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Lembranças
do mar cinzento (XVIII)
A Dissidência Universitária do PCB já se formara desde 1967 com Carlos Sarno,
Jurema Valença e Marie Helène Russi, para citar os nomes mais conhecidos, quando
os secundaristas decidiram também romper com o Partidão. João Luiz Silva Ferreira
(Juca), então na Escola Técnica, foi uma das lideranças desse rompimento. Já
discutiam antes com o grupo dissidente, mas demoraram mais para decidir. Saíram
no segundo semestre de 1968. E como o primeiro grupo, os secundaristas, numerosos,
começaram a discutir sobre qual organização revolucionária deveriam aderir.
Optaram pela Dissidência do Rio de Janeiro, onde militavam lideranças estudantis
conhecidas, como Wladimir Palmeira, Fernando Gabeira, Carlos Alberto Muniz e
Franklin Martins.
A opção devia-se ao fato de que a Dissidência do Rio de Janeiro, que se vai
transformar em Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), tinha uma visão
menos militarista, mais próxima da idéia de que o prioritário devia ser o trabalho
político. Defendia que as ações armadas deviam ser usadas em função da luta
de massas, o que não quer dizer que necessariamente conseguirá levar isso à
prática, nem que não incorresse nos erros do foquismo, que criticava.
Franklin Martins, hoje jornalista da Globo, vinha com freqüência do Rio de Janeiro
para dar assistência aos novos militantes, entre os quais podem ser lembrados
Sérgio Furtado, preso em julho de 1972 no Rio de Janeiro, assassinado e integrante
da lista de desaparecidos da época do terror ditatorial, e Luiz Antônio Santa
Bárbara, que perdeu a vida quando do cerco a Carlos Lamarca, em Brotas de Macaúbas,
em 1971.
Quando veio o AI-5, em dezembro de 1968, o diretor da Escola Técnica Federal,
Valter Porto, chamou Juca e algumas outras lideranças e disse:
- Não quero prejudicar vocês, nem quero me prejudicar. Esses senhores que estão
aí na sala de espera são da Polícia Federal. Sabem de tudo que ocorreu aqui
na escola. Ou vocês assinam um documento cancelando a matrícula e saem agora
da Escola Técnica, ou vão entrar num processo que a Polícia Federal fará, e
cujas conseqüências eu não posso prever.
Todos preferiram cancelar a matrícula, uns oito. Juca passou no vestibular de
História. Desligou-se do movimento estudantil.
Lembra-se de um dia que estava reunido com um grupo de pessoas em Alagados.
Já sabia que a Organização faria uma grande ação naqueles dias, no Sul do País:
- Eu pego o ônibus de volta, e de repente algumas pessoas começaram a cantar
"Olê, olê, olê, olá, seu Marighella está botando pra quebrar".
Juca vibrou. Soube ali, pelos populares, que o embaixador americano, Charles
Burke Elbrick, havia sido seqüestrado. Pela Organização a que pertencia, em
parceria com a ALN de Marighella. Era setembro de 1969. Carlos Marighella será
assassinado exatamente dois meses depois, em São Paulo, num cerco montado e
comandado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Usava a fazendinha do pai entre Alagoinhas e Araçás para treinamento de tiro
com os companheiros. Sem que o pai soubesse. Cláudio Torres, um dos dirigentes
da Organização, era o mestre, vindo do Rio de Janeiro. Juca não tinha problema:
no Colégio Militar tinha uma das melhores médias de tiro. O mesmo não se podia
dizer, segundo Juca, de Renato da Silveira ou João Reis, hoje professores de
prestígio na Bahia, e que também freqüentavam a propriedade rural do pai de
Juca, que não entendia por que os meninos gostavam tanto de passar os fins de
semana naqueles ermos.
Na ida para um desses treinamentos, um acidente com o carro que os conduzia
matou Virgínia Carneiro. Sérgio Furtado conseguiu escapar vivo do desastre.
A partir dali, vários militantes tiveram que se tornar clandestinos, entre os
quais, além de Furtado, Juca e Santa Bárbara. Alguns, como Juca, para uma clandestinidade
heterodoxa: uma casa em Arembepe, cedida por Ildásio Tavares e Fernando Batinga.
A situação apertou para Juca. Anteriormente, apesar da militância política,
mantinha-se na legalidade e descolava um dinheirinho como assistente do professor
Istvan Jancsó. Depois de Arembepe, foi para uma casa precária no bairro da Liberdade,
que se tornou um aparelho freqüentado por muitos militantes da Organização.
Um precário aparelho, diga-se: num dia de chuva mais intensa, e a imensidão
de documentos clandestinos viu-se arrastada pela enxurrada que levava tudo.
O irmão de Juca, Airton Ferreira, foi preso, e isso já está registrado nessa
série. Juca, apesar de todos os riscos, o visitava, e o diretor da prisão chegava
a dar carona para ele quando saía das visitas. "Você é um bom menino. O problema
é seu irmão, que é um subversivo".
Ainda dava-se ao luxo de, às vezes, dormir no apartamento dos pais, no Canela,
na Rua Marechal Floriano. E foi numa dessas ocasiões que a polícia apareceu.
O dia mal raiava. A campainha tocou, ele olhou pelo olho mágico, e não teve
dúvidas de quem se tratava. Já conhecia todos os tiras. Sem pestanejar, disse
à mãe:
- Eu só tenho um documento da Organização aqui comigo. Bota na sua calcinha,
e depois que eu for preso, procure Lúcia Santana, com quem tenho um ponto marcado
ainda hoje, e avise que caí.
Era outubro de 1970, e para azar dele imediatamente após a prisão de Theodomiro
Romeiro dos Santos e Paulo Pontes. Dessa prisão e dos acontecimentos que se
seguiram falamos nos primeiros capítulos. A barra estava pesada. Soube depois
que ele tinha sido aberto por Marcos Dantas, ex-militante que tinha buscado
refúgio na Bahia e que estava trabalhando na Tribuna da Bahia por indicação
do próprio Juca. A repressão o localizou, e ele deu todas as pistas sobre Juca
sem que a repressão precisasse se esforçar muito.
Agora, era enfrentar. O carro o levou, e quando dobrou em direção à Avenida
do Contorno, e Juca divisou o mar à sua frente, diz ter tido uma de suas maiores
experiências místicas.
- Era de manhã, muito cedo, e eu, de súbito, senti tudo sob controle. Tomei
ali, na curva que chega à Contorno, a decisão de que não tirariam nada de mim.
Foi o impacto do mar azul.
Chegou à Polícia Federal num ambiente de terror... e nos reencontraremos no
próximo capítulo.
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