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Lembranças do mar cinzento (XV)
Publicado
em A TARDE 07/01/2000
Há esforços, aqui e acolá, para revelar a grandeza de D. Timóteo Amoroso
Anastácio. Há um livro de Eduardo Diogo Tavares - O Milagre de Dom Amoroso
- ou como D. Timóteo, abade do Mosteiro de S. Bento, venceu as legiões
hereges, 1995 -, outro, de vários autores, denominado D. Timóteo, Presença
Histórica, de 1996. Mas D. Timóteo é ainda um personagem à espera de um
biógrafo. Sua dimensão religiosa era maior do que as fronteiras da religião.
Seu ecumenismo rompia todas as fronteiras. Sua humanidade conseguia abraçar
o mundo.
Foi D. Timóteo que resolveu abrigar a peça "Aventuras e Desventuras de
um Estudante", de Carlos Sarno, que a direção do Colégio Central proibiu,
que a polícia da ditadura reprimiu, em meados de 1966, tudo isso objeto
do capítulo precedente. Creio ser útil transcrever literalmente a declaração
de D. Timóteo quando decidiu permitir que os estudantes do Central exibissem
a peça no Mosteiro de São Bento. O título de sua declaração: "São Bento
e os jovens do Colégio Central":
Acolhi efetivamente, no salão anexo do Mosteiro de S. Bento, onde já funcionam
o nosso Coral da Juventude e outras atividades culturais, a equipe de
teatro dos alunos do Colégio Central. Meu gesto, que é feito com a convicção
e responsabilidade pessoal, ninguém o tome por indiscreta intervenção
no litígio aberto, como é sabido, a esses jovens no seu colégio. Simplesmente,
a estudantes, cujos esforços pela cultura e pela liberdade de criação
artística só posso aplaudir e apoiar, eu abro as portas da hospitalidade
beneditina. Tanto mais que não percebo neles até agora nenhuma intenção
diretamente política, de todo esse contexto afetivo da luta de nossa juventude
estudantil, na vanguarda do povo brasileiro, por uma consciência autêntica".
Logo depois, a 6ª Região Militar insinuou que teria que invadir o Mosteiro
de S. Bento "caso ocorresse algum distúrbio" ("Última Hora, 23/8/1966).
Sarno lembra-se quando, constrangido, D. Timóteo o chamou e disse-lhe
que teria de suspender as apresentações da peça no mosteiro. Mas não o
fez calado. Distribuiu nota, assinada por ele, dizendo que o espetáculo
fora suspenso "até que se levante a opressão que baixa sobre o nosso país,
neste crepúsculo da sua liberdade". Dizia, ainda, que o fazia atendendo
a um pedido de D. Eugênio Salles, então administrador apostólico da Arquidiocese,
"que me comunicou suas apreensões a respeito". Ao diretor do Colégio Central,
Walter Reuter, que lhe havia dirigido uma "injuriosa" carta-aberta, respondeu
perguntando-lhe "se o clima de compreensão mútua e amizade' que ele pretende
ver instituído em seu Colégio Central inclui ou não alunos suspensos por
tempo indeterminado por causa dessa peça e já vítimas de prejuízo irremediável
pela falta forçada de freqüência". E datou: 20 de agosto de 1966.
Era a ditadura tentando matar a arte, e com isso matar a política. Desta
morte, aliás, fala a peça, quando faz o enterro do grêmio. "De que morreu
este defunto? Morreu de morte política, a pior das mortes, a pior. É uma
morte subversiva, dessas mortes que na morte está mais do que nunca viva".
Walter Reuter, certamente por orientação vinda de cima, mostrou-se inflexível.
Tudo foi feito no mais puro estilo dos expurgos políticos tradicionais.
O Grupo dos Sete - os integrantes do Grupo de Teatro do Central (Gateb),
que haviam sido suspensos - foi não só expulso como, por decreto, proibido
de estudar em escola pública. O Grupo dos Sete era constituído por Carlos
Sarno, Jurema Augusta Ribeiro Valença, Ruth de Brito Lemos, Alexandrina
Luz Conceição, Zoroastro Pena Santana, Nemésio Garcia e Francisco Ribeiro
Neto. Sarno, autor da peça, sondado pela Anistia Internacional, estimulado
pelo PCB, aceitou uma bolsa de estudo na Alemanha Ocidental, onde ficou
durante quase um ano, principalmente em Boppard, perto de Frankfurt, estudando
a língua e a cultura alemãs.
Parte dos que ficaram já começava a questionar a linha oficial do PCB,
e começou a se articular na Bahia, como no restante do país, a Dissidência
do PCB. Muitos militantes não se conformavam com a posição "reformista"
e "legalista" do partido, embalados por leituras heterodoxas e acontecimentos
extraordinários. Entre as primeiras, podem-se listar o texto de Regis
Debray, "Revolução na Revolução", ou "A Revolução Brasileira", de Caio
Prado Júnior, embora muitos outros autores tenham influenciado os dissidentes,
entre os quais, Antonio Gramsci, cuja obra teórica mal principiava a chegar
ao Brasil. Entre os acontecimentos extraordinários, destacavam-se a Revolução
Cubana, de 1959, e a luta do povo vietnamita contra o imperialismo norte-americano,
em desenvolvimento.
A movimentação causada pela peça "Aventuras e Desventuras de um Estudante"
havia propiciado o crescimento do PCB. Jurema Valença e Marie Hèlene Russi,
por exemplo, entraram para o partido logo depois do encerramento desse
episódio. E Jurema, Marie, a irmã de Marie, Chantal Russi, Nemésio Garcia,
Carlos Moreira Villanueva e Sérgio Furtado, entre outros, em pouco tempo
integram o primeiro time da Dissidência no movimento estudantil. E aqui
vamos encerrando o parêntese de "Aventuras e Desventuras de um Estudante",
detonador de muitos acontecimentos, inclusive da própria Dissidência do
PCB, de que falávamos quando começamos a relatar a prisão de Airton Silva
Ferreira Filho, alguns anos depois, em 22/4/1970.
Antes de voltar às agruras de Airton na prisão, falemos ainda da Dissidência.
Em todo o Brasil, ele tinha um traço de união: todos os grupos eram a
favor da luta armada. Dividia-se, no entanto, quando a discussão girava
em torno do caráter da revolução. Havia os que defendiam a luta armada,
mas a mesma posição estratégica do PCB: a revolução era nacional e democrática,
contra o imperialismo, e a burguesia nacional, portanto, continuava a
ter um papel importante. Acontecia nos marcos capitalismo. E outros que,
também defendendo a via armada, compreendiam o Brasil como um país capitalista
e que a burguesia nacional não tinha qualquer papel no processo revolucionário.
Tratava-se de uma transformação socialista. Na Bahia, essas posições começavam
a ser discutidas entre os dissidentes, com prevalência para a revolução
socialista. Airton, em 1964, depois de ser convidado a sair do Colégio
Militar, onde estudava, fez vestibular e entrou na Faculdade de Arquitetura
da Ufba, onde começa a estudar em 1965; Airton conta que a Polop (Política
Operária)... e nos encontraremos no próximo capítulo. |