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Lembranças
do mar cinzento (XXI)
Era setembro de 1970 quando os policiais da Operação Bandeirantes (OBAN) chegaram
à casa onde Carlos Sarno e Jurema Valença moravam. Jurema estava só. Claro que
ela pensava nisso, refletia sobre a repressão, quase que esperava o dia em que
isso iria ocorrer. Mas é sempre um choque, um terrível choque. Isso, no entanto,
não a desintegrou. A violência, os gritos, os xingamentos, não lhe tiraram o
controle. Teve frieza suficiente para, em meio à balbúrdia de tantos tiras,
acender a luz externa da porta da casa. Era a senha combinada com Sarno para
indicar a presença da repressão.
Quando foi chegando perto de casa, Sarno viu a luz acesa, e isso o pôs imediatamente
numa atitude de alerta total. Também para ele era uma situação imaginada, como
se um dia tivesse fatalmente que ocorrer. Parou, olhou atenciosamente o entorno.
Não parecia haver nada de anormal. Sabia, entretanto, que entrar era contrariar
a segurança, e com isso não se podia brincar. Foram momentos angustiantes. Por
fim, decidiu entrar. Friamente, uma decisão insensata. No fundo, no fundo, as
razões para desobedecer às normas de segurança eram as do amor e da solidariedade.
Acaso a polícia estivesse de fato em sua casa, como estava, não era justo deixar
sua companheira segurando a barra sozinha. Assim pensou, assim agiu. Jurema,
quando o viu, sentiu-se triste e forte. Não o queria preso, claro, mas ele ali
dava-lhe forças para resistir.
Sabiam que dali iriam direto para a OBAN, de triste memória. Ao leitor não familiarizado
com a história desse organismo, digo duas ou três palavras. Ao que a conhece,
relembro.
São Paulo vinha sendo uma espécie de laboratório da repressão no combate às
organizações da esquerda armada, sobretudo após o AI-5, de 13 de dezembro de
1968. Em 1º de julho de 1969, a OBAN foi criada oficialmente, por iniciativa
do general José Canavarro Pereira, comandante do II Exército. Instalada na Rua
Tutóia, nas proximidades do Ibirapuera, na capital paulista, transformou-se
na mais célebre e monstruosa casa de torturas e assassinatos da ditadura. Pode-se
dizer que a partir daí o Exército entrou de corpo inteiro no combate às forças
de esquerda e principalmente, naquele momento, às que se dispunham a desenvolver
a luta armada. O primeiro comandante da OBAN foi o tenente-coronel do Exército
Waldyr Coelho. Em 1970, Coelho recebe a Medalha do Pacificador, o que, visto
historicamente, só pode ser entendido como ironia. Um dirigente da tortura recebe
a medalha de pacificador.
Em 1970, a OBAN, embora ainda conhecida como tal, já está mais legalizada, enquadrada
pelo Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa
Interna (DOI-CODI). Funciona ainda como OBAN, mas ao colocá-la sob a jurisdição
do DOI-CODI, pretendia-se diminuir a sua autonomia, o que não adiantará muito,
como se verá mais tarde, sob o governo Geisel, mas essa é outra história, a
ser contada mais à frente. Em 1970, quem comanda a OBAN – oficialmente o DOI-CODI
– é o tristemente famoso Carlos Alberto Brilhante Ustra, major de artilharia
do Exército, conhecido também, nas rodas da tortura, pelos codinomes de Major,
Doutor Silva e Doutor Tibiriçá. Este oficial-torturador também recebeu, em 1972,
a Medalha do Pacificador.
Sarno e Jurema, quando são jogados algemados no camburão e têm a oportunidade
de ficar sozinhos na parte de trás, trocam algumas palavras de carinho. Dizem
confiar um no outro. E isso foi muito importante para enfrentar a tortura que
viria, que eles sabiam que viria, e que seria, como tinham plena consciência,
barra pesada. Iriam desembarcar na sucursal do inferno, expressão cunhada pelos
próprios integrantes da OBAN. Aqueles poucos minutos de fortalecimento mútuo
foram essenciais.
– Vai ser duro, mas nós vamos agüentar – disse Jurema.
– Vamos – garantiu Sarno, olhando fundo nos olhos tristes mas firmes e serenos
de sua companheira.
O primeiro a recebê-los foi o capitão de Artilharia do Exército, Homero César
Machado. Conhecido simplesmente como capitão Homero, era o chefe da equipe de
interrogatório da OBAN de então (ou do DOI-CODI, como se queria). Mais tarde
receberá, como prêmio por suas qualidades de torturador, a Medalha do Mérito
Policial.
O capitão Homero gostava de explicar suas razões. Eram razões de Estado. Pareciam
impessoais. E dava a impressão de que não professava nenhuma ideologia. Só a
do poder.
– Estou aqui como funcionário do Estado. Farei tudo o que for necessário para
retirar as informações de que o Estado necessita.
Era uma ideologia, como se vê.
Argumentava friamente que não havia outro jeito. Só a tortura era capaz de dar
cabo da tarefa de extrair informações dos dois.
– Vocês, pela importância que têm, terão que me dar informações. E por isso
têm de ser torturados.
E quase como um consolo, costumava dizer:
– Se vocês fossem governo, estaria a serviço de vocês.
E não se tratava apenas da tortura direta. Um dos maiores tormentos para os
dois era ver Carlos Franklin Paixão de Araújo, o principal dirigente da Var-Palmares
em São Paulo, quase irreconhecível devido às torturas que havia sofrido. Além
de muito torturado, ele, no desespero, havia tentado o suicídio, jogando-se
embaixo de um caminhão. Era, assim, um torturado-atropelado, o que por si só
indica as condições em que se encontrava. Lúcido, Araújo, quando viu Jurema,
à sua frente, levada pelo capitão Homero, disse, tentando livrá-la:
– Tira a Maria disso, coitada. Ela não sabe de nada.
O nome dito por ele indicou a Jurema que ela já estava identificada pelo seu
codinome. Araújo, a um só tempo, tentava inocentá-la e passar-lhe a informação
de que o nome frio dela já fora aberto: Maria. Quando ele falou, ela lembrou-se
de quando chegou à OBAN e o interrogatório se iniciou:
– Qual o seu codinome?
– O que é codinome?
Levou um violentíssimo tapa na cara. E percebeu...
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