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Lembranças
do mar cinzento (XIX)
João Luiz Silva Ferreira (Juca) chega preso à Polícia
Federal, na Cidade Baixa, em Salvador, naquele outubro
de 1970, um dia após a prisão de Theodomiro Romeiro
dos Santos e Paulo Pontes. Era tortura para todo lado.
Gritos e sussurros. Choro e ranger de dentes. Juca lembra-se
de um sapateiro negro, que a repressão dizia ligado
ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).
Os policiais do coronel Luiz Arthur de Carvalho, então
superintendente da Polícia Federal, apagavam cigarros
no corpo dele, sadicamente. Sentia a diferença de tratamento.
Com ele, alguns tapas, ameaças, mas não aquele nível
de tortura. De repente, o coronel desceu, e exibiu uma
foto, para amedrontá-lo:
- E eu vi o rosto de Paulo Pontes coberto de sangue,
os olhos inchados, desfigurado. E as mãos de Luiz Arthur
também inchadas, de tanta porrada que havia dado.
Os policiais iam e vinham, chegavam trazendo mais gente,
muitos deles comandados pelo capitão Gildo Ribeiro,
da Polícia Militar, e que trabalhava sob as ordens do
coronel. Ribeiro disse a Juca que conhecia o pai dele,
que "era homem direito". Era um ir e vir constante de
policiais, o que, num primeiro momento, até facilitou
a vida de Juca, pois eles estavam mais preocupados com
os militantes do PCBR. Os policiais do Rio de Janeiro
que haviam desembarcado na Bahia gritavam alto e bom
som que os tiras baianos eram inexperientes. De repente,
Juca é colocado na mesma cela com Marcos Dantas e a
mulher dele. Resolve jogar duro:
- Ou vocês mudam a história, ou vão passar por um tribunal
da Organização. Quando forem para a acareação digam
que o problema não é comigo.
Os dois se assustam com Juca, e quando o coronel volta
a interrogá-los, eles induzem o coronel a pensar que
o homem que procuravam era Júlio, irmão de Juca, e que
a esta altura já estava na França. Quando Luiz Arthur
voltou a falar com Juca, disse-lhe que ele estava protegendo
o irmão. A ameaça aos dois dera certo. Foi levado para
o Quartel dos Fuzileiros Navais. O coronel Luiz Arthur,
que tinha relações de amizade com uma pessoa da família
de Juca e que havia sido professor dele no Colégio Militar,
avisou o oficial de dia:
- Estou entregando um preso da Polícia Federal. Ele
só pode ser interrogado pela Polícia Federal.
A ordem do coronel, neste caso, adiantou pouco. Juca
sofreu muito no Quartel dos Fuzileiros Navais. Um sargento
não gostou que ele jogasse xadrez com os outros presos,
com "pedras" confeccionadas com miolo de pão, e infernizou
a vida de Juca. Primeiro, mandou raspar o cabelo de
todos os presos. Segundo, mandou um cabo para perturbá-lo.
O cabo, treinador de cães, levou um cachorro grande
para a cela de Juca, e deixou-o lá: o cachorrão olhando
para Juca, Juca olhando para ele, uma eternidade e um
medo do tamanho do mundo. Não havia para onde escapar.
O cão não lhe fez nada, felizmente. O mesmo cabo passou
uma semana jogando água na cela para que ele não pudesse
deitar.
Um dia, recebe uma visita de surpresa. Era o professor
István Jancsó, que, logo que sentou, disse-lhe baixinho:
- Me peça cigarro.
Passou-lhe um maço. Juca não fumava, mas acendeu um,
e István completou, sussurrando:
- Num desses cigarros tem uma mensagem. Você será trocado
por um embaixador.
Juca apavorou-se. Estava para ser solto, já tinham aceito
que o responsável por tudo era Júlio. O bilhete era
de Lúcia Murat, dirigente da Organização. Parabenizava-o
pelo comportamento. Tivera informações por Temístocles
Argolo, simpatizante do MR-8 que trabalhava na Polícia
Federal. E Lúcia dava a notícia do seqüestro e da possibilidade
de ele sair. Com Juca, estava preso Paulo Roberto Alves,
da direção do MR-8. Propôs, num bilhete levado pelo
pai, que Alves, que ainda estava sendo torturado, e
não ele, fosse incluído na lista dos que sairiam em
troca do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher. E assim
foi feito. Diga-se que o Cenimar não acreditava na história
de Juca. Achava que Luiz Arthur estava equivocado de
aceitar a versão da culpa de Júlio e da inocência de
Juca.
Foi solto. Toda quinta-feira era obrigado a comparecer
na sede da Polícia Federal para assinar o ponto. Voltou
a ter uma vida normal, aconselhado pelo MR-8 a ficar
sem qualquer contato e ir a festas, divertir-se, desenvolver
a rotina de um cidadão comum. Até que, na Festa do Bonfim,
janeiro de 1971, chega um recado: ligue para sua advogada
imediatamente. Acordou Ronilda Noblat na madrugada,
e ouviu dela a advertência:
- A Polícia Federal está atrás de você. Um militante
caiu, passou para o outro lado, abriu tudo. Cuide-se.
A tese do Cenimar mostrava-se verdadeira, e Luiz Arthur,
no caso, ficou enfraquecido. Na festa, estava com Emanuel
Macedo, e foi para a casa dele, em Cosme de Farias,
onde morava com José Crisóstomo de Souza. Seguiu para
o Rio de Janeiro, e para não se expor na Rodoviária,
pediu a Crisóstomo que o levasse no seu Fusca até um
trecho de Salvador-Feira, e lá ele tomaria o ônibus,
como fez.
No Rio, encontra-se com Carlos Alberto Muniz, Stuart
Angel e Nelson Rodrigues Filho. Era contra a luta armada,
e já tinha escrito sobre isso. Mas o partido o integra
no grupo de fogo, e ele passa então a desenvolver uma
infinidade de ações armadas: bancos, fábricas, supermercados,
expropriações variadas. Em 1973, é surpreendido pelo
golpe chileno, para onde havia ido discutir com os companheiros
do exílio a tese de que a luta armada não era mais o
caminho, tese que já havia conquistado a maior parte
da Organização no Brasil. Vai então para a Suécia, de
onde só voltaria com a anistia.
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