|
Lembranças
do mar cinzento (XXII)
Jurema, depois de levar um tapa na cara, que lhe deixou a face direita em chamas,
percebeu que não era possível brincar na sucursal do inferno. Não podia fingir-se
de inocente. Na Oban, se fosse para enrolar, tinha que fazer bem, de modo competente.
Depois de algumas horas de tortura, Jurema e Sarno conseguiram identificar uma
específica divisão de trabalho entre as equipes: uma dedicava-se basicamente
a torturar, a bater, a espancar, pau puro. Outra, torturava mas também conversava.
E a última, só conversava.
Um terrível organismo de repressão: combinava a violência com a inteligência.
Os oficiais-torturadores tinham aprendido a torturar e a colher informações
em centros mais adiantados como os EUA, a Alemanha, a Inglaterra e Israel. Isso
foi revelado pelo general Ênio dos Santos Pinheiro, que organizou a Agência
Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) e criou a Escola Nacional de
Informações (EsNI), conforme relato em “Marighella, o inimigo número um da ditadura
militar” (São Paulo: Sol & Chuva, 1997).
Jurema e Sarno compreenderam que ali o prisioneiro que dizia simplesmente “não
digo nada” estava condenado à morte. Então, o caminho seria o da esperteza,
ganhar tempo, abrir o que eles já sabiam, segurar o essencial. Ao menos foi
este o caminho que escolheram naquelas circunstâncias.
As torturas eram o pau-de-arara, o choque elétrico nas mãos, nos pés, na genitália,
além dos murros, pontapés, agressões de variada natureza. Ali funcionava a cadeira
do dragão – de assento e espaldar de aço, cintas de couro para prender os pulsos
do torturado e uma espécie de trava para imobilizar as pernas, ela elevava ao
limite a potência dos choques aplicados à vítima. Lembro de um depoimento que
me foi dado por Alípio Freire (e que está também no meu livro sobre Marighella),
preso em 1969 sob a acusação de pertencer à Ala Vermelha, uma organização revolucionária.
– Quando nos “plugavam” na cadeira do dragão, além do tranco e tudo o mais,
podíamos ver fagulhas percorrendo partes dos nossos corpos.
Ali, se a metáfora cabe, sentia-se na pele o fogo do inferno. O fogo e as dores
do inferno.
Sarno lembra-se da dor indescritível que era o fio enfiado na uretra e a máquina
de choque sendo acionada. E não podia demonstrar que essa dor era muito maior
do que quando eles davam choques em outras partes do corpo porque senão eles
insistiriam naquele ponto.
Jurema argumentava que tinha escoliose, reclamava muito disso, e vez por outra
os torturadores diminuíam a intensidade dos choques. Nunca paravam, no entanto.
E queriam informações, informações, informações... Jurema recorda o que eles
repetiam quando ela estava na cadeira do dragão:
– Você só levanta daí se vier outro para sentar em seu lugar.
Numa das sessões iniciais de tortura, os policiais saíram por alguns minutos,
e Jurema viu uns papéis em cima da mesa. Percebeu que neles estava todo o organograma
da Organização. Isso, então, já estava inteiramente dominado por eles. E pensou
consigo mesma: “Vou abrindo isso devagar, confirmando o que eles já têm, já
que não sabem que eu sei que eles já têm tais informações”.
E na tortura, ia abrindo devagar a estrutura organizativa da Var-Palmares, a
organização a que pertencia, como se estivesse fazendo isso devido à tortura.
A glória do torturador é conseguir um ponto. Um local onde o torturado vai encontrar
um companheiro. Era prática das organizações revolucionárias ter vários pontos
marcados, para as situações mais variadas. E a repressão sabia disso. E eles
queriam que Sarno e Jurema dessem um ponto. Que entregassem alguém da Var. Deram,
e este ponto era previamente combinado com a Var: se alguém aparecesse nele,
era sinal de que estava preso. Ninguém devia se aproximar. À distância, militantes
observando teriam a informação. E só deram esse ponto três dias após a prisão.
Sarno, logo nos primeiros dias, teve o nariz quebrado, e isso provocava um sangramento
abundante. Percebeu que quando sangrava, o capitão Homero (veja capítulo anterior),
que durante todo o tempo comandou a tortura deles, ficava histérico, gritava
continuamente:
– Pára, pára!
Por ironia das ironias, o capitão-torturador não gostava de sangue, de ver sangue
jorrando. E Sarno, então, forçava o nariz para que o sangue jorrasse o mais
abundantemente possível. E o capitão então gritava, à beira da histeria, e pedia
que parassem, que dessem um jeito de estancar “aquilo”.
Jurema perdeu oito quilos em oito dias, um por dia. Ficou esquelética. Os dois
conseguiram manter a história que haviam combinado antes de serem presos. Tinham
contato com um militante chamado Vanderley desde a Bahia. Vanderley era naturalmente
um personagem fictício. Teriam chegado ao Rio de Janeiro por tal contato. E
esta história de alguma forma convenceu os torturadores.
Os dois recordam-se da naturalidade com que os policiais encaravam o seu ofício.
Volta e meia, um deles trazia os filhos, e cheio de orgulho dizia:
– É aqui que o papai trabalha.
Uma semana de tortura. Uma interminável semana. Foi o primeiro contato de Jurema
com a dor e o medo. Fora uma criança bem cuidada, de pais que exercitavam o
diálogo. Uma adolescente bem tratada. E ela pensava que a dor, quando viesse,
podia ser enfrentada com tranqüilidade, sem medo. Mas é que a primeira experiência
com a dor e o medo foi o terror, a brutalidade sem limites, a absoluta desumanidade,
a não consideração pela existência humana.
A violência, que provocava a dor e que estimulava o sentimento do medo, era
muito maior do que ela esperava. Melhor, ela até imaginava que fosse assim.
Mas enfrentá-la é outra história. Resistiu e não chegou ao descontrole. Mas
até hoje sente os reflexos daquela experiência de terror, de dor e de medo.
Medo e dor que ela não...
|