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Lembranças
do mar cinzento (XVII)
Airton Silva Ferreira Filho chegara à Penitenciária Lemos de Brito, na Mata
Escura, na periferia de Salvador. Era agosto de 1970. Um ano intenso, aquele.
Quase podia dizer com Poe que "tinha sido um ano de terror e de sentimentos
mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na Terra". ("Sombra
Parábola", conto de Edgar Alan Poe, A TARDE Cultural, 27/11/1999, p.12). Estar
ali, depois do susto da saída do Quartel dos Fuzileiros Navais, no meio de outros
companheiros, era como sair do inferno e adentrar o paraíso. Ali encontrou,
não, ainda não vou começar a contar a história da Galeria F, onde ficamos muitos
de nós, por anos a fio. Vamos contar um pouco mais da Dissidência do Rio de
Janeiro, depois MR-8, na Bahia. E a partir da experiência do irmão de Airton,
Juca Ferreira - João Luiz Silva Ferreira.
Juca chegou à política muito cedo, influenciado pela Rádio de Havana, que era
ouvida em sua casa. Aprendeu espanhol e se politizou. Do espanhol, guardou a
impressão de que era uma língua apropriada para a emoção política, para entusiasmar
as massas. À tarde, depois das aulas, gostava de se esconder na biblioteca do
pai, e aí era muito Marx, Engels, Trotsky. E a casa dele era freqüentada por
muitos nomes importantes da esquerda baiana. Não foram poucas as vezes em que
viu Pedral Sampaio, Euclides Neto e dirigentes do PCB circulando em sua casa.
Airton foi expulso em 64, mas ele continuou no Colégio Militar. Viu sargentos
amigos serem presos, o professor Goulart também. Viu os militares queimando
os livros de uma lista que tinham considerado maldita. E isso motivou as suas
primeiras ações expropriatórias. Ele, mais o filho do comandante do 19º Batalhão
de Caçadores (19º BC) e um colega que hoje é médico roubavam livros na Livraria
Pindorama, na Avenida Sete, escolhidos entre os integrantes da lista maldita,
para colocá-los de volta à biblioteca do Colégio Militar.
Quando chegou ao Central para fazer o último ano colegial, em 1966, já estava
pronto para os grandes embates políticos que viriam. O ambiente familiar facilitou
essa formação. Lembra-se de que quando chegou, em 1967, a luta no Central estava
em descenso, mas discutia-se ainda toda a movimentação em torno da peça de Carlos
Sarno. Logo, no entanto, o colégio será sacudido pela luta contra a Lei Orgânica
e contra o Acordo MEC-Usaid.
Juca, desde o final de 1966, pertencia ao PCB. Tinha sido recrutado em dezembro
de 1966, antes de sair do Colégio Militar. O recrutamento foi feito por José
Carlos Prata, numa conversa no Pelourinho. Chegou ao Central com a tarefa de
ajudar na reconstrução do trabalho cultural, abalado com a repressão decorrente
da movimentação gerada pela peça de Carlos Sarno - Aventuras e Desventuras de
um Estudante, da qual já falamos bastante em capítulos anteriores. O trabalho
inicial era feito em pequenas reuniões. Discutia-se estética, lidava-se com
autores como Erich Fromm, Marcuse, Sartre, Brecht, Ibsen. Ninguém sabia que
ele era do PCB. Quando começou a movimentação em torno da Lei Orgânica, o PCB
pretendeu que Juca se transformasse num líder de massas, e o orientou a falar
na primeira assembléia que houvesse. Foi um desastre: falou tão mal que o diretor
da escola, que estava presente, pediu aos estudantes que abrissem uma exceção
para ele, e o deixassem falar de novo para que pudesse expressar melhor o que
queria dizer. Só mais tarde, após muitos tropeços, aprendeu a oratória destinada
a públicos maiores.
Foi eleito secretário político da Direção Secundarista do PCB, o que não era
pouco naquele tempo. Ele identificava, à época, no PCB, a existência de três
grupos: um, oficial, que defendia a transição pacífica, a revolução por etapas,
o atrelamento incondicional à URSS; outro, a Dissidência, ainda dentro do partido,
com Carlos Sarno, Marie Helène Russi, Jurema Valença, Nemésio Garcia, e o que
ele chama de descontentes, entre os quais ele próprio se incluía. Estes não
investiam no rompimento, como o grupo de Sarno. A ruptura, entendiam, deveria
ser uma conseqüência, não uma meta. Os dissidentes, ao contrário, já trabalhavam
para compor uma alternativa revolucionária. A direção do PCB enfrentava as dissidências
e os descontentamentos com as armas de que dispunha, e, segundo Juca, montou
uma direção paralela, com Sérgio Santana à frente, para fazer frente àquela
turbulência.
Quando veio a grande movimentação do final de 1967, Juca revela que já começava
a ficar claro que o caminho era o do rompimento. Em vez de ir para a universidade,
ele vai para a Escola Técnica Federal da Bahia com o claro objetivo de fazer
trabalho político. Lá, ele, mais Césio Oliveira, Denilson Vasconcelos e outros
companheiros desenvolveram uma intensa atividade contra o autoritarismo. Era
um estabelecimento militarizado. O grêmio era dirigido por um sargento da Aeronáutica.
Os funcionários eram tratados sob o tacão de uma disciplina tipicamente militar.
Os conteúdos pedagógicos eram duramente censurados. Afinal, ali se preparava
a classe operária moderna, e os controles tinham que ser mais rigorosos.
Logo no início de 1968, Juca e seus companheiros chegaram muito cedo à escola,
com um cadeado gigante à mão e trancaram o portão. Ele, Césio Oliveira e Denilson
Vasconcelos subiram no muro e disseram aos estudantes: estavam em greve contra
aquele autoritarismo absurdo. Foi uma adesão total, a primeira manifestação
estudantil de 1968, com a solidariedade integral dos funcionários. E outras
escolas começaram a manifestar apoio. Fundou-se o jornal O Trabalho, e a chapa
para o grêmio, encabeçada por Césio Oliveira, foi eleita com 90% dos votos.
Destampou-se a energia reprimida da escola: surgiram grupos de dança, demandas
da negritude, os estudantes começaram a freqüentar as assembléias gerais do
movimento estudantil.
Logo que o grêmio foi eleito, um aluno da escola procurou Juca, e deu o aviso.
Era policial, estava ali estudando e trabalhando. Produzia relatórios. Que não
desse muita bandeira, senão poderia escrever coisas que o comprometessem, o
que não tinha ocorrido até ali, tipo "apesar de tudo, não quero lhe prejudicar".
Anotou. Juca ganhou status no movimento estudantil. Nas assembléias gerais,
já desenvolto diante de multidões, falava em nome da Escola Técnica. De alguma
forma, em nome dos operários, pois ali se preparavam os futuros profissionais
do Pólo Petroquímico e do novo parque industrial que começava a se formar no
estado. E já nessas assembléias, nas movimentações de massa, Juca começava a
defender a luta armada como meio para a realização da revolução brasileira.
O grupo de Sarno, no entanto, rompeu antes com o PCB. Só no segundo semestre
de 1968..., e nos reencontraremos no capítulo seguinte.
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