, quando passou um carro com o então ministro das Relações Exteriores da ditadura, Juracy Magalhães. Identificado e vaiado, Magalhães desceu do carro para discutir com os estudantes, e de repente uma pedrada atingiu o ajudante-de-ordens que o acompanhava. Magalhães entrou no carro, e depois divulgou nota oficial, onde dizia que o episódio não era isolado "pois os líderes comunistas estudantis estão atuando e se arregimentando, visando a destruir os princípios que nortearam a revolução salvadora de março de 1964". (Última Hora, 7/6/1966).
No dia 6 de junho, 32 intelectuais assinaram um manifesto em favor dos estudantes e da encenação da peça de Carlos Sarno. Entre os signatários, Jorge Amado, Walter da Silveira, Sante Scaldaferri, Vivaldo Costa Lima, João Ubaldo Ribeiro, João Augusto, Othon Bastos e Orlando Sena. O professor da Escola de Teatro, Emanuel Araújo, chamado pelo Colégio Central para orientar os alunos nas atividades teatrais e que havia liberado "Aventuras e Desventuras de um Estudante", renunciou à função no Colégio Central tão logo tomou conhecimento da proibição da peça. Carlos Sarno, às vezes grafado Karlos Sarno pela imprensa, virou autor de sucesso, de uma peça quase clandestina.
Salvador era uma praça de guerra. Por falta de um palco para exibir uma peça. O abade do Mosteiro de São Bento, D. Timóteo Amoroso Anastácio, inconformado com isso, resolveu oferecer o Mosteiro para que os estudantes pudessem afinal apresentá-la ao público. Quem sabe, assim, teriam fim aquelas tantas aventuras e desventuras. Ocorre que... e o leitor novamente me aguardará, no próximo capítulo, brevemente.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
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Capítulo 36
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Capítulo 35
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Capítulo 8
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Capítulo 7
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Capítulo 6
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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