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Lembranças do mar cinzento (II)

O inferno era ali, no Quartel do Barbalho. É muito difícil recuperar sensações, todo o sofrimento que marca a passagem pela tortura. Por mais de 28 anos, tenho resistido à idéia de escrever sobre isso. E nem sei se consigo, passado tanto tempo. A tortura é naturalmente um gesto político e perpassa a história da humanidade. Ela sempre encerra alguma justificativa por parte do poder. Já vazaram documentos da ditadura, justificando a tortura. Era um método para tirar informações, e ponto final. E ela fazia isso metódica, friamente. Tinham homens dispostos a isso. Eles queriam derrotar os seus inimigos, que éramos nós, e os fins justificavam os meios. Essa reflexão política já foi feita. O meu problema é enxergar a tortura do ângulo do sofrimento humano, da solidão humana, dos dilemas a que cada um é submetido neste momento quase indecifrável, que, se não é uma reflexão totalmente apartada da dimensão política, constitui um terreno muito especial.
Você nos dá um endereço, um só, e nós tiramos você do pau-de-arara, você bebe uma coca-cola, e tudo se acaba!
Parece incrível que eu tenha ouvido isso dependurado no pau-de-arara, mas ouvi. Não só isso. Enquanto os torturadores exerciam o seu ofício, entre um choque e outro, eu nu, dependurado, a conversa entre eles corria como se tudo ali fosse apenas o cumprimento de um ofício profissional. Ouvi um deles dividir suas apreensões com os demais:
- Estou preocupado. Minha mulher vai ser operada hoje.
Imediatamente, ele mesmo gritava, ao tempo em que acionava a máquina de choque:
- Fala, filho da puta! Onde estão os outros?
O meu corpo estremecia a cada choque, e os choques são tão agressivos que, quando param, o pau-de-arara chega a ser suave, embora isso seja apenas uma forma de dizer. Quando era retirado para a cela, minhas pernas não se moviam. Pareciam paralelepípedos, tinha de ser carregado, não conseguia andar. Eu mantinha a posição defendida por meu partido: nada dizer. Hoje, pensando nisso, imagino que, no Brasil, algumas organizações, a AP entre elas, cometeu um erro grave ao jogar a segurança delas quase que exclusivamente nas costas de cada militante. Afinal, ou o sujeito transformava-se num quase herói, vivo ou morto, porque nada revelara, ou então falava, e quando falava, alguma coisa que fosse, em geral sofria uma condenação desproporcional aos efeitos de sua confissão. As organizações revolucionárias de vários países sempre deram algum tempo - um número de horas - para que seus militantes pudessem então falar, tempo que permitia a elas esvaziar os locais que poderiam ser abertos.
O psicanalista Hélio Pellegrino diz que a tortura nunca é mero procedimento técnico destinado à coleta rápida de informações - é também isso, mas nunca apenas isso. Ela é a expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, para usar as palavras dele. Ela visa à destruição do sujeito humano. À custa de um sofrimento corporal inimaginável, teoricamente insuportável, a tortura pretende separar corpo e mente, instalar uma guerra entre um e outro, semear a discórdia entre eles. O corpo torna-se um inimigo - ele, com sua dor, nos atormenta, nos persegue. A mente vai para um lado, o corpo sofrido para outro. Este quer o término da dor. A mente diz que não ceda. O corpo pede o fim do suplício. A mente diz que deve agüentar. E se não há solidariedade entre corpo e mente, como diz a sabedoria psicanalítica de Hélio Pellegrino, ficamos expostos ao sol e à chuva, ao desabrigo absoluto, sem chão, entregues às ansiedades inconscientes mais primitivas.
Digo tudo isso com a tranqüilidade de quem resistiu, mas sem nenhum orgulho e com a convicção de que todos nós, que enfrentamos a tortura, vivemos essa contradição entre o corpo e a mente. Nossa racionalidade revolucionária sempre pediu que nada disséssemos. Nosso corpo destroçado pedia desesperadamente para que fosse encontrada alguma solução para o fim do tormento. O corpo torna-se um adversário poderosíssimo, do qual não podemos fugir, senão pela morte. Lembro-me que nos momentos mais angustiantes, quando a dor aproximava-se do insuportável, eu torcia para um desmaio, para um não-ser, para o silêncio, para o apagamento. Sei por que tantos tentaram o suicídio. O texto de Pellegrino, que li, não por acaso, está no livro sobre o martírio de Frei Tito, que se matou na França, perseguido pela sombra de seu torturador, o carrasco Sérgio Paranhos Fleury.
Há um outro lado nessa história, no entanto. O torturador, quando é bem- sucedido, passa a alimentar-se de um cadáver - a imagem, apropriada, ainda é de Pellegrino. A confissão do torturado significa o seu assassinato enquanto pessoa - ele tem nas mãos os despojos de um sujeito humano. Ele vive da morte e na morte, isto quando da melhor hipótese para ele, que é quando ele consegue retirar alguma coisa de sua vítima. Pior é quando a vítima não fala. Se a vítima se nega a morrer - em outras palavras, se se impõe pelo silêncio -, morre o torturador, para perseguir a metáfora poderosa de Pellegrino. O regime que o torturador serve é momentaneamente vitorioso quando se conseguem as informações pretendidas. Ele, no entanto, como pessoa, nunca é vitorioso. Está condenado, insista-se, a viver dos destroços de uma pessoa humana, cindida pela violência, ou sob o espectro de um sujeito que não se rendeu, apesar da tortura. De alguma forma, vi e vivi tudo isso de perto no Quartel do Barbalho. E mais tarde também, quando um dos meus torturadores foi à Penitenciária Lemos Brito me pedir perdão, o que será contado mais à frente.

Todos os capítulos - Série 3
Capítulo 40
Waldir Pires
Capítulo 39
Waldir Pires
Capítulo 38
Waldir Pires
Capítulo 37
Waldir Pires
Capítulo 36
Waldir Pires
Capítulo 35
Waldir Pires
Capítulo 34
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Capítulo 33
Waldir Pires
Capítulo 32
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Capítulo 31
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Capítulo 30
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Capítulo 29
Waldir Pires
Capítulo 28
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Capítulo 23
Waldir Pires
Capítulo 22
Waldir Pires
Capítulo 21
Waldir Pires
Capítulo 20
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Waldir Pires
Capítulo 17
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Capítulo 11
Waldir Pires
Capítulo 10
Waldir Pires
Capítulo 9
Waldir Pires
Capítulo 8
Waldir Pires
Capítulo 7
Waldir Pires
Capítulo 6
Waldir Pires
Capítulo 5
Waldir Pires
Capítulo 4
Waldir Pires
Capítulo 3
Waldir Pires
Capítulo 2
Waldir Pires
Capítulo 1
Waldir Pires
Índice - Série 1 -Personagens
Emiliano José
1 2 3
Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes 4 5 6 7
Rui Patterson 8 9 10 11
Carlos Sarno 13 14 15
Airton Ferreira 16 17
Juca Ferreira 18 19  
Jurema Valença 20 21 22 23
Othon Jambeiro 24 25 26 27 28 29
Fernando Alcoforado 30
Índice - Série 2 - Personagens
Sergio Gaudenzi 1 2 3 4
Péricles de Souza 5 6 7 8
Mário Alves de Souza 9 10 11
Everardo Publio de Castro 12 13 14 15
Nudd David de Castro 16 17 19 20 21
Mário Lima 22 23 24 25 26 27 28
Luís Contreiras 29 30 31 32 33

 

 
 
 
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