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Lembranças do mar cinzento (XVI) 

Ao final do capítulo anterior, falávamos das discussões que redundaram na criação da Dissidência do PCB em todo o Brasil. Penso que cabem mais duas palavras sobre o caráter da revolução brasileira, em discussão naquele momento. O PCB defendia que a revolução devia se dar em duas etapas: uma, nacional-democrática, onde a burguesia nacional ocupava um papel importante. Tratava-se, nesta etapa, de impulsionar o capitalismo brasileiro, ainda insuficientemente desenvolvido. A segunda etapa seria a da revolução socialista. Um parte da esquerda armada (da Dissidência) compartilhava desta visão. A própria ALN, dirigida por Carlos Marighella, não chegará a se afastar dessa linha.
A outra visão compreendia a necessidade de superar a idéia da revolução por etapas. O Brasil era um país capitalista, a revolução socialista estava na ordem do dia. Creio que isso esclarece a essência do debate do período entre os que racharam com o PCB, sem prejuízo da abordagem de outros aspectos, em outros momentos.
Dizíamos que Airton Silva Ferreira Filho, quando começou a estudar na Universidade, na Faculdade de Arquitetura, em 1965, aproxima-se da Polop, sem, no entanto, tornar-se militante da organização. A Polop - na verdade, Organização Revolucionária Marxista, que editava o jornal Política Operária, de onde se tirou a sigla que a tornou mais conhecida - foi precursora da crítica ao nacionalismo e ao "reformismo" do PCB, tinha parentesco com as idéias de Trotski, era defensora da natureza socialista da revolução brasileira. Nunca conseguiu alcançar uma expressão de massas ampla, destacando-se pela sua ênfase na formulação teórica. Atraía os que tinham uma veia crítica, mas, muitos dos que se aproximavam, sentiam o doutrinarismo reinante, e acabavam retirando-se.
Airton, apesar dessa aproximação com a Polop, não sai do PCB. Somente em 1968, ele e seus irmãos, Júlio e Juca, rompem com o PCB. A primeira prisão da família, nesse período, foi a de Júlio, que estudava engenharia, no Congresso da UNE, em Ibiúna, no segundo semestre de 1968. A opção dos irmãos, mais rápida do que a feita pelo grupo de Carlos Sarno, Nemésio Garcia e Jurema Valença, foi pela Dissidência do Rio de Janeiro, integrada por Franklin Martins, Wladimir Palmeira, Fernando Gabeira e Carlos Alberto Muniz, entre outros, que mais tarde se denominará Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e que defendia a revolução socialista.
No MR-8, Airton tinha a função de fazer os levantamentos para as possíveis ações. Havia os militantes destacados para o trabalho interno e externo. Interno era aquele deslocado para um bairro para morar. Fazia somente trabalho político, não participava de quaisquer ações, nem mesmo uma panfletagem. Quando havia necessidade de alguma ação, chamava-se o grupo de trabalho externo. Airton recorda-se que Luiz Antônio Santa Bárbara era, em 1969, o dirigente do trabalho político dos Alagados em Salvador. Neste ano, houve a necessidade de uma distribuição de panfletos próxima ao Porto de Tainheiros, e Airton foi encarregado de fazer o levantamento, e o fez, à noite. Não percebeu que a ponte que desenhou ficava dentro de um manguezal, e os militantes do trabalho externo, depois de panfletarem várias ruas, seguindo o mapa de Airton, de repente depararam-se com água em vez de ponte, e tiveram que voltar sobre os próprios passos, correndo o risco de serem surpreendidos pela repressão.
Uma semana antes de ser preso, Airton foi informado de que passaria a ser clandestino. Preso em 22/4/1970, consegue forjar um álibi, que funciona (ver capítulo XII, 4/12/1999). Do Barbalho, onde ficou aproximadamente duas semanas, foi transferido para o Quartel dos Fuzileiros Navais, na Cidade Baixa, onde, passado pouco tempo, viu chegarem Gustavo Falcón e Antônio Risério, soltos dois meses depois. Teve medo quando um dia, ainda no Fuzileiros, foi tirado da cela e levado à sala do comandante. Lá estavam dois cariocas, um do Serviço Nacional de Informações (SNI), outro do Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna) do Rio de Janeiro. Airton entrou, e os dois simplesmente mandaram o comandante sair da sala. Sentiu que a barra ficara pesada.
Mostraram-lhe um álbum cheio de fotografias. Não reconhecia ninguém. Tomou alguns tapas. Um deles, então, disse-lhe:
- Está vendo isso aqui? São duas passagens, uma minha, outra sua. Você vai comigo, e lá, bem, lá você sabe como é que é...
- Mas eu não sei de mais nada...
- Um cara que está preso lá disse que conhece você.
Airton, então, resolveu arriscar:
- Então, você me leva, faz a acareação, e vou provar que é mentira.
- Então se pepare, que você vai comigo para o Rio de Janeiro.
Airton voltou para a cela. E começou uma intensa tortura psicológica. Vinha um soldado e o avisava que dali a pouco ele iria viajar. Dali a minutos, vinha outro e dizia novamente: que se preparasse. Um suplício. Um dia inteiro de tensão. E de uma insuportável diarréia.
No dia seguinte, às 23 horas, o grito:
- Quem é Airton?
Apresenta-se e recebe a ordem:
- Junta tudo que tiver, que você vai ser transferido.
Não sabia o destino. Tiraram-no da cela, levaram-no para uma espécie de hall, onde deparou-se com cinco homens, de paletó, todos armados, que o algemaram, e o sargento de plantão disse-lhes:
- O preso está entregue.
Subiu numa Kombi e perguntou:
Para onde vocês estão me levando?
- Fique calado. Logo você saberá para onde.
Saíram do quartel, passaram pelo túnel que dá acesso ao Bonocô, e seguiram, pegando a estrada Salvador-Feira. Airton começou a ficar assustado. À altura de Brasilgás, a Kombi desvia-se à direita, para uma estrada escura. "É aqui que vão me matar", pensou Airton, mas logo viu uma luz ao longe. "Menos mal. Se tiver gente, não vão barbarizar". Logo viu-se à frente da Penitenciária Lemos Brito, na Mata Escura, que não conhecia. Pensou tratar-se de alguma unidade militar. Foi conduzido à Galeria F, na parte superior da prisão...

 

Todos os capítulos - Série 3
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Capítulo 6
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Capítulo 5
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Capítulo 4
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Capítulo 3
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Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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